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Crónica

“Pede um Desejo”: a Cultura das Superstições

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Valerá a pena deixar que um espelho partido ou um escadote dite a nossa prosperidade? | IMAGEM: Pexels

Velas de aniversário, sal, laranjas e uvas passas: todos podem ser encontrados num supermercado e, também, todos adquirem certos significados sobrenaturais em diversas culturas. Quer por crença pessoal, como por influência de histórias desde há muito contadas, todos nós já praticámos algum tipo de ritual supersticioso. Mas serão eles capazes de manipular o futuro tanto quanto as pessoas acreditam?

O termo “superstição” deriva da palavra latina superstitio, que designa um medo excessivo dos deuses e do sobrenatural. Apresenta-se como o contrário de religio, um conjunto de crenças e rituais morais considerados, na Antiguidade Clássica, a verdadeira forma de devoção aos deuses. Assim, o termo é comummente associado a certas práticas com “poderes mágicos” que derivam de crenças sem fundamento aparente.

Muitas destas crendices são já velhas amigas do ser humano. Povos antigos, desde os egípcios até aos celtas, acreditavam que as árvores eram a morada terrestre dos deuses e, assim, bater no tronco era um sinal de invocação da divindade e agradecimento pela sua proteção. Daqui nasce o costume de bater numa superfície de madeira para evitar que algo de mau aconteça.

Já na Era Clássica, o mati, ou “olho grego”, era utilizado para afastar as energias negativas e o mau-olhado, constituindo um dos amuletos mais emblemáticos do mundo até aos dias de hoje. Tanto os gregos como os romanos tinham, também, por costume lançar moedas em fontes ou rios, como oferendas ou pedidos às divindades aquáticas.

Na Idade Média, devido principalmente à forte influência da Igreja e ao pouco conhecimento científico, espalharam-se, também, diversas crenças sobrenaturais associadas à “bruxaria”. É aqui que nasce o azar que os gatos pretos e as sextas-feiras 13 alegadamente trazem, sendo o primeiro associado a bruxas e o último uma referência religiosa ao dia da crucificação de Jesus Cristo e ao número de pessoas presentes na Última Ceia.

Da Crença ao Perigo

As superstições fazem parte da História e do folclore de diversos povos, derivando de contextos culturais, religiosos e, até, ambientais específicos. Funcionam, portanto, como uma forma de aproximar o humano ao metafísico e de criar explicações simples para fenómenos que são, na sua maioria, aleatórios, gerando uma sensação de controlo, segurança e uma suposta relação de causa-efeito. Assim, têm o poder de moldar a nossa perceção do mundo, os nossos pensamentos e comportamentos, alimentando a nossa vertente emocional mais do que a racional.

Quando o nosso cérebro recebe uma informação nova, a primeira reação é tentar compreendê-la e integrá-la no conhecimento que já temos. Apenas num segundo momento é que procuramos avaliar se tal informação é verdadeira ou falsa, exigindo um duplo esforço mental. Para além disso, ler ou ouvir uma afirmação repetidamente e, ainda, transmitida por alguém de confiança ou autoridade, faz com que ela nos soe cada vez mais verdadeira e, gradualmente, fique mais difícil de contrariar.

Muitas destas crendices são inofensivas – afinal, que mal tem pedir um desejo ao soprar as velas de aniversário ou usar as “meias da sorte” para uma entrevista importante? O verdadeiro problema surge, porém, quando atingem proporções perigosas.

Superstições e Fé

A cidade espanhola de Terrassa, na Catalunha, suspendeu temporariamente a adoção de gatos pretos durante todo o mês de outubro do ano passado, para evitar que estes fossem vítimas de rituais e maus-tratos associados às celebrações do Halloween. Para além disso, diversas ONG confirmaram que os gatos pretos estão entre os mais difíceis de serem adotados e, quando o são, a probabilidade de sofrerem agressões é bastante elevada.

Apesar de a superstição destes felinos trazerem azar ter sido criada há séculos atrás, a violência contra eles persiste, infelizmente, até aos dias de hoje. Trata-se, assim, de uma crença alicerçada em valores irracionais e antiquados que foi levada ao extremo, trazendo consequências radicais e nefastas para estes animais.

As redes sociais constituem, também, um dos lugares mais propícios para a proliferação de superstições. Todos nós já nos deparámos com uma mensagem ou um vídeo que garante algum tipo de azar se não os enviarmos a um certo número de pessoas. Aqui cria-se uma espécie de “câmara de eco”, na qual esse tipo de conteúdo, ao ser partilhado, continua a aparecer recorrentemente. No entanto, “viralidade” não equivale a veracidade e muitas dessas informações são meramente sensacionalistas, podendo até criar um sentimento de obrigação em partilhá-las, por ameaça de má sorte. Consequentemente, tal origina uma corrente virtual de superstições, agilizando a sua difusão.

A “Área Cinzenta” das Superstições

A verdade é que muitos de nós, conscientemente ou por influência externa, ouvimos falar e fazemos uso de inúmeros rituais irracionais nas nossas vidas. Mas valerá a pena deixar que um espelho partido ou um escadote dite a nossa prosperidade? Para tal, faço das palavras de Stevie Wonder as minhas – “When you believe in things you don’t understand, then you suffer. Superstition ain’t the way”.

 

Texto da autoria de Madalena Neves

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