Ciência e Saúde
Desporto Motorizado: o Homem por trás das máquinas
Apesar da evolução das máquinas no desporto motorizado e das significativas melhorias do perfil de segurança, há falta de evidência sobre o impacto real da prática destes desportos no bem-estar físico, mental e emocional dos pilotos.
O desporto motorizado, é, atualmente, um dos mais apreciados a nível global. Competições como a Formula 1®, MotoGP™ e WRC levam milhões de fãs a viajar de país em país para assistir a uma corrida, geram milhares de milhões de euros em receitas das estações televisivas e lojas de merchandising e transformam pilotos em autênticas celebridades fora de pista.
A Formula 1 é considerada o pináculo do desporto motorizado e engenharia automóvel. Os números falam por si: 826 milhões de fãs em 2025 e 3,65 mil milhões de dólares em receitas comprovam que o impacto desta competição já ultrapassou os limites de um simples desporto.
Para isto terá contribuído a sua expansão para países fora da Europa nos anos 80, o desenvolvimento do marketing e da presença nas redes sociais na década de 2010 e, mais recentemente, a estreia da série “Drive to Survive” na Netflix.
O que era um mero desporto tornou-se um fenómeno cultural global. Fins de semana de corrida são autênticas experiências interativas para o consumidor, com concertos, bancas dinâmicas e contacto próximo com os pilotos. Colaborações com grandes marcas e programas de luxo fomentam o turismo de ostentação e atraem celebridades e personalidades das redes sociais.
O público tornou-se mais jovem, com maior paridade entre géneros e mais internacional.

Fotografia: Jonathan Borba, Pexels
A MotoGP é a principal competição no mundo do motociclismo. Desde as primeiras corridas em 1949, tem visto a sua popularidade crescer exponencialmente, embora ainda seja predominantemente dominada pela economia e público europeus.
O World Rally Championship (WRC), caraterizado pelos troços em terrenos extremos, como gelo ou lama, tem uma cultura muito enraizada em Portugal, para além das famosas provas em vários países africanos e nórdicos.
O World Endurance Championship (WEC) testa a resistência de carros e pilotos em longas provas, como a icónica corrida “24 horas de Le Mans”, e a Fórmula E contribui, de forma significativa, para a promoção da mobilidade sustentável e transição dos veículos movidos a petróleo para veículos elétricos.
Nos Estados Unidos, a IndyCar, versão americana dos monolugares da Formula 1®, e a NASCAR, conhecida pelos seus circuitos ovais e corridas lendárias como a “Daytona 500”, fazem já parte da sua cultura desportiva e têm, também, o seu lugar na história do desporto mundial.

