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Crónica

Manual de Sobrevivência 2026: Tarifas, Tanques e Torrentes

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“O planeta 2026 parece um recreio caro: os mais velhos disputam quem manda no jogo — e os outros tentam não levar com a bola na cara.” | Ilustração: Arquivo Pessoal

Há semanas em que o noticiário parece um guião rejeitado de série de streaming. Demasiado exagerado para ser verdade. Demasiado verosímil para ser só ficção.

Nas últimas, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos disse a Trump que não pode usar uma lei de emergência para brincar de Senhor das Tarifas. Washington, de novo, em tom de “ou aceitam o acordo ou falamos com mísseis”, dirigido ao Irão. Cem mil militares americanos espalhados pela Europa. Como se fosse Erasmus, mas em versão camuflada. Um ex-Príncipe Andrew finalmente conhece a expressão “detido para inquirição”.

E cá em baixo, no canto da Península, um primeiro-ministro a explicar cheias no Mondego com tanta “articulação com a Espanha” que metade do país já acha que o rio fez Erasmus em Salamanca.

Se isto é só fevereiro, não quero imaginar o trailer do resto do ano.

Box das Tarifas: Trump na box de castigo

Comecemos pelos Estados Unidos. Donald Trump descobriu esta semana que nem todos os seus juízes são… os seus juízes.

O Supremo decidiu, por 6–3, que a lei das emergências económicas (IEEPA) não lhe conferia poderes para impor tarifas. Como quem inventa taxas de entrega em aplicações de comida.

Durante anos, o ex-presidente usou essa lei para impor tarifas a meio mundo. Da China à União Europeia. Em nome da segurança nacional.

Era uma espécie de “Black Friday geopolítica”, mas ao contrário. Em vez de baixar os preços, subia-os. E chamava-lhe patriotismo.

Agora, o Supremo olhou para o texto da lei. Olhou para as tarifas. E disse qualquer coisa, como: “Calma. Isto não foi feito para o senhor transformar a economia mundial num reality show de sanções.”

Do ponto de vista jurídico, trata-se de uma decisão sobre a separação de poderes. Do ponto de vista da crónica, é a imagem perfeita de um piloto que entra na curva de Fórmula 1 convencido de que o circuito é dele… e descobre que há mais regras para além dos cones laranjas.

Leva um toque no rail. Salta faísca. E a box chama-o à razão.

“Senhor Trump, os pneus estão gastos. Os travões também. E, já agora, essa interpretação da lei não passa na inspeção periódica.”

Claro que ninguém imagina que isto o faça abrandar. A máquina de comunicação já está a trabalhar. Está em modo “os meus juízes traíram-me”. Em modo “Estado profundo”. E em modo “eles têm medo de mim porque eu defendo o povo”.

O costume.

Mas fica o aviso: até o tribunal mais conservador em décadas tem limites. Há dias em que até quem te deve o lugar decide, discretamente, levantar o dedo e dizer:

“Olhe, aqui não.”

Irão: relógio nuclear em modo snooze

Enquanto Trump leva um puxão de orelhas em Washington, a tensão com o Irão volta a subir de volume.

Depois dos ataques americanos às instalações nucleares iranianas em 2025, o programa ficou em frangalhos. O Médio Oriente ficou a avaliar os danos. E chegámos a 2026 com o relógio outra vez a tocar.

Nos últimos dias, os Estados Unidos voltaram a insistir em “todas as opções em cima da mesa”. Isto, caso o Irão não aceite um novo acordo para travar o avanço nuclear.

Do outro lado, o Irão responde com exercícios navais conjuntos com a Rússia no Mar de Omã. Promete que também sabe mostrar bandeiras e navios quando necessário.

O guião é conhecido. Há um rascunho de acordo. Sanções. “Últimas oportunidades” que nunca são, de fato, as últimas. Reuniões com nomes que soam a ata de condomínio (“Grupo de Contacto”, “Comissão Mista”, “Painel de Avaliação”).

E, por cima de tudo, há milhões de pessoas que só querem não viver com a sensação de que o céu pode, literalmente, cair-lhes sobre a cabeça.

A diferença é que, desta vez, a conversa acontece num mundo já cansado de guerras longas. Entre a Ucrânia, a preparar o quarto inverno de conflito, e Gaza, com uma trégua sempre a meio gás, a ideia de abrir mais um capítulo de “intervenção cirúrgica” tem tanto charme quanto abrir um novo buraco no telhado depois de uma tempestade.

Mesmo assim, a linguagem continua a ser a do ultimato. É como se a diplomacia mundial tivesse um único botão: snooze. Adia-se o alarme. Mas ele volta a tocar.

Erasmus com camuflado: os 100 mil em turismo militar

E porque uma eventual guerra nunca vem só, olhemos para o mapa da Europa. Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, a presença militar americana no continente voltou a níveis não vistos há quase duas décadas.

São entre 80 mil e 100 mil militares, consoante o momento. Distribuídos em bases, rotações e exercícios. E há um piso político recente que diz que não pode haver menos de 76 mil em permanência.

Oficialmente, é dissuasão. Extraoficialmente, para quem vive nestas cidades, é uma mistura de inglês com sotaque. São colunas de veículos a passear pela autoestrada. E é aquela sensação de que a Europa virou residência universitária de superpotência.

Entra e sai gente o tempo todo. Ninguém sabe bem quantos estão. Mas toda a gente garante que é para nossa segurança.

Há quem se sinta mais protegido. Quem se sinta mais alvo. Quem olhe para a fatura da defesa e pense que, se calhar, seria uma boa ideia a Europa aprender, finalmente, a pagar o seu próprio seguro.

Entretanto, os soldados vão correndo, literalmente, pelas ciclovias. Tiram fotografias de castelos medievais. Perguntam onde se come o melhor gelado. Podia ser Erasmus. Se não fosse o detalhe dos tanques.

Desconto real: Andrew em promoção forçada

Saltando para o Reino Unido, temos a saga de Andrew Mountbatten-Windsor. Anteriormente conhecido como Príncipe Andrew. Finalmente descobriu como é ser cidadão quase normal.

Foi detido. Foi interrogado durante horas. E foi libertado com a promessa de que o processo continuaria.

A polícia investiga alegados crimes de “misconduct in public office”. Ou seja, má conduta em funções públicas. Ligados ao período em que Andrew foi enviado como especial do Reino Unido para o comércio internacional. Precisamente os anos em que andava demasiado próximo de Jeffrey Epstein e da companhia dele.

De repente, o homem que já tinha perdido títulos, patrocínios e respeito público depois do famoso “já me lembro de estar na Pizza Express de Woking” enfrenta algo que não se resolve com comunicados. A possibilidade real de acusação. E a possibilidade de ser formalmente removido da linha de sucessão. Coisa que até a Buckingham Palace parece pronta a aceitar se o Parlamento avançar.

Há qualquer coisa de profundamente britânico nisto. O país que inventou a monarquia moderna, os casamentos televisivos e os chapéus impossíveis agora olha para um dos seus ex-príncipes como se olhasse para um voucher fora de prazo. Não dá para usar. Mas também não se pode simplesmente atirar no lixo sem um despacho legal.

Enquanto isso, Kate Middleton aparece num jogo de râguebi. Sorri para as câmaras. E a máquina real continua como se nada fosse.

É o famoso “keep calm and carry on”, na versão do século XXI. Um é investigado por ligações a um predador sexual. Os outros mantêm a agenda. Porque o espetáculo tem de continuar.

La cortina nunca se cierra. Só muda o foco.

Bónus ibérico: o Mondego que fez Erasmus

Voltando ao nosso retângulo, também tivemos o nosso momento de surrealismo político. Depois das tempestades de janeiro e fevereiro — Kristin, Leonardo, Marta — terem deixado o país em modo lagoal, com especial violência no Tejo e no Mondego, o Governo correu para o terreno. Declarou situação de calamidade. E prometeu que “ninguém será deixado para trás”.

No meio das explicações, o primeiro-ministro falou várias vezes sobre a “gestão conjunta das águas com a Espanha”. Referiu descargas em barragens para evitar cheias ainda mais graves. Faz sentido quando se fala do Tejo ou do Guadiana. Rios plenamente ibéricos.

O problema é que, misturado com imagens do Mondego a rebentar diques em Coimbra, o discurso soou a “a culpa vem lá de cima, de Espanha”. Como se o nosso único grande rio 100% português tivesse, de repente, certificado ERASMUS.

O fact-check lá explicou que ninguém disse literalmente que a água do Mondego vinha de Espanha. Mas a piada já tinha ganho pernas — e memes.

E, no meio de casas alagadas, agricultores desesperados e uma ministra a demitir-se após críticas à gestão das cheias, fica a sensação de que há uma facilidade enorme em apontar para os mapas. É uma dificuldade crónica em olhar para décadas de construção em leitos de cheia. Para diques envelhecidos. E para o eterno “isso depois vê-se”.

Se calhar, o Mondego não precisa de articulação com a Espanha. Precisa-se articular-se com a realidade climática em que já vivemos.

Portugal, versão 2026: quando faltam argumentos, sobra maquilhagem ou receitas

E como se já não bastasse esta colagem de episódios, soubemos ainda que o Governo contratou serviços de maquilhagem e de cabeleireiro — pagos com dinheiro público — para garantir “qualidade de imagem” antes de conferências de imprensa.

Há algo de poético num país onde falta telha. Falta o médico. Falta o professor. E, às vezes, falta até luz. Quando não há argumentos, ao menos há blow-dry.

O mais irónico é isto: enquanto há gente a fazer fila por apoios e materiais para reconstruir casas, o Estado garante que os seus porta-vozes não fazem fila no espelho. E depois perguntam por que razão tanta gente já só acredita em política como quem acredita num truque de circo. Só que com menos graça e mais fatura.

Entretanto, enquanto discutimos diques, planos e “articulação”, há adolescentes que levam demasiado a sério a pior ideia possível. Uma tendência nas redes sociais envolvendo paracetamol que já levou jovens ao hospital.

É o retrato perfeito de 2026: já não queremos receitas de cozinha. Queremos “receitas” para ir parar às urgências.

Só que isto não é sátira. É perigo real. Sem glamour nem prémio.

E dá um arrepio perceber que, num país em que há adultos perdidos entre desculpas e comunicados, há miúdos a provar que o verdadeiro “desafio” é simplesmente manter a noção.

 Sobrevivência: E nós, aqui no meio?

Juntando tudo, o quadro é mais ou menos este: temos um ex-presidente norte-americano a descobrir, com atraso, que as leis têm limites. Um conflito com o Irão que insiste em andar à beira do abismo nuclear. Cem mil militares americanos estacionados em solo europeu como prova física de que a Guerra Fria nunca morre. Só muda de guarda-roupa. Um ex-príncipe a aprender o significado de “ninguém está acima da lei” (em teoria, pelo menos). E um país como o nosso a gerir cheias com frases sobre “articulação” que soam melhor em comunicado do que em galochas.

Se o mundo fosse adulto, esta era a parte em que fazíamos uma reunião séria. Com pausas para café. E decidíamos aprender qualquer coisa com isto tudo.

Rever leis de exceção antes de alguém decidir que servem para tudo. Tratar os acordos nucleares com menos testosterona e mais paciência. Não depender eternamente do guarda-chuva americano para a segurança europeia.

Levar a sério as queixas das vítimas antes dos comunicados oficiais. E talvez não construa casas na primeira linha de inundação dos rios que conhecemos desde a escola.

Mas, em vez disso, o planeta 2026 parece um recreio caro. Os mais velhos disputam quem manda no jogo. As bolas voam por todo o lado. Há sempre alguém a ameaçar ir chamar o diretor.

E, no meio, os que só queriam um bocadinho de paz limitam-se a tentar não levar a bola na cara.

Talvez, um dia, as crónicas possam escrever sobre outra coisa que não seja este manual permanente de sobrevivência. Tarifas que vão e vêm. Tanques que chegam e não saem. Torrentes que fazem o trabalho que nós empurramos com a barriga.

Até lá, resta-nos afinar o sentido crítico. Manter o humor minimamente carregado. E, quando ouvirmos alguém dizer que o Mondego vem de Espanha, responder com a calma que o mundo não tem:

“Não, não vem. Mas as desculpas, essas, vêm sempre de muito longe.”

 

Texto da Autoria de Joana Neves

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