Crónica
Fandom, Folares e Furtos qualificados
Há alturas do ano em que o mundo se comporta como uma pastelaria em dia santo: tudo parece excessivo, caro, emocional e embrulhado em papel brilhante. A Páscoa chega, os supermercados fingem abundância, os ovos aparecem vestidos para a ocasião e a infância volta a ser um departamento de marketing com música ambiente. Só que, em 2026, nem a doçaria veio em paz: o chocolate continua caro, a nostalgia está oficialmente promovida como estratégia comercial, os BTS regressaram em modo de religião praticante, Lisboa entrou num videoclipe global e alguém achou sensato roubar 12 toneladas de KitKat em plena Europa. Sim, doze toneladas. Nem o intervalo teve descanso.
Se isto não é uma boa base para uma crónica, já nem sei o que é. Porque há algo de profundamente 2026 em perceber que, enquanto o mundo vende memória com laço, ainda somos capazes de transformar um simples chocolate num assalto logístico digno de filme de ação de baixo orçamento e grande glicemia. E, no meio disto, quem é que aparece quase como um exemplo de civismo? Um fandom pop. Claro. Porque, em 2026, até as lições de educação chegam com coreografia.
A Páscoa: essa altura do ano em que a carteira ressuscita menos do que Cristo
A Páscoa é aquela altura do ano em que o supermercado nos promete infância, mas a fatura insiste em lembrar-nos da idade adulta. Há sempre um folar em cima da mesa, um pão de ló a desabar com dignidade, um queijo amanteigado a prometer tradição e uma avó pronta a dizer que “ao menos nesta altura não se olha a preços”. O problema é que os preços olham para nós. E este ano olharam com vontade.
A Reuters noticiou há dias que os ovos de Páscoa continuam caros, mesmo depois do preço do cacau já ter caído bastante desde os picos de 2024. A explicação, como sempre, vem em linguagem de especialista e de quem já sabe que o consumidor engole tudo: contratos feitos com matéria-prima cara, custos acumulados, cobertura financeira, cadeias de abastecimento, todas essas palavras que servem para dizer, em bom português, que o alívio ainda não chegou à prateleira.
E nós aceitamos. Porque a Páscoa funciona como o combustível: quando parece que vai descer, calma, era só um susto cardíaco e uma notícia mal interpretada. No fundo, o consumidor português está treinado. Já não pergunta se está caro. Pergunta só:
“Mas ao menos há promoção em cartão?”
E, apesar de tudo, o povo português continua fiel. Pode faltar salário, mas não falta um folar a fingir que a abundância ainda mora aqui. Há sempre alguém a pegar num ovo Kinder como quem avalia um investimento de risco, a pesar discretamente na mão para ver se aquilo trará um Harry Potter, um dragão ou apenas mais uma miniatura de plástico com destino certo ao fundo da gaveta. Há sempre uma tia a jurar que este ano não compra chocolates industriais, que vai apostar “em coisas da terra”, e depois aparece em casa com três coelhos suíços, dois ninhos de amêndoas e um recibo que devia vir acompanhado de acompanhamento psicológico.
É aqui que a Páscoa mostra o seu verdadeiro poder: não é religiosa, é emocional. E o marketing sabe-o perfeitamente.
Nostalgia: a indústria a vender passado com papel dourado
A Marketeer escreveu, há muito pouco, que a nostalgia está em alta como estratégia de consumo, precisamente porque vivemos em tempos de inflação, saturação digital e incerteza económica. Ou seja: quando o presente cansa, o mercado vende passado. E vende-o muito bem.
Isto explica por que razão continuamos a querer as mesmas coisas de sempre, apenas com mais embalagem e menos inocência. O folar da região, o doce “como antigamente”, a caixa que “lembra a infância”, o sabor “de outros tempos”. Não compramos só comida. Compramos estabilidade embalada. Compramos a ilusão de que ainda há algo intacto.
As marcas perceberam aquilo que muita gente ainda não percebeu: em momentos de ansiedade coletiva, a memória é moeda. E a nostalgia é uma forma muito elegante de nos cobrar o que já foi nosso. A diferença é que agora vem com design, storytelling e um plano de conteúdos para Instagram. A nostalgia é o único produto que nos vende o que já foi nosso, mas o vende mais caro.
