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A.I. tornou-se na Circe dos tempos modernos

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Imagem: Raquel Costa, pastel de óleo

Circe, em Homero, é uma feiticeira que transformou os companheiros de Ulisses em porcos, despojando-os de uma aparência humana, mantendo, porém, intactas as suas mentes. Aqui está subjacente uma alegoria à bestialidade dos homens que, quando são indulgentes em vida ou não praticam ações dignas, assemelham-se a animais selvagens – no caso dos companheiros de Ulisses, corpo e mente estão em consonância, pois dos porcos nada os distingue.

A inteligência artificial não tem poderes mágicos como Circe, no entanto, é ainda mais bem sucedida no que toca a reduzir e fragmentar as nossas capacidades intelectuais, que nos distinguem dos animais selvagens. Não querendo diminuir o seu contributo no avanço das tecnologias em áreas científicas, a utilização da I.A. padece de um problema muito relevante: qualquer pessoa tem acesso a ela.

Qualquer pessoa com um dispositivo móvel pode aceder e utilizar livremente os servidores de inteligência artificial, criando textos, imagens, vídeos e até, mais recentemente, música. Isto não só compromete o processo de criação de arte pelas pessoas que se dedicam arduamente e se especializam na elaboração de trabalhos, sem atalhos, mas põe também em sério risco a criatividade e a capacidade de pensar criticamente. Esta tecnologia é desenhada para facilitar a vida das pessoas, aliás, como toda a invenção tecnológica. Porém, chegamos a um nível de tamanha moleza existencial que, até as atividades que nos deveriam conectar como seres humanos, que nos identificam – as que, através de um processo de aprendizagem e de evolução nos dão a conhecer melhor o mundo, os outros e a nós próprios (como é o caso, por exemplo, da escrita, da pintura e da música) – são excessivamente facilitadas e oferecidas de bandeja, não requerendo esforço para realizá-las e eliminando também qualquer autogratificação em concluí-las. Já não precisamos de nos esforçar para nada, de pensar muito ou de explorar as próprias ideias – uma máquina pode fazer tudo por nós. 

Não é uma coisa temível de experienciar? SUBSTITUIÇÃO.

“You know what drives me crazy? It’s all these people talking about how great technology is, and how it saves all this time. But, what good is saved time, if nobody uses it? If it just turns into more busy work. You never hear somebody say, “With the time I’ve saved by using my word processor, I’m gonna go to a Zen monastery and hang out”. I mean, you never hear that.”

  • Jesse no filme “Before Sunrise”

À tamanha desvalorização do processo artístico de criação está aliada a desvalorização da própria cultura educadora do Homem durante milénios. Milénios esses em que o homem aprendeu sobre ética, moral e uma vida estimável, através de histórias contadas pela tradição oral, mais do que agora que possui todas as fontes e possibilidades de encontrar conhecimento. Quanto mais lhe dão – ao Homem – e lhe facilitam a vida, proporcionalmente menor é o seu apetite por conhecer. Só porque podemos ter o trabalho facilitado, isso significa que devemos sempre querê-lo? 

A pintura está a perder o seu papel extasiante e sedutor da mente, a literatura o seu papel doutrinador do espírito, o cinema é realizado a contar com uma audiência sem capacidade interpretativa – tudo porque ao facilitarem a nossa vida estão apenas a destreinar o nosso cérebro, a reduzir a sua atividade. 

“Cansado de pensar, a pensar fico”

  • Fernando Pessoa em “Horror! Não sei ser inconsciente”

O mundo não precisa de mais intervenção da I.A. na cultura. Já chegamos a um nível em que até as capas de artigos de jornal são geradas por inteligência artificial, criaram-se músicas com vozes roubadas, séries com roteiros não originais e pinturas alteradas ou que nunca existiram – tudo com os dados de milhões de pessoas, organizados em algoritmos; mas nunca humanos. Uma utilização de inteligência artificial é uma utilização a mais, mesmo em contexto de estudo. A autonomia decorrente de procurar fontes e ir longe em pesquisa é impulsionadora de uma mente mais autossuficiente e preparada para lidar com situações complexas, porque foi treinada a pensar na sua resolução. 

Alguém que escolhe comunicar-se com um bot de I.A. não está preparado para lidar com o vazio, ou com o aborrecimento, quando sempre esteve habituado a ter respostas simples e diretas para as quais não teve que pensar ou esforçar-se. A I.A. transforma o que antes nos era um processo natural de maturação e crescimento como seres humanos, complexo, mas necessário, a uma coisa simples com ausência de intricamento, dificultando tarefas que nos deveriam ser habituais, como interpretar, pensar ou inventar, por causa da prótese cerebral que instalamos por nossa própria conta e risco. Para além dos impactos ambientais controversos, a inteligência artificial contribui para um ceifar de atividades que nos ligam ao mundo e a nós próprios, numa sociedade já altamente desconectada tanto do eu quanto do nós. 

Circe conseguiu reverter os porcos em humanos novamente, a pedido de Ulisses, com a sua magia prodigiosa. O que significa que talvez haja uma esperança na reversão desta disputa entre Homem e máquina, que resulte na emersão do humano com a sua autonomia intacta e mais estimada ainda, porque somos e vivemos de cultura, a que fazemos com o nosso espírito. 

Temos a possibilidade de escolher se queremos o caminho humanizante da tentativa-erro até chegar a uma imperfeição profundamente sensível e complacente ou o deterioramento dessas capacidades em cliques de botões automatizados e sem alma. 

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