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Artigo de Opinião

Palestina, Israel, Hamas – a ilusão do lado bom

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Imagem: Belal Khaled (Anadolu Agency)

O conflito israelo-palestiniano, que perdura há décadas, sofreu uma recente escalada, que finalmente (e infelizmente tardia) mereceu a atenção da comunidade global. 

Este artigo não traz novidades, nem pretende tomar lados, não pretende dizer quem está certo, quem tem direito à guerra, quem não tem. Pretende simplesmente uma coisa, que é demonstrar que não há um lado correto a partir do momento que as atrocidades e os crimes de guerra são amplamente cometidos dos dois lados deste conflito. Mais uma vez, senhoras e senhores, a guerra, o lugar do fanatismo religioso, o lugar da ocupação territorial e controlo, é a maior máquina de dinheiro do nosso mundo “muito civilizado”.

Nos últimos dias, tal como muita gente, tenho dedicado o meu tempo ao conflito Israel-Hamas. Quem se envolve nestas temáticas acaba por ser sugado para um mundo de dúvidas, tristeza e um embate direto com a realidade deprimente e selvagem do nosso mundo. A quantidade de noticiais de atrocidades cometidas contra civis é assustadora, e deixa-nos revoltados com a situação. A formulação das nossas opiniões provém dessa zanga, dessa ansiedade e revolta contra as situações injustas tornado, essas opiniões, pouco fundamentadas porque surgem do medo e não da racionalidade. Com isto sugiro que cada um faça uma análise mais aberta (mentalmente) e pormenorizada da situação, e ao mesmo tempo uma introspetiva pessoal que muitos precisam (inclusive e destacando os nossos políticos mundiais). Não tento tomar lados, porque acho que, neste momento, a última coisa necessária será motivar a guerra. Ao escolhermos lados, tal como os nossos incompetentes políticos têm feito, não só alimentamos o conflito como também cometemos o erro de apoiar criminosos responsáveis, dos dois lados, por massacres e crimes de guerra que em nenhum momento poderão ser justificados.

Israel criou a sua prisão ao ar livre na Faixa de Gaza em 2007, e desde então os Palestinianos que aí residem, sobrevivem somente com ajuda humanitária, havendo cálculos que estimam uma ajuda necessária para cerca de 80% da população. O controlo deste território pelo Hamas trouxe, ao longo destes largos anos, inúmeros ataques por parte deste grupo a Israel, que são respondidos pelo mesmo com bombardeamentos sucessivos de áreas residenciais da Faixa de Gaza, onde morrem civis, inclusive inúmeras crianças. Uma nota: sendo Israel um dos mais avançados países no que toca a sistemas de informação e reconhecimento, como é que cometem o “erro” de atingir locais residenciais que nada têm a ver com a guerra?

Nesta recente escalada do conflito, o grupo Hamas, foi capaz de romper o avançado sistema de defesa e reconhecimento israelita, causando uma onda de violência inédita, responsável pelo massacre de centenas de israelitas. Obviamente, que estas atrocidades descabidas não possuem justificação plausível, porque o ataque do Hamas, à semelhança dos ataques israelitas, não foi direcionado para estruturas ou pessoal militar, mas sim civis, que repito, não têm responsabilidade sobre o conflito. A resposta de Israel é obviamente de vingança, mas mais uma vez conseguiu cometer o crime de atingir inúmeras áreas civis da Faixa de Gaza.

A tristeza é avassaladora, os números, as estatísticas, os vídeos e fotos, as notícias no geral, demonstram uma realidade selvagem de um mundo que o ser humano dizia pertencer à nossa História. Temos-lhe chamado guerra e conflito, eu próprio ainda não encontrei outra palavra, mas a verdade é que isto é somente terrorismo, cometido tanto por Israel como pelo Hamas. O fanatismo religioso e patriota deste último grupo (Hamas) que dizima tudo e todos no seu caminho, e a resposta vingativa de Israel, são responsáveis pela morte de milhares de civis, tornando isto em atos criminosos de limpeza étnica e não atos de guerra. Em números atualizados, mais de 400 crianças mortas, 11 voluntários da Cruz Vermelha e da ONU mortos, civis debaixo dos escombros, cerca e 2600+ mortos num espaço de 6 dias. Tal como o Jornal Público avançou, poderemos colocar a questão “quem está Israel a punir, o movimento islamista Hamas ou os civis palestinianos?”.

Este conflito é uma situação extremamente frágil de comentar, porque, para além da quantidade de informação contraditória, não há um lado que seja merecedor de algum tipo de concordância ou apoio. O único lado verdadeiramente heroico, bom, e merecedor de qualquer tipo de auxílio são os civis palestinianos e israelitas. Também, estes artigos são os mais difíceis de escrever, porque quero dizer tudo o que sinto, toda a zanga, ansiedade e tristeza. Quero combater todas as injustiças através das palavras, mas quando começo a escrever fico sem palavras, porque sinto que são insuficientes para fazer jus às vítimas destes terrorismos, e porque não quero cometer o erro de tomar um lado. Desta forma, relembro apenas que isto não é o caminho correto, a diplomacia não está a resultar, mas alimentar o conflito com armamento como os EUA fazem, alimentar as diferenças entre povos como os políticos israelitas fazem (caso de Yoav Galant, ministro da defesa israelita), justificar a vingança israelita, obra dos políticos mundiais, não são (repito NÃO SÃO) as formas corretas de se enfrentar este problema. Parece que ninguém quer a paz, só querem “sair por cima” mesmo que isso cause a morte de crianças e civis.

A tristeza que subsiste nas últimas notícias é avassaladora. A morte das jovens, no caso particular, luso israelitas, uma delas de impossível reconhecimento devido à explosão de uma granada, é tocante e revoltante. Os vídeos dos palestinianos a fugirem dos mísseis, sentados no meio dos escombros, com os restos mortais dos seus familiares, são, no mínimo, excruciantes. As crianças, ensanguentadas, a chorarem pelos seus pais mortos, são imagens que marcam este conflito, e marcam a nossa triste e repudiante humanidade. Nestas alturas, tenho vergonha e ódio de ser humano e de viver neste mundo, e nesta geração que ainda não foi capaz de mudar o rumo da história. Continuamos a ser movidos pelo fanatismo religioso, pela riqueza, pela ganância e pelo poder, traços gerais que vemos na história global e muitas vezes repudiamos, no entanto, repetimos sucessivamente.

Sugiro que cada um faça o exercício de imaginar viver este terror, não acreditando que alguém o consiga fazer. Mais uma vez, o nosso mundo falhou, os nossos políticos globais são os fantoches do poder, do dinheiro, e continuam a jogar com a vida dos seus povos.

Deixo os números, com a tristeza de não poder ser os nomes de cada uma das vítimas.

  • 1417 mortos na Faixa de Gaza desde o início dos ataques de Israel, sendo 448 crianças e 228 mulheres.
  • 1300 mortos desde os ataques do Hamas, com várias crianças e mulheres entre os números.
  • 11 voluntários mortos, representantes da Cruz Vermelha

(Estes números foram avançados tanto pelo Ministério da Saúde da Palestina como pelo governo israelita. No caso dos voluntários a cruz vermelha confirmou através de um porta-voz, no dia 12 de outubro de 2023.)

Entretanto, numa última atualização dia 17 de outubro, olhamos para um total de mortos de cerca de 4200 pessoas.

Artigo da autoria de Daniel Madeira

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