No fundo, a Páscoa moderna é isto: uma celebração religiosa transformada numa campanha de afeto sazonal, em que a fé já nem sempre entra, mas o chocolate, de certeza. E se o chocolate falha, como já vimos, alguém até o rouba em camião.
BTS: quando uma banda deixa de ser banda e passa a ser infraestrutura
E é aqui que entram os BTS. Porque o regresso deles não foi apenas um concerto. Foi um acontecimento internacional. A Reuters noticiou que o livestream do espetáculo em Seul, na Gwanghwamun Square, teve 18,4 milhões de espectadores globais segundo relatórios da Netflix. Não estamos a falar de um espetáculo. Estamos a falar de infraestrutura emocional em escala planetária.
Há artistas que vendem bilhetes. Os BTS vendem pertença com iluminação cénica. Vendem continuidade, reencontro, promessa de futuro e uma espécie de certeza coletiva de que ainda existem rituais capazes de reunir milhões sem necessidade de referendo. Isso já não é só música. Isso é engenharia narrativa com capacidade de exportação superior à de muitos ministérios.
O meu lado mais “marketing geek” fica fascinado com isto porque o fenómeno já está muito para além da canção. Isto é marca, identidade, comunidade, exportação cultural, diplomacia suave e disciplina logística. E, ao mesmo tempo, o meu lado mais cronista olha para o assunto e pensa: como é que um fandom pop consegue, às vezes, parecer mais organizado do que muitas instituições com sede, orçamento e gabinete de crise?
Talvez porque os BTS não vendam apenas um som. Vendem um universo. E quando o universo é forte, o público comporta-se como quem sente que representa algo maior do que si próprio. O fandom deixa de ser plateia. Passa a ser extensão da obra.
O fandom que varre o chão e a elite que só pisa a passadeira
Uma das imagens que mais circularam depois do regresso dos BTS foi a dos fãs a apanhar lixo e a deixar o espaço limpo. Devia ser normal. Não é. E o simples facto de isto virar notícia já diz muito sobre a miséria dos nossos padrões.
Não quero fazer competição de civismo nem transformar a Coreia num altar de pureza social. Não é isso. O que interessa é outra coisa: houve gente que, no fim de um evento gigantesco, se comportou como se o espaço também lhes pertencesse. E isso, hoje, quase parece uma revolução.
Enquanto muita elite entra em galas, eventos, passadeiras e cerimónias como se o chão fosse um problema de uma classe invisível, há fãs adolescentes a sair de um concerto com lightsticks numa mão e civismo na outra. Isto devia incomodar mais gente do que incomoda.
Porque, no fundo, é embaraçoso. É embaraçoso perceber que talvez seja preciso um concerto dos BTS para dar aulas práticas de civismo a um mundo de adultos. E é ainda mais embaraçoso perceber que isso não acontece por obrigação, mas por identidade. O fandom protege a imagem do grupo. Limpa o espaço. Cuida do símbolo. Faz relações públicas sem pedir recibo.
Há sítios onde o luxo entra de smoking e sai a tropeçar no próprio lixo. E depois há fandoms pop a fazer relações públicas com um saco do lixo na mão.
Se isto fosse uma campanha, chamava-se: “cuidar também é merch”.
Lisboa no videoclipe: quando Portugal entra na memória dos outros
E como se tudo isto não bastasse, os BTS ainda passaram por Portugal. A NiT noticiou que o videoclipe de “Swim”, do novo álbum, foi filmado em Lisboa, com vários cenários nacionais identificáveis. E isto é ouro puro para uma crónica destas. Porque aqui já não estamos só a falar de música. Estamos a falar de Portugal como cenário de nostalgia global.
Há algo de muito curioso em ver uma banda sul-coreana, símbolo máximo da globalização pop, a filmar em Lisboa e a transformar o nosso património em matéria de desejo internacional. De repente, aquilo que para nós é “a cidade onde se vai tratar de papelada, apanhar trânsito e pagar estacionamento” passa a ser imagem cinematográfica, promessa de emoção, cenário de videoclip.
