Ciência e Saúde
ECOBOT: Como a Robótica Autónoma Pode Transformar a Gestão dos Ecossistemas Aquáticos
Da limpeza de resíduos à previsão de florações de algas, o ECOBOT reúne robótica autónoma e inteligência artificial para transformar a forma como são monitorizados e protegidos os ecossistemas aquáticos.
Atualmente, a qualidade da água é uma das principais preocupações ambientais a nível mundial. O crescimento urbano, a atividade agroindustrial e as alterações climáticas têm vindo a acelerar a degradação de rios, lagos e reservatórios, favorecendo a acumulação de resíduos flutuantes, a eutrofização das águas, a proliferação de algas nocivas e consequente ameaça à biodiversidade.
Tradicionalmente, a monitorização destes ecossistemas é realizada através de recolhas periódicas e análise de amostras por equipas técnicas. Embora eficaz, os dados obtidos são descontínuos, exigem elevados recursos humanos e, frequentemente, permitem apenas uma resposta tardia aos problemas identificados.
É neste contexto que surge o ECOBOT, uma embarcação robótica não tripulada desenvolvida pela empresa sul-coreana ECOPEACE. Esta plataforma combina inteligência artificial, sensores ambientais e robótica autónoma para monitorizar a qualidade da água e simultaneamente remover poluentes da superfície. Alimentado por painéis solares para uma operação sustentável, o robô navega autonomamente durante longos períodos, desviando-se de obstáculos e otimizando as trajetórias de limpeza com uma intervenção humana mínima.
Monitorização da qualidade da água e combate às florações de algas
Durante a navegação, uma rede de sensores monitoriza, em tempo real, indicadores vitais do ecossistema aquático, como a temperatura, o pH, o oxigénio dissolvido e a turbidez. Por exemplo, a subida da temperatura da água pode favorecer o desenvolvimento de florações de algas. Do mesmo modo, alterações do pH podem afetar a sobrevivência de muitas espécies aquáticas, enquanto baixos níveis de oxigénio dissolvido constituem um indicador de degradação ecológica e podem provocar a mortalidade de peixes e outros organismos.
As florações de algas representam um dos principais desafios na gestão dos ecossistemas aquáticos, favorecidas pelo excesso de nutrientes, como o azoto e o fósforo, e por condições como temperaturas elevadas e águas pouco movimentadas. Estes fatores comprometem o equilíbrio ecológico ao reduzir os níveis de oxigénio dissolvido, dificultando a sobrevivência da fauna aquática. Algumas espécies produzem ainda toxinas capazes de comprometer o abastecimento de água e representar riscos para a saúde pública.
Neste contexto, a monitorização contínua realizada pelo ECOBOT permite identificar precocemente as condições favoráveis ao desenvolvimento destas florações, apoiando intervenções mais rápidas e eficazes.
Limpeza Autónoma e Sustentabilidade
Para além da monitorização ambiental, o ECOBOT remove autonomamente resíduos flutuantes, como pequenos plásticos, vegetação em decomposição, resíduos urbanos e biomassa de florações de algas, contribuindo para melhorar a qualidade da água e restaurar o equilíbrio do ecossistema.
O processo é realizado sem recurso a produtos químicos, recorrendo à energia solar e reduzindo a dependência de embarcações convencionais, o que diminui o impacto ambiental e a pegada carbónica.
Inteligência Artificial e Sistemas de Previsão
Os dados recolhidos pelo ECOBOT são enviados para plataformas digitais, onde é feita uma análise por inteligência artificial, resultando em informação sobre o estado do ecossistema aquático. A partir desta, é possível identificar padrões, localizar zonas mais vulneráveis e acompanhar a evolução da qualidade da água.
Com base nesta informação, a ECOPEACE recorre ainda à tecnologia de gémeo digital para simular a resposta dos ecossistemas a diferentes cenários, como alterações da temperatura, variações na concentração de nutrientes ou a ocorrência de eventos climáticos extremos, tornando a gestão dos recursos hídricos mais informada, eficiente e sustentável.
Expansão internacional e perspetivas futuras
O aumento do interesse pelo ECOBOT tem impulsionado a expansão internacional da ECOPEACE. Em 2025, a empresa anunciou uma joint venture em Singapura e desenvolveu projetos-piloto nos Emirados Árabes Unidos.
Num cenário em que a qualidade da água é cada vez mais afetada pelas alterações climáticas e pela atividade humana, tecnologias como o ECOBOT poderão tornar-se uma ferramenta importante para preservar rios, lagos e reservatórios de forma mais eficiente.
Artigo redigido por Sofia Guerreiro. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.