24 Horas de Le Mans. Fotografia: Mickael Le Rouzic, 2024. Licença: CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
Todas estas categorias são alvo de investigações intensivas no ramo da engenharia. A procura pela inovação e aperfeiçoamento dos veículos é constante, sendo que muitas das criações e regulamentos que surgem destas pesquisas são transpostas para parâmetros do quotidiano.
Contudo, apesar de uma evolução exponencial no que toca à segurança dos pilotos, os estudos que incidem sobre temas relativos à saúde dos atletas são ainda escassos. Isto deve-se ao reduzido número de pilotos que competem a alto nível, independência e confidencialidade de dados por parte das equipas e treinadores individuais, e, principalmente, a presença de um estigma social que insiste na frase “condutores de carros de corrida não são atletas”.
A que está exposto um atleta de desporto motorizado?
O esforço físico e fisiológico de um piloto durante uma prova não é visível a olho nu. Contudo, as condições a que estão expostos são extremas e têm um impacto significativo na saúde de cada um.
Força G
A força G é uma medida descritiva da aceleração e desaceleração. Quando um corpo está estacionário, a força que a gravidade terrestre exerce corresponde a 1G. Quando um corpo sofre uma mudança de velocidade ou direção, diz-se que foi submetido a múltiplos dessa gravidade.
Durante uma prova, os pilotos realizam acelerações, desacelerações e mudanças de direção intensas, podendo chegar a 6G em desportos como a Formula 1, o que acentua a inércia dos seus corpos.
Uma força de 6G, que, para termos de comparação, corresponde a uma força de 420 kg aplicada num piloto de 70 kg, pode despoletar alterações físicas importantes. A pressão pode deslocar a distribuição do sangue para as pernas, surgindo problemas circulatórios e reduzindo a oxigenação cerebral. Pode também provocar tensão na cabeça e pescoço, diminuição da acuidade visual, dificuldades respiratórias e até perda de consciência.
Trabalho Cardiovascular
Esforço muscular, forças G, vibração dos motores, exigências térmicas e questões psicológicas, que ativam o sistema nervoso simpático e modulam o sistema hormonal, são alguns dos parâmetros com influência na frequência cardíaca.
A relação entre trabalho cardíaco e intensidade do exercício físico é proporcional. Contudo, quando o corpo é submetido a um esforço intenso contínuo, acontece um fenómeno denominado por “desvio cardiovascular”. Isto acontece devido ao aumento constante da temperatura e à perda de fluidos, que provoca uma diminuição do volume em circulação. Para compensar, o coração passa a bater mais rápido, de modo a garantir o fornecimento adequado de oxigénio aos tecidos.
Temperatura e hidratação
Os atletas são sujeitos a temperaturas excecionais. Por um lado, o calor artificial produzido pelos veículos eleva a temperatura da cabine até 80ºC em competições como o WEC e a NASCAR. A isto acresce a agravante do calor acumulado por superfícies como o asfalto, aumentando a temperatura ambiente.
Além disso, os pilotos são obrigados a utilizar densos fatos à prova de fogo, com várias camadas que impedem a libertação de calor, a evaporação da sudorese e a correta termorregulação.
Uma pequena subida na temperatura corporal (tão pequena como 0.8 ºC) pode impactar a coordenação/movimento e a capacidade de tomada de decisão rápida. Com a normal termorregulação comprometida, o risco de stress térmico é elevado.
Carros com cockpit aberto, como os de Formula 1 e IndyCar, reduzem a exposição ao calor, ruído e monóxido de carbono. Por outro lado, os carros da Fórmula E vêm colmatar essas lacunas, emitindo menos calor e ruído e eliminando por completo a emissão de gases provenientes da combustão.
Os pilotos podem perder até cerca de 2 a 3 kg de água por corrida, em sudorese. Segundo evidência científica, até níveis moderados de desidratação (1 a 2% da massa corporal) podem ter um impacto significativo na função cognitiva.
Por esta razão, a hidratação durante uma prova é uma componente crucial. Não há pausas para hidratação, pelo que os pilotos devem conciliar a condução com a ingestão de água com vitaminas, através de um sistema que inclui um tubo inserido através do capacete.

Carro Formula E. Fotografia: Steffen Prößdorf, 2023. Licença: CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Trabalho Muscular
O esforço muscular é, como em todos os desportos, um fator de stress dominante. No caso dos pilotos, os grupos musculares envolvidos são variados.
Nestes estão incluídos os esforços necessários para o controlo do volante (média de 16 kg em desportos como IndyCar), travagem (entre 60 a 120 kg), resistência à força G e controlo da cabeça e pescoço que, normalmente, pesam cerca de 6,5 kg, mas podem chegar aos 26 kg durante as curvas.
Vibração
A vibração localizada transmitida pelo volante pode predispor a cãibras, fadiga muscular, sintomas osteoligamentares e distúrbios nervosos nas mãos e braços.
Relativamente à vibração corporal, esta estimula incrementos reflexos da frequência cardíaca, consumo de oxigénio, ventilação e promove a fadiga mental, desencadeando sonolência.
Hormonas e Metabolismo
Marcadores metabólicos e hormonais provam o esforço realizado pelos atletas. Ao longo de uma corrida descreve-se um aumento dos ácidos gordos livres e triglicerídeos, compatíveis com o aumento do stress. A glicose aumenta em pequenos períodos de corrida de 20 a 30 min, mas reverte em corridas mais prolongadas.
Várias hormonas marcadoras de stress também surgem em maior quantidade como as catecolaminas, cortisol, aldosterona, testosterona e hormona do crescimento.
Cérebro e Saúde Mental
Estudos concluíram que pilotos de competição possuem uma organização funcional cerebral mais eficiente quando comparados com quem não conduz ao mais alto nível. Isto poderá estar associado à necessidade prolongada de suster um elevado nível de concentração no que toca à resposta motora e processamento visuo-espacial.
Pilotos profissionais recrutam menos regiões corticais na realização deste tipo de tarefas, apesar de apresentarem um desempenho equivalente aos controlos. Apresentam, também, conexões funcionais fortalecidas e maior capacidade de adaptação a alterações das exigências ambientais.
Contudo, a saúde mental é um fator que continua a ser trabalhado pelos atletas. Conjugar uma atenção sustentada a todos os detalhes à sua volta, manuseamento de todas as funcionalidades do volante e comunicação com a equipa com o elevado risco de correr a grande velocidade, a pressão da competição, o calendário apertado e os olhares constantes do público, é uma tarefa complicada para muitos atletas.
Por outro lado, o estigma relativo à saúde mental ainda é preponderante em desportos de alta competição. Pilotos como Lando Norris, atual campeão de Formula 1, trabalham no sentido de normalizar a dúvida e o medo do julgamento num campeonato em que a confiança inabalável parece ser a norma.

