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Ciência e Saúde

Pontes, não Ilhas: O Papel Crítico da Colaboração na Ciência Moderna

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“David Teniers the Younger: An alchemist in his laboratory.” (Free use)

O génio solitário, idealizado ao longo de séculos pela cultura popular, deu lugar a uma superpotência coletiva. Hoje, o verdadeiro motor da descoberta já não reside no indivíduo, mas na sinergia de grupos de laboratório, centros de investigação e redes de cooperação globais.

A mudança de paradigma: do génio solitário ao esforço coletivo

Imagina se tu, hipotético aluno universitário de ciências exatas, para uma aula prática laboratorial em pleno 2026, encontrarias o teu docente a lecionar não num laboratório estéril, com instrumentos experimentais estandardizados e protocolos rígidos de segurança, mas sim no sótão da tua faculdade.

Soa-te distópico? Inimaginável? A realidade é que essas eram as humildes condições de Louis Pasteur na École Normale Supérieure de Paris no século XIX. Foi nesse cenário, longe da sofisticação técnica que hoje damos como garantida, que Pasteur desmistificou a teoria da geração espontânea e revolucionou a segurança alimentar com a pasteurização. Naquela época, o progresso dependia, em grande parte, da intuição e persistência do “génio solitário”.

File:Louis Pasteur experiment.jpg - Wikimedia Commons

Louis Pasteur, experimentalista francês que ficou conhecido como o “pai da microbiologia” (via Wikimedia Commons)

No século XXI, o paradigma mudou. Os grandes saltos científicos já não nascem de sótãos isolados, mas de edifícios monumentais como o CERN, na Suíça, ou os Institutos Max Planck, na Alemanha. Estas infraestruturas agregam as mentes mais brilhantes do mundo, mas trazem consigo um desafio novo e invisível: a complexidade da ciência moderna é tamanha que ninguém consegue saber tudo. Hoje, o maior motor da inovação já não é apenas a genialidade individual, mas a capacidade científica de colaborar e comunicar eficazmente entre fronteiras disciplinares.

Instituto CERN, Suíça (via https://cerncourier.com/p/community/cern/)

Max Planck Institute for Biology - Wikipedia

Max Planck Institute for Biology, Alemanha. (via Wikipedia)

Tal como Isaac Newton escreveu numa carta ao seu rival Robert Hooke já em 1676: “Se vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes”. As mentes mais brilhantes da revolução científica já entendiam a importância da iteração científica, e do acumular de conhecimento ao longo de gerações. O que Newton provavelmente não imaginaria seria a necessidade de  equipas multidisciplinares para trabalhar num problema científico.

Isto deve-se ao facto de o crescimento explosivo de dados nas últimas décadas ter transformado o laboratório: o espaço que antes albergava um investigador isolado deu lugar a equipas numerosas e pluridisciplinares. Esta transição não foi apenas uma escolha, mas uma necessidade absoluta para processar a complexidade da ciência moderna, visto que hiperespecialização se tornou inevitável.

Como nenhum cérebro humano consegue hoje dominar todas as vertentes de um projeto de larga escala, a ciência evoluiu para um modelo de colaboração e diálogo, onde se observa um número crescente de autores por artigo científico ao longo das décadas do século XXI.

O poder da comunicação eficaz e o custo do “jogo do telefone estragado” científico

Naturalmente, esta hiperespecialização leva a que certos termos e nomenclaturas sejam únicos a certas áreas interdisciplinares. Daí, é imediatamente percetível a necessidade de cada membro de uma hipotética equipa saber comunicar eficazmente e com rigor científico, mas sem linguagem que dificulte a compreensão de não-especialistas.

O custo de pobre comunicação intra-equipa nas ciências exatas pode levar a falta de cumprimento de prazos, confusão entre diferentes especialistas, 30% – 45% menos de produtividade e stress financeiro, temporal e intelectual.

No entanto, um exemplo onde a importância da comunicação é realmente posta à prova ocorre no contexto oncológico com a realização de Tumor Boards. Nestas reuniões, oncologistas, cirurgiões, radiologistas, patologistas e técnicos de diagnóstico debatem casos clínicos específicos. A capacidade de um geneticista traduzir uma mutação complexa para um cirurgião, ou de um radiologista interpretar uma imagem para um oncologista clínico é o que permite estabelecer um plano terapêutico personalizado. Nestes momentos, saber “falar a língua do outro” torna-se tão crítico para a sobrevivência do paciente como o próprio bisturi ou a quimioterapia.

Daí, é importante entender que saber comunicar não é um “preciosismo”, simpatia ou uma soft skill negligenciável. Uma equipa com maus comunicadores é no melhor dos casos uma equipa stressada, com pior gestão de financiamentos/prazos e no pior dos casos, uma equipa que poderia ter evitado a morte de uma paciente.

Educação, formação e liderança: eliminar gargalos

Historicamente, é como se a investigação tivesse passado de ilhas solitárias e isoladas a ilhas conectadas por pontes. A necessidade de saber comunicar em ciência é crucial, e apesar de nos encontrarmos enquanto sociedade num ambiente onde a colaboração é a norma, quando esta é comprometida, serve de gargalo (limitador da eficiência) para a investigação ou clínica, levando a custos económicos ou humanos.

Estes riscos poderiam ser mitigados com a promoção de cursos de competências transversais de comunicação e liderança em universidades no contexto STEM. Isto auxiliaria a que a formação fornecida não só se voltasse para as hard-skills como para as soft-skills.

Artigo redigido por João Moutinho e revisto por Joana Ribeiro da Silva