Crónica
Procuram-se Leitores
Numa entrevista recente da revista americana Interview Magazine, a influencer Alix Earle, quando questionada sobre o último livro que leu, revelou que nunca tinha lido nenhum, apenas Dr. Seuss, autor do êxito infantil The Cat in the Hat. Inicialmente, parece uma resposta chocante, mas na era fortemente digital em que vivemos, o declínio da leitura pode estar mais perto do que pensamos.
Atualmente, todo o conteúdo que nos chega tem de ser chamativo, de curta duração e produzido de forma quase instantânea, para, assim, satisfazer o público-alvo. Com apenas um clique e alguns segundos de espera, conseguimos obter um vasto leque de informação sobre um certo tema ou conceito e um vídeo de, no máximo, um minuto consegue resumir todo um acontecimento.
É impossível negar que tais avanços tecnológicos não beneficiaram a forma como adquirimos informação hoje em dia. O problema surge, porém, quando ficamos demasiado dependentes desse formato e começamos a perder a capacidade de apreciar algo que leve mais tempo a ser interpretado e que tenha outros significados implícitos.
A Crise Eminente do Pensamento Crítico
Este fenómeno já chegou, também, ao mundo literário. Muitas pessoas negligenciam a leitura em prol, por exemplo, das redes sociais, que oferecem estímulos mais visuais e imediatos. Tal não significa que os dois não possam coexistir, mas se a tendência continuar a ser para o crescimento da segunda e o declínio da primeira, as consequências poderão ser preocupantes.
A criação de hábitos de leitura ajuda-nos não só a ocupar a mente nos tempos livres, como também a desenvolver competências de pensamento crítico e criativo. Mergulhar numa obra de ficção ou numa história verídica permite-nos criar um novo universo nas nossas mentes e forjar as ferramentas necessárias para ler nas entrelinhas e perceber a verdadeira mensagem que o autor nos está a tentar transmitir. Todos os livros têm alguma lição a ensinar, desde os contos de fadas até aos clássicos, e a nossa missão como leitores é conseguir descodificá-la para formarmos os nossos próprios juízos de valor.
A constante exposição a vídeos que decretam algo como indubitável leva-nos a formar certezas sem primeiro questionarmos as suas fontes, o que conduz a uma maior vulnerabilidade perante a desinformação. É precisamente este comportamento, aliado ao abandono da leitura, que constitui uma ameaça ao desenvolvimento do pensamento crítico.
Um Ponto de Convergência Chamado BookTok
No entanto, há uma luz ao fundo do túnel. Em plena pandemia de COVID-19, popularizou-se, na aplicação TikTok, uma comunidade de amantes de livros que partilha vídeos sobre opiniões e recomendações de livros dos mais variados géneros – o BookTok. O movimento conta já com bilhões de visualizações e a sua influência impulsionou um forte crescimento da leitura, principalmente entre adolescentes e jovens adultos. Agora, os leitores têm acesso a todo o tipo de conteúdo literário e podem, também, contribuir e partilhar as suas próprias experiências.
Porém, num mar de opiniões, surge a pergunta: lemos porque gostamos ou porque queremos exibir esse gosto? Afinal de contas, vivemos numa sociedade onde a tendência para o consumismo é cada vez mais crescente, especialmente com a grande acessibilidade da internet, e, no BookTok, tal adquire uma vertente física e intelectual.
Cada vez são mais os vídeos nos quais criadores mostram as suas estantes a transbordar ou catalogam os inúmeros livros que conseguiram ler num curto espaço de tempo. Em teoria, não há nenhuma problemática em ser um leitor ávido, mas quando passa de uma atividade de lazer para a propagação de uma competição de “quem lê mais” ou “quem segue melhor as tendências”, fragmentos começam a surgir na comunidade.
Com a crescente evolução da tecnologia, surge, ainda, o problema da Inteligência Artificial no mundo literário. O uso destes programas para escrever uma história de raiz parece a solução mais fácil, visto que nos daria todo um novo universo numa questão de segundos. No entanto, fica a faltar o aspeto mais importante da literatura – o lado humano.
Leitores: O Caso das Distopias
Apesar de muitas vezes reduzidas a meras histórias sobre universos imaginários e realidades distantes, as obras distópicas são, a meu ver, a forma de literatura que melhor capta a essência humana e o funcionamento da sociedade. O verdadeiro paradoxo da felicidade.
Desde o fenómeno young adult de Suzanne Collins Os Jogos da Fome até aos clássicos engenhosos de George Orwell e Margaret Atwood, as distopias colocam-nos em cenários políticos e sociais extremos e fazem-nos questionar a razão pela qual as personagens aceitam determinadas regras, quem beneficia (ou não) delas e o que acontece a quem as desafia.
Assim, é, por vezes, necessário imaginar contextos sociais radicais para conseguirmos reconhecer os alertas no mundo atual. Casos de rebelião social, pobreza e formas de governo disruptivas que consideramos muito distantes de nós e restritos a páginas de livros podem estar mais perto de serem a nossa realidade do que pensamos.
Inevitavelmente, estas histórias não falam apenas de um futuro alternativo, mas também do presente e da facilidade com que aceitamos o mundo ao nosso redor sem o questionar. Um clima de conflito, protesto e agitação marcam a sociedade atual e reforçam a importância de estarmos familiarizados com estas obras – ler o impossível para compreender o possível.
Ray Bradbury afirma que “um livro é uma arma carregada na casa ao lado” e, hoje em dia, tal nunca fez tanto sentido. Afinal, se um livro tem o poder de mudar a forma como vemos o mundo, que mundo estamos a escolher construir quando deixamos de ler?
Texto da autoria de Madalena Neves
