Connect with us

Cultura

Babell: O pensamento vivo de Byung-Chul Han e a inauguração do Jardim do Pensamento

Published

on

O dia 24 de junho ficará marcado no calendário cultural da cidade como o arranque oficial do Babell, o evento literário que promete colocar o Porto no centro do debate sobre o presente e o futuro da sociedade contemporânea através dos livros e da leitura. Com a sessão esgotada e um público repleto de  expectativa em níveis elevados, a conferência de abertura contou com a presença de um dos filósofos mais lidos e influentes da atualidade, o germano-coreano Byung-Chul Han.

 

Créditos: Lívia Bueno

Pela manhã houve uma cerimónia de inauguração que contou com a presença  do Presidente da República, António José Seguro, do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, do secretário de Estado da Cultura e do presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, assim como representantes de outras câmaras como Maia e Matosinhos, autores, como Valter Hugo Mãe e Rafael Gallo e do arquiteto Álvaro Siza Vieira. Na ocasião, para além dos discursos institucionais, foi anunciada a expansão da Livraria Lello, com a ala Siza Vieira e a criação da livraria mais pequena do mundo, a 1984, inspirada no conceito japonês de disponibilizar apenas um título por vez. Por fim, foi também inaugurada a instalação inédita A4, do artista Ai Weiwei.

Marcada para às 15h30, a sessão teve um atraso de cerca de hora e meia, o que gerou algum protesto pela parte do público, fazendo com que algumas pessoas deixassem o recinto antes ou mesmo à meio da apresentação. O motivo do atraso não foi informado, contudo, uma representante da organização subiu ao palco e desculpou-se pelo ocorrido, ainda com a reprovação de alguns membros da plateia. Consciente da importância da experiência para os participantes, Rui Couceiro, comissário do festival, geriu a situação com prontidão e, para assegurar que ninguém ficasse privado do acesso ao conteúdo, foi disponibilizada uma alternativa: os interessados que não conseguiram assistir à sessão original puderam deixar o seu contacto de e-mail para participar numa nova sessão, a realizar-se já no próximo sábado, na icónica Livraria Lello.

 

Quando Byung-Chul Han subiu ao palco, a sua presença foi marcada por um gesto quase performativo: o filósofo trazia consigo magnólias colhidas nos jardins do Mosteiro de Leça do Balio, cujo perfume a limão serviu de fio condutor para as suas reflexões ao longo da palestra que desmembrou a crise do sujeito atual. O filósofo explorou o impacto da digitalização, descrevendo-a não apenas como um avanço técnico, mas como uma força que altera a nossa própria estrutura de percepção. Han aproveitou-se da sua introdução para confessar aos presentes que quase não sai de casa e passa o dia ao piano. Além disso, esta foi a primeira viagem feita por ele este ano, assim como foi a primeira vez que apresentou-se ao ar livre num jardim.

Entre reflexões sobre a persistência da ideia da existência e da crença em Deus  e da urgência de recuperar a contemplação num mundo hiperativo e focado no rendimento, Han desafiou a audiência a repensar a sua relação com o tempo, enfatizando a ideia do jardim como um lugar para a contemplação.  Entre algumas citações, estiveram presentes excertos de Nietzsche e Simone Weil, onde desta, recorreu ao seu pensamento que diz que “Deus é a atenção sem distrações”. Segundo o autor, a crise da religião  que, ressalvou, nada tem a ver com dogmas, padres ou instituições eclesiásticas decorre, fundamentalmente, do declínio da atenção. A ausência de Deus no mundo atual é, portanto, a ausência de uma atenção plena e não fragmentada.

O autor de A Sociedade do Cansaço sublinhou que, ao perdermos a capacidade de contemplar, perdemos também a capacidade de habitar o mundo de forma plena, destacando uma confusão profunda entre a liberdade e o compromisso, argumentando que a nossa comunicação acelerada e o tempo fragmentado desgastaram a nossa capacidade de estar no mundo. Han tem um olhar severo sobre a sociedade e afirma que transformámo-nos em “gado do consumo”, movidos apenas pelo desejo de ingerir e consumir, perdendo a capacidade de olhar para o outro e para a terra, que reduzimos à categoria de mero recurso. O filósofo apontou para uma espiral de dependências onde passamos de um vício para outro, num ciclo de estímulos constantes que esvazia a nossa humanidade.

Para Han, o excesso de conformação atual constitui um obstáculo  ao desenvolvimento da democracia, já que a própria distinção entre verdade e mentira foi minada pelo ruído digital. O filósofo criticou a obsessão contemporânea em “ser alguém” e “ser importante”, defendendo o valor radical de “ser ninguém”, pois o verdadeiro esvaziamento do ego ocorre quando aceitamos a insignificância como forma de libertação. Ao encerrar, a sua mensagem foi clara: enquanto continuarmos reféns da aceleração e da falta de foco, continuaremos a ignorar a profundidade da existência, perdendo a capacidade de habitar o mundo para além da superfície do consumo.

  • Byung-Chul Han_Babell_Dia 1_Lívia Bueno

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *