Opinião
Muito mais do que uma modalidade: a paixão do hóquei em patins em Portugal
Decidi escrever sobre uma das modalidades mais queridas do desporto português. Não apenas porque Portugal é uma referência internacional no hóquei em patins, com vários títulos europeus e mundiais ao nível das seleções, nem apenas pelo domínio que os clubes portugueses têm vindo a demonstrar nas competições europeias. Escrevo também porque esta é uma das minhas modalidades favoritas e porque, recentemente, o meu clube, o FC Porto, se sagrou campeão europeu em Coimbra, ao vencer o Barcelona por 3-1, num jogo que tive a oportunidade de acompanhar ao vivo.
Há modalidades que se observam à distância e outras que se sentem no calor do jogo. O hóquei em patins pertence claramente à segunda categoria. Entrar num pavilhão português num dia de jogo é entrar num ambiente onde tudo acontece a uma velocidade difícil de acompanhar, sobretudo para quem nunca teve contacto com esta modalidade.
O som constante dos sticks a bater, os patins a deslizar no rinque, os remates violentos dos craques das equipas portuguesas, as defesas quase impossíveis dos guarda-redes e a proximidade das bancadas criam uma atmosfera única no panorama desportivo nacional. Para mim, é sempre uma alegria acompanhar um jogo de hóquei do FC Porto.
Existe também algo profundamente autêntico na forma como o hóquei em patins é vivido em Portugal. Mesmo sem o destaque mediático constante do futebol, os pavilhões continuam cheios de emoção, cânticos e rivalidade saudável. Há uma sensação de proximidade que o desporto moderno, cada vez mais comercializado, muitas vezes parece ter perdido.
A paixão das pessoas e a identidade das cidades
O hóquei em patins não vive apenas dentro do rinque. Vive, sobretudo, das pessoas que acompanham os clubes há décadas, das famílias que passam esta paixão de geração em geração e das cidades onde a modalidade faz parte da identidade local.
O que eu pessoalmente mais gosto no hóquei em patins é precisamente essa proximidade que existe entre os adeptos e a equipa, sobretudo nos jogos fora. Ao contrário de outras modalidades mais massificadas, no hóquei ainda existe uma sensação de ligação direta ao clube e aos jogadores. Mesmo longe de casa, é comum ver adeptos a percorrer quilómetros para apoiar a equipa, criando ambientes intensos em pavilhões muitas vezes pequenos, mas cheios de emoção.
Nos jogos fora sente-se algo difícil de explicar a quem nunca acompanhou a modalidade de perto. Os adeptos acabam por viver praticamente “dentro” do jogo, tão perto do rinque que conseguem ouvir os jogadores, sentir a velocidade das jogadas e viver cada lance com enorme intensidade. Muitas vezes, bastam algumas dezenas de adeptos para transformar completamente o ambiente de um pavilhão.
Essa proximidade acaba também por criar uma ligação emocional muito forte entre clube e adeptos. No hóquei em patins ainda existe uma sensação de comunidade que o desporto moderno, cada vez mais comercializado, muitas vezes perdeu. Os jogadores reconhecem os adeptos, os adeptos acompanham a equipa em diferentes cidades e cria-se uma identidade coletiva muito própria. É precisamente essa autenticidade que faz do hóquei em patins uma modalidade tão especial para quem a vive de perto.
AD Valongo: hóquei em patins
A AD Valongo é, neste contexto, um caso especial. Trata-se de um clube com uma massa adepta leal e profundamente ligada à cidade. O título nacional conquistado na época 2013/14 continua a ser um dos grandes exemplos da autenticidade, da imprevisibilidade e da competitividade do campeonato português. Numa das épocas mais emocionantes da história recente da modalidade, as três primeiras equipas terminaram empatadas com 74 pontos, com tudo decidido apenas na última jornada. A cidade viveu esse momento de forma intensa, demonstrando bem a força emocional que o hóquei em patins pode ter numa comunidade.
Essa imprevisibilidade é, a meu ver, uma das razões que torna o campeonato português um dos melhores do mundo. Não são apenas os chamados “grandes” que dão dimensão à modalidade. O Óquei de Barcelos, campeão europeu em 2025 em Matosinhos frente ao FC Porto, é outro exemplo da força competitiva dos clubes portugueses. A Oliveirense, pela sua tradição e qualidade, continua frequentemente a complicar a vida aos principais candidatos ao título. O Hóquei Clube de Braga também representa essa capacidade de resistência, crescimento e afirmação de clubes que ajudam a tornar o campeonato mais equilibrado e interessante.
Esta relação emocional ajuda a explicar porque é que o hóquei em patins é tão especial em Portugal. São os adeptos que continuam presentes, os dirigentes locais, os treinadores da formação e todos aqueles que, fim de semana após fim de semana, mantêm viva uma modalidade que pertence verdadeiramente à cultura desportiva portuguesa.
Apesar de muitas vezes afastado dos grandes debates mediáticos, o campeonato português de hóquei em patins continua a ser um dos mais fortes e competitivos do mundo. Portugal mantém uma enorme tradição na modalidade e continua a produzir alguns dos melhores jogadores internacionais.
A competitividade do campeonato sente-se praticamente em todas as jornadas. Não existem jogos fáceis e a intensidade competitiva é constante. Equipas históricas como FC Porto, Sporting CP, SL Benfica, OC Barcelos ou UD Oliveirense ajudaram a construir uma cultura vencedora que continua a dar prestígio internacional ao hóquei português.
A qualidade técnica da modalidade continua igualmente impressionante. O hóquei em patins exige velocidade de pensamento, capacidade física, coordenação, criatividade e enorme qualidade individual. Muitas jogadas acontecem em poucos segundos e obrigam os atletas a tomar decisões rápidas sob pressão constante. Isso torna o espetáculo extremamente dinâmico para quem acompanha os jogos ao vivo.
Portugal continua também a destacar-se pela formação de jogadores. Muitos atletas portugueses acabam por competir ao mais alto nível internacional, contribuindo para manter o país entre as principais referências mundiais da modalidade. Mesmo assim, o reconhecimento público muitas vezes continua abaixo da dimensão histórica e competitiva do hóquei português.
Muito mais do que uma modalidade
Texto da autoria de Alexandre Ribeiro