Ciência e Saúde
O presente e futuro da cirurgia robótica
A cirurgia robótica representa um marco importante na evolução da medicina moderna. Com a contínua inovação e a expansão dos sistemas cirúrgicos digitais, estamos perante uma revolução silenciosa que promete elevar a qualidade da cirurgia a uma nova dimensão.
Apesar do termo e da existência de robôs ser relativamente recente, a ideia de criar mecanismos automáticos capazes de reproduzir tarefas frequentemente realizadas pela mão humana já data de algumas centenas de anos. No que diz respeito às suas aplicações cirúrgicas, a cirurgia robótica surge como uma técnica minimamente invasiva em que o cirurgião utiliza um sistema robótico para realizar procedimentos com maior precisão e controlo. Foi inicialmente concebida para responder às dificuldades vividas em combates militares, como os ambientes hostis de difícil acesso, recursos e mão de obra limitados. Deste modo, o objetivo deixou de ser a transferência do soldado lesionado para o hospital mais próximo, mas sim a deslocação da sala cirúrgica para a unidade de suporte mais próxima, garantindo maior velocidade na resposta.
O primeiro uso de cirurgia robótica num paciente humano foi em 1985, nos Estados Unidos, no qual o braço robótico PUMA (Programmable Universal Machine for Assembly) 560 foi utilizado para auxiliar uma biópsia cerebral, marcando o início da cirurgia robótica na prática médica.

Braço robótico PUMA 560. Fonte: Lin HI, Lee CS. Measurement of the robot motor capability of a robot motor system: a Fitts’s-law-inspired approach. Sensors (Basel). 2013;13(7):8412-8430. Published 2013 Jul 2. doi:10.3390/s130708412. Imagem sob licença CC BY.
Seguiram-se alguns anos dedicados ao desenvolvimento de nova tecnologia, de modo a colmatar aquilo que não era totalmente concretizado pelos robôs anteriores. Deste modo, a experiência com robôs intermediários, como o PROBOT e o ZEUS, levou ao desenvolvimento de sistemas cirúrgicos cada vez mais dedicados e sofisticados, culminando no Da Vinci Surgical System, desenvolvido pela Intuitive Surgical. Hoje, é o sistema dominante, presente em milhares de hospitais e aplicável a múltiplas especialidades médicas, destacando-se aquelas com uma natureza mais delicada ou com carácter urgente.
O Da Vinci 5, lançado em 2025, é a quinta geração do sistema cirúrgico robótico desenvolvido pela empresa. Este sistema mantém as três componentes essenciais presentes em todas as gerações. Os braços robóticos sustentam os instrumentos cirúrgicos e a câmara endoscópica, controlados pelo cirurgião através da consola, reproduzindo com precisão os movimentos da mão humana. É também na consola que o médico observa o campo cirúrgico através de uma visão tridimensional. Esta imagem é fornecida para toda a equipa médica através do sistema de visão, que estabelece a ponte entre todos os componentes deste complexo mecanismo. Assim, durante uma cirurgia robótica, o cirurgião faz uma ou mais pequenas incisões (portas), pelas quais o acesso dos instrumentos cirúrgicos ao campo operatório é feito. O cirurgião usa os comandos da consola para manipular os instrumentos, e estes traduzem os comandos do cirurgião em movimentos precisos dentro do corpo do paciente.

Sistema cirúrgico Da Vinci. Fonte: Store Norske Leksikon, sob licença CC BY SA 4.0.
No Da Vinci 5 estas funções foram significativamente melhoradas. A consola foi equipada com force feedback, o que permite ao cirurgião sentir a resistência dos tecidos durante a operação. Os braços robóticos apresentam maior liberdade e flexibilidade, enquanto o sistema de visão fornece imagens de altíssima resolução, integrando dados digitais e tecnologias avançadas de processamento, que melhoram a perceção espacial e a capacidade de planeamento durante a cirurgia. Estas melhorias tornam o Da Vinci 5 a solução mais avançada para cirurgia robótica minimamente invasiva, mantendo a ergonomia, a precisão e a segurança como prioridades, e consolidando-o como o sistema mais utilizado mundialmente.
A cirurgia robótica oferece múltiplas vantagens para os pacientes, médicos e instituições de saúde. Para os pacientes, as incisões de menor dimensão, a redução da perda de sangue e a precisão dos robôs contribuem significativamente para uma menor dor pós-operatória, uma recuperação mais rápida, a diminuição do número de transfusões e a redução do risco de complicações e infeções, traduzindo-se em melhores resultados. Já para os médicos, a visualização 3D ampliada e estável do campo cirúrgico, os movimentos precisos e a melhor ergonomia, permitem a realização de procedimentos complexos com maior facilidade, segurança e eficiência. Por sua vez, as instituições de saúde beneficiam de tempos de internamento mais curtos, menor necessidade de reintervenções cirúrgicas e uma utilização mais eficiente dos recursos hospitalares.
No entanto, além das inúmeras vantagens, a cirurgia robótica apresenta também algumas limitações. O acesso ainda é restrito já que só está disponível em centros que contam com cirurgiões especialmente treinados, o que contribui para a desigualdade no acesso a cuidados de saúde de qualidade. Acresce o elevado custo associado à aquisição do sistema que implica um investimento inicial muito significativo, bem como despesas adicionais relacionadas com a manutenção, os instrumentos descartáveis e os contratos de suporte técnico. Existe igualmente uma forte dependência tecnológica, uma vez que falhas técnicas, avarias ou a indisponibilidade do sistema podem obrigar à conversão para a cirurgia convencional. Por fim, esta abordagem exige maior espaço físico e uma logística específica, requerendo salas cirúrgicas de maiores dimensões e infraestruturas devidamente adaptadas.
Com o desenvolvimento contínuo de novas tecnologias, também a robótica médica irá beneficiar de avanços. A integração com a inteligência artificial poderá orientar os fluxos de trabalho, possibilitando suporte à decisão em tempo real, análises preditivas e até mesmo ações semiautónomas na sala de cirurgia, de modo a melhorar os níveis de precisão e controlo do procedimento.
Além disso, a possibilidade de cirurgia à distância, poderá representar um campo de grande interesse para o futuro, especialmente em contextos como zonas remotas, situações militares ou exploração espacial, apesar de não ser ainda uma prática recorrente. O caso mais conhecido ocorreu em 2001, com a chamada Operação Lindbergh, em que uma colecistectomia foi realizada com o cirurgião em Nova Iorque e o paciente em Estrasburgo.
A cirurgia robótica, representa um marco importante na cirurgia moderna. O seu impacto positivo nos cuidados de saúde é indiscutível, trazendo benefícios para os pacientes, médicos e instituições prestadoras de serviços de saúde. Deste modo, aliado a outras tecnologias de rápida ascensão, terá lugar naquele que será um conjunto essencial de ferramentas para exercer a medicina do futuro.
Artigo redigido por Anabela Pereira. Revisto por Ana Luísa Silva.