Lando Norris, atual campeão de Formula 1. Fotografia: Steffen Prößdorf. Licença: CC BY-SA, via Wikimedia Commons.
Outros fatores têm também uma grande influência nos pilotos. O ruído dos veículos pode comprometer a performance e conduzir a perda auditiva a longo prazo. Este risco pode ser colmatado com a utilização de sistemas de comunicação por rádio com função protetora.
A maioria das competições ao mais alto nível organiza provas por todo o mundo, sendo, por vezes, necessário realizar longas viagens entre pontos distantes do globo. As constantes alterações de fuso horário têm um grande impacto na cronobiologia e regulação do sono.
Na MotoGP, os pilotos atingem velocidades que podem chegar aos 360 km/h. Ao contrário dos campeonatos automobilísticos, os atletas não estão protegidos por um chassi, pelo que estão expostos às diversas condições do meio e os acidentes têm um impacto físico considerável.
O tipo de esforço exigido ao corpo também é diferente. Um piloto de motas deve saber aliar a força de braços, ombros, pescoço e pernas, necessária à prática de um desporto motorizado ao controlo muscular central e aerodinâmico que requer o equilíbrio na mota e que potencia a sua velocidade.

Acidente MotoGP. Nhm tai nn, 2025. Roboflow Universe. Licença: CC BY 4.0.
As provas de rally são especialmente desgastantes para os pilotos e copilotos. As exigências colocadas ao corpo por vários tipos de terreno acidentado, nomeadamente o choque repetido na coluna lombar, pelo difícil controlo do carro e por momentos como os saltos, que, embora visualmente espetaculares, são muito rigorosos fisicamente, levam ao comum desenvolvimento de patologia musculo-esquelética.
Adicionalmente, em caso de acidente ou furo durante uma prova, os próprios piloto e copiloto veem-se obrigados a solucionar o problema em contra-relógio, sem qualquer apoio externo, de modo a poderem prosseguir.

Salto da Pedra Sentada, Fafe. Fotografia: Bastien Baudin, 2018. Licença: CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
No que toca às corridas de resistência, outras variáveis são introduzidas: as alterações no ritmo circadiano e a adrenalina e stress constantes por horas a fio em corrida.
O exemplo mais gritante será a “24 horas de Le Mans”, a prova rainha do WEC. Pilotos provenientes das mais diversas categorias de desporto motorizado juntam-se numa corrida onde enfrentam condições para as quais não estão habituados.
Durante 24 horas, cada carro é conduzido por três pilotos que fazem turnos de cerca de duas horas ao volante. A corrida inicia-se às 15 horas de um sábado e termina às 15 horas do domingo, havendo um grande período de competição durante a noite.
O reduzido tempo para descanso, principalmente durante a noite, e a permanente ansiedade e preocupação pelo desempenho da equipa tornam o sono difícil de alcançar e ineficaz o que, por sua vez, leva à perda de agilidade e tempo de reação, aumentando significativamente o risco de acidentes.
O recurso à cafeína torna-se uma prática adotada pela maioria dos atletas. Contudo, numa situação excecional como esta, é comum haver abusos ou ingestões inadequadas, o que põe em risco o sistema cardiovascular.
Para além disso, conduzir à noite implica um esforço físico e mental para o qual o corpo humano não está preparado.
Estes fatores, aliados ao prolongado tempo a suster elevadas forças G e ao desgaste mental de um dia em foco permanente, tornam esta corrida numa das mais exigentes do mundo do automobilismo.

