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Ciência e Saúde

Moda para todos: o mundo da roupa adaptada

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Crédito: Vlada Karpovich, Pexels

Diversas patologias e condições médicas restringem a utilização indiscriminada de certas peças de roupa, em detrimento da saúde mental destas pessoas. Vários projetos surgiram com o objetivo de colmatar estas falhas.

 

Quando um dispositivo de assistência médica se transforma numa peça de alta-costura

Sacos de ostomia, aparelhos auditivos e luvas de compressão são exemplos de dispositivos essenciais ao dia-a-dia de um número significativo de pessoas. Segundo o Relatório Global sobre Tecnologia de Assistência da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da UNICEF, mais de 2,5 mil milhões de pessoas em todo o mundo dependem destes dispositivos.

Contudo, o seu aspeto clínico e despersonalizado é fonte de grande insegurança por parte destes pacientes e gera um estigma social que põe em causa o cumprimento de uma rotina normal.

Visando colmatar uma lacuna de mercado associada à própria patologia, a designer britânica Destiny Pinto criou luvas de compressão que fossem tanto úteis no controlo dos sintomas da sua artrite reumatoide como visualmente atraentes. Estas luvas podiam ser combinadas com a roupa que usa no seu quotidiano de forma harmoniosa.

A artrite reumatoide é uma doença autoimune inflamatória crónica em que o sistema imune do paciente ataca as próprias articulações, gerando dor, inchaço, rigidez ao acordar e fadiga aumentada. A doença limita gravemente a realização de atividades do quotidiano, principalmente quando existe um envolvimento das mãos. Nestes casos, para além do controlo farmacológico, os pacientes relatam alívio dos sintomas quando são aplicados calor e pressão às articulações afetadas. Neste sentido, a utilização de luvas de compressão, luvas justas e sem dedos (de forma a permitir movimentos finos), revela-se uma solução eficaz na redução de sintomas, tanto diurnos (dor e limitação de movimentos), como noturnos (problemas do sono e rigidez matinal).

Depois das luvas de compressão, outras condições médicas inspiraram Destiny Pinto a desenhar novos produtos e lançar a sua marca.

Em casos de doença oncológica intestinal ou colorretal, doenças inflamatórias intestinais (Crohn e colite ulcerosa), diverticulites (inflamação de pequenas bolsas que se formam no cólon), entre outros, a resseção do íleo e/ou do cólon é, frequentemente, o único tratamento possível. Através da remoção das vias de eliminação de fezes, é criado um estoma na parede abdominal, ou seja, uma abertura que permite a ligação do sistema digestivo restante ao exterior do corpo. Os sacos de ostomia, utilizados para colheita das fezes expelidas pelo estoma são um dos alvos das peças criadas por Destiny Pinto.

Saco de ostomia. Crédito: Salicyna (2016). Ileostomy 2016-09-09 4158; Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Outros artigos incluem acessórios para aparelhos auditivos, malas adaptadas, próteses ortopédicas e faixas torácicas compressoras (binders), utilizadas por pessoas da comunidade LGBTQIA+ (trans, não-binárias ou de género fluido) e em algumas condições como a ginecomastia. Estes produtos permitem um incremento da auto-confiança destes pacientes, mas também uma maior representatividade e abertura ao diálogo acerca destas patologias.

 

Limitações físicas não devem limitar o conforto e o estilo

A motricidade fina dos dedos das mãos é algo que muitos tomam como um dado adquirido, mas que, em diversas patologias, está severamente limitada.

Desde a dor crónica, neuropatias (como a síndrome do túnel cárpico), artrite e artroses, distrofia muscular, Tenossinovite de De Quervain e dedo em gatilho até condições como a Doença de Parkinson, Esclerose Múltipla, Acidente Vascular Cerebral, diabetes e hipotiroidismo, o número de pessoas com limitações motoras é significativo. Segundo os Censos 2021, 3% dos portugueses com cinco ou mais anos apresenta dificuldades em realizar cuidados pessoais.

Esta diferença é especialmente importante quando falamos de uma tarefa tão essencial como vestir uma peça de roupa. Para estes pacientes, apertar um botão ou um gancho não é possível sem o auxílio de um segundo indivíduo.

A “Liberare”, criada por Emma Butler, é conhecida pelos seus soutiens, que podem ser fechados e abertos sem mãos ou com mobilidade digital limitada. O produto final levou quatro anos a ser desenvolvido e conta com fechos frontais magnéticos, alças ajustáveis e tiras que facilitam o movimento. Outras empresas, como a “The Able Label” e a “Unhidden” desenvolvem peças de roupa para pacientes com défices a nível motor, mas também com necessidade de fácil acesso a dispositivos médicos, cateteres, bombas de insulina, entre outros.

 

A moda em sintonia com a neuroatipia

Condições neurológicas como o autismo e o Transtorno do Processamento Sensorial afetam a interpretação de estímulos pelo cérebro, podendo levar a uma hipersensibilidade (evitamento de estímulos) ou hipossensibilidade (procura constante de estímulos, com o surgimento de estereotipias).

Estas patologias têm um forte impacto no comportamento, vida social, desempenho em atividades e desenvolvimento cognitivo. O seu controlo passa, entre outras medidas, pela gestão e adaptação do ambiente circundante à condição da pessoa. Aqui, a roupa poderá desempenhar um papel importante.

Enquanto trabalhava num projeto de voluntariado associado ao seu curso superior, Julia DeNey, designer nova-iorquina, contactou com diversas crianças no espectro do autismo e desenvolveu um interesse na área da moda inclusiva. Dessa experiência nasceu a “Sense-ational You”, uma marca de roupa adaptada que pretende trazer visibilidade a estas condições e oferecer segurança aos pacientes, indo ao encontro dos seus critérios específicos no que toca à relação com estímulos.

Para quem procura estimulação constante surgem peças como a camisola compressiva ou as calças com botão magnético. Por outro lado, a remoção de etiquetas, tecidos leves e bainhas lisas, bem como camisolas com capuz insonorizado e máscara de olhos incorporada, permitem tranquilizar pessoas hipersensíveis.

 

O caminho a percorrer no que toca à acessibilidade e inclusão social de pessoas com deficiência e condições médicas limitativas é ainda longo. Contudo, pequenos esforços como estes contribuem de forma significativa para o seu bem-estar e saúde mental e aumentam a visibilidade para a diferença e a necessidade de considerá-la nos vários aspetos do nosso dia-a-dia.

 

Artigo da autoria de Catarina Pereira. Revisto por Isabel Santos de Sousa.

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