Portugal tem esta mania bonita de só se achar bonito quando se vê pelos olhos dos outros.
Nem o melhor folheto do turismo conseguia isto sem três drones, quatro influenciadores, cinco reuniões e um PowerPoint com a palavra “autenticidade” repetida até à exaustão. Aqui, bastaram sete ídolos mundiais, uma boa direção de arte e milhões de fãs dispostos a fazer pause quadro a quadro para descobrir onde foi filmado.
É uma forma belíssima de colonialismo ao contrário: desta vez não nos roubam o ouro. Roubam-nos o enquadramento e devolvem-no com mais luz.
Fuga do KitKat nas curvas
E quando achávamos que a semana já estava suficientemente absurdista, a Reuters apareceu com a cereja no topo do bolo: roubaram doze toneladas de KitKat em trânsito entre Itália e Polónia. Mais de 413 mil barras. Um camião inteiro de chocolate evaporado em plena Europa. A própria Nestlé respondeu com humor, agradecendo o “gosto excecional” dos ladrões. Porque, em 2026, até o crime tem uma equipa de copywriting.
Roubar doze toneladas de KitKat é o tipo de notícia que parece inventada por alguém em hipoglicemia criativa.
Não foi um chocolatinho no bolso. Não foi um impulso de caixa de supermercado. Foram doze toneladas. Há crimes que exigem análise policial. Este pede também acompanhamento nutricional, argumentista e uma playlist de fuga em autoestrada.
E repara na beleza do simbolismo: entramos na semana da Páscoa, o chocolate continua caro, o consumidor faz contas ao coelho, e ao mesmo tempo alguém decide antecipar a caça aos ovos em formato de camião. Nem o KitKat teve intervalo. Nem a pausa, que é literalmente o coração da marca, escapou ao roubo.
E é aqui que a crónica fecha o círculo. Porque um bom K-drama pede sempre sobremesa. Há lágrimas, há reencontro, há silêncio bonito, há chávena pousada com peso dramático, e agora, pelos vistos, há também um camião de KitKat desaparecido algures na Europa, como se isto fosse uma subtrama escrita por alguém com glicose a mais e juízo a menos.
O mundo quer festa, açúcar e pertença
No fim das contas, talvez este seja o retrato mais fiel do nosso tempo: um planeta exausto que continua a querer festa. Quer Páscoa; Concerto; Tour; Videoclipe em Lisboa; O passado embrulhado em nostalgia, O açúcar, mesmo quando sobe; Pertencer a qualquer coisa, nem que seja a um fandom, a uma tradição regional ou a um algoritmo de recomendações de K-dramas.
Talvez seja por isso que o BTS funciona tão bem. Porque aparecem num momento em que toda a gente quer uma forma de comunidade. E talvez seja por isso que a nostalgia vende tanto. Porque, no fundo, todos andamos a tentar comprar qualquer coisa que pareça estável.
O problema é que o mundo adulto continua a fazer um trabalho fraco nessa matéria. E é por isso que esta mistura improvável — BTS, Páscoa, KitKat roubado, Lisboa filmada e fãs a limpar o chão — acaba por dizer muito mais sobre a sociedade do que parece.
Talvez o problema nunca tenha sido a histeria das fãs. Talvez o problema seja um mundo adulto que desaprendeu o básico e agora precise reaprender ordem, cuidado e pertença com adolescentes de lightstick na mão, um ovo Kinder na balança da esperança e um coelho de chocolate a custar quase como uma joia de família.
No fim, a fotografia fica mais ou menos esta: uns limpam o chão, outros limpam o stock, as marcas limpam-nos a carteira com nostalgia premium e nós continuamos a chamar a tudo isto “época festiva”, como se a civilização ainda se segurasse apenas com um folar, um refrão e boa vontade.
Se calhar segura-se mesmo.
Mas convinha, pelo menos, alguém verificar se o KitKat ainda é comestível.
Texto da Autoria de Joana Neves