24 horas de Le Mans. Fotografia: Adrien Gambet, via Pexels
Que necessidades físicas e nutricionais têm estes atletas?
Durante várias décadas, a preparação física, nutricional e mental de um piloto não foi prioridade. Mas, com o decorrer dos anos, percebeu-se que pilotos que obedeciam a treinos e dietas rigorosas estariam melhor preparados para as condições adversas que enfrentavam, o que, instintivamente, conferia uma vantagem importante na performance e segurança.
Apesar da escassa evidência científica, treinadores e pilotos adotam regimes de treino rigorosos e multidimensionais, com exercício aeróbico e anaeróbico, de flexibilidade, de aperfeiçoamento de reflexos, entre outros.
O exercício aeróbico, como o treino cardio, é essencial para reforçar os sistemas cardiovascular e respiratório, a resistência e a recuperação, mas também para controlar o stress mental e aprimorar o foco.
Por outro lado, o treino de baixa intensidade, como os passeios de bicicleta ou a pé para estudo da pista antes das corridas, também é essencial para fortalecer a energia, promover uma recuperação ativa e reduzir o risco de lesão.
Os pilotos devem treinar a força de vários sistemas musculares sem comprometerem o peso e forma ideais para a otimização da aerodinâmica e agilidade e para o cumprimento dos regulamentos das suas modalidades.
Treino do pescoço e volante
Contrariar a inércia da cabeça e pescoço não é tarefa fácil. Para isso, pilotos realizam exercícios específicos que fortalecem os músculos do pescoço, com arneses manuseados pelos treinadores e discos que podem chegar aos 30 kg. Por esta razão, muitos atletas apresentam pescoços mais desenvolvidos do que a maioria das pessoas.
Do seu exercício também faz parte o treino da resistência do volante, com máquinas especializadas que simulam a força necessária para manusear o veículo.
Treino de reações
Os rápidos reflexos são uma competência essencial quando falamos do desporto motorizado. Uma diferença de milésimos de segundo pode ser crucial na distinção entre escapar a uma situação complicada e um acidente potencialmente fatal.
Por isso, pilotos realizam exercícios que apuram o seu tempo de reação. Cada atleta realiza uma técnica diferente. Alguns utilizam o quadro de luzes, onde o piloto deve tocar rapidamente em luzes que se acendem em diversas partes da sua visão periférica, outros preferem praticar com exercícios onde utilizam bolas de ténis, entre outros.
Nutrição
A dieta deve ser, como em todos os desportos, planeada cuidadosamente. Refeições contruídas previamente, técnicas de hidratação e suplementos são alguns dos pontos essenciais.
Os carboidratos são cruciais para a manutenção das reservas de glicogénio, tendo impacto na resistência física e função cognitiva. Proteínas magras como o iogurte, frutos secos, sementes e outros são vitais para a recuperação e reparação muscular.
Devem ser consumidos pelo menos três litros de água por dia e certos suplementos vitamínicos podem ser uma ajuda importante. Durante os fins-de-semana de corrida, os snacks energéticos e as bebidas desportivas são uma forma rápida de repor fluidos e eletrólitos.
Os simuladores são ferramentas que reproduzem a experiência da condução com ecrãs de alta tecnologia. Certas equipas são detentoras de simuladores avaliados em milhões de euros que são, normalmente, utilizados como método de teste de novos componentes ou desenvolvimentos nos veículos, mas que também podem ser usados para preparar pilotos.

Simulador Formula 1. Fotografia: Oleg Yunakov, 2026. Licença: CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Os pilotos têm sempre uma equipa de profissionais responsável pela gestão da sua saúde, que os acompanha durante os campeonatos. Contudo, o papel mais importante será do seu coach de desempenho, que atua como treinador, nutricionista e psicólogo pessoal.
Os incidentes que moldaram a história do desporto motorizado
Se hoje vemos veículos de competição com altos perfis de segurança para os pilotos, vários foram os eventos que, por terem envolvido danos físicos ou perda de vidas, condicionaram uma grande evolução, não só dos carros, como dos equipamentos, procedimentos e pistas de corrida.
A Formula 1 traz-nos os momentos mais mediáticos mas também mais impactantes neste desenvolvimento.
Niki Lauda, Romain Grosjean e o equipamento à prova de fogo
Até aos anos 60, os pilotos privilegiavam o conforto e o estilo no que tocava aos seus fatos. Porém, o elevado número de queimaduras sofridas em acidentes, levou à introdução de fatos à prova de fogo, em 1963, numa colaboração com engenheiros da NASA.
Ainda assim, o acidente do então campeão mundial Niki Lauda, em 1976, que o deixou com cicatrizes profundas, fez o mundo da Formula 1 perceber que ainda estavam longe de criar um fato efetivamente seguro para os atletas.
O aparatoso acidente de Romain Grosjean, em 2020, cujas icónicas imagens do piloto a sair ileso das chamas ficaram marcadas na história do desporto, foi uma prova desta evolução. Mesmo assim, surgiram ainda inovações após este evento, nomeadamente nas luvas usadas nas corridas.

Veículo de Romain Grosjean após acidente. Fotografia: 5225C, 2023. Licença: CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Sir Jackie Stewart e a segurança da pista
O escocês Jackie Stewart, para além de ter sido um dos maiores nomes da história das corridas automobilísticas, foi também um grande advogado da segurança. Após um acidente que poderia ter sido fatal, em 1966, onde a chuva o fez desviar do troço, bater num poste telefónico e numa casa e acabar num campo, sem apoio, equipa de pista ou gabinete médico, Stewart trabalhou no sentido de introduzir mudanças cruciais.
Estas passaram por alterações nos capacetes e obrigatoriedade de cinto de segurança, mas também por melhorias nas instalações médicas e barreiras de cada circuito. As barreiras de aço, que dispersam a energia de uma colisão a alta velocidade, de modo a minimizar lesões provenientes do impacto, foram uma das várias tecnologias transpostas para a circulação rodoviária do nosso dia-a-dia.
Ayrton Senna e o suporte para cabeça e pescoço
O desfecho fatal do acidente de Ayrton Senna, um dos pilotos mais queridos da história da Formula 1, foi um dos eventos mais marcantes da década de 90. Apesar de já haver anos de investigação à procura de um dispositivo que evitasse as comuns fraturas do crânio, a sua introdução só aconteceu após este momento.
O HANS (head and neck support) encaixa no pescoço do piloto e estende-se até ao peito, de forma a evitar o movimento brusco de flexão do pescoço durante um embate.

HANS. Fotografia: Zach Catanzareti Photo, 2020. CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.
Jules Bianchi e o Halo
A introdução do Halo, uma estrutura de titânio com três braços, capaz de suportar um embate de até 116 quilo newtons, foi alvo de múltiplas críticas devido às limitações claras à visibilidade dos pilotos e à mudança radical no visual icónico dos monolugares de Formula 1.
No entanto, após inúmeros incidentes que poderiam ter tido desfechos mais críticos, hoje o Halo é aceite como um componente essencial nos veículos.
O Halo começou a ser desenvolvido após o acidente de Jules Bianchi, em 2014, onde uma colisão frontal com um trator que retirava um carro da pista, num dia chuvoso, provocou uma lesão axonal difusa que o deixou em coma por nove meses e levou, eventualmente, ao seu falecimento em 2015.

Halo. Fotografia: Jen Ross, 2020. CC BY 2.5, via Wikimedia Commons.
Estudos que descrevem parâmetros médicos e fisiológicos de atletas de desporto motorizado são ainda escassos. Com a contínua expansão destas competições por todo o mundo, a diversidade de atletas aumenta.
O número de mulheres e diferentes etnias que competem nestas provas tem crescido exponencialmente e, com ele, cresce a dificuldade em encontrar evidência que sustente práticas médicas, nutricionais e de segurança quando aplicadas a estas populações.
O estudo da saúde e fisiologia dos pilotos é crucial. Se um piloto não competir com as condições médicas e de conforto mais adequadas, a relação atleta-veículo não será frutífera e não poderá ser extraído todo o potencial da máquina construída.
A interação entre variáveis influenciadoras ainda não foi alvo do estudo necessário. A evolução da investigação nesta área permitirá a personalização e aperfeiçoamento do treino e nutrição dos pilotos e da construção de veículos adaptados ao condutor, potenciando a segurança e, por consequência, o espetáculo proporcionado pelos desportos motorizados.
Artigo redigido por Catarina Pereira. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.