Ciência e Saúde
Salvar vidas a cada voo: o poder dos drones na medicina moderna
A salvar vidas em contextos desafiantes e a superar barreiras de infraestruturas, os drones estão a revolucionar a saúde pública, permitindo entregar sangue, vacinas e medicamentos em áreas remotas.
Conhecidos pelo seu potencial recreativo e profissional, os veículos aéreos não tripulados (VANT), vulgarmente conhecidos por drones, são aeronaves não tripuladas que podem ser pilotadas remotamente ou seguir missões pré-definidas de modo autónomo.
Apesar de serem aquisições relativamente recentes no mundo moderno, com o mercado global dos drones para uso pessoal e comercial a atingir cerca de 8,2 milhões de unidades em 2024, a sua origem remonta a meados do século XIX, quando forças austríacas lançaram balões não tripulados com explosivos contra a cidade de Veneza. Estes balões pioneiros, embora rudimentares e para fins bélicos, são considerados os antecessores dos drones modernos, desenvolvidos posteriormente pelo engenheiro espacial iraquiano Abraham Karem. No início da década de 80 fundou a empresa Leading Systems e desenvolveu o Albatross, um dos primeiros drones com voo de longa duração, desempenho estável e utilidade prática.
Perante a atualidade que enfrentamos, uma das principais utilizações dos drones apontada e discutida em vários meios de comunicação ao longo dos últimos anos é para fins militares, destacando-se o seu papel na guerra entre a Ucrânia e a Rússia, onde se tornaram ferramentas essenciais no combate. Contudo, embora os drones possuam capacidade destrutiva e mortífera, também desempenham um papel preponderante ao poderem ser grandes aliados na prestação de cuidados de saúde.
Em países em desenvolvimento, o acesso a produtos de saúde essenciais e que salvam vidas é dificultado pelas estradas intransitáveis em regiões montanhosas, desertos ou florestas. Assim, as longas viagens e a falta de acesso são críticas para o fornecimento de medicamentos necessários de uma cidade para locais rurais ou remotos.
Em vista disto, diante de barreiras geográficas e de infraestrutura, Ruanda não esperou por soluções tradicionais. Foi em 2016, neste país da África Oriental, que nasceu o primeiro uso real em escala operacional de drones como aliados médicos na entrega de sangue, vacinas e medicamentos. Este grande passo foi consequência de um acordo entre o governo da Ruanda, a empresa norte-americana Zipline (líder em logística autónoma) e dois centros operacionais.

Utilização da tecnologia Zipline na Ruanda. Fonte: World Bank Photo Collection, Flickr, sob licença CC BY-NC-ND 2.0.
Em todo o mundo, as hemorragias graves são a principal causa de mortalidade materna. Em Ruanda, apesar do atual e contínuo esforço em transformar e melhorar as condições de saúde pública, a hemorragia pós-parto foi responsável por 22,7% das mortes maternas entre 2009 e 2013. Com o objetivo de mitigar este problema, a empresa Zipline iniciou as suas atividades com foco em produtos sanguíneos, sublinhando a importância do acesso rápido a sangue para transfusões na redução da mortalidade materna. Como resultado desta implementação, Jeon et al. (2022), no estudo “Last-mile delivery in health care: Drone delivery for blood products in Rwanda”, publicado na SSRN (Social Science Research Network), relatam que a utilização de drones para a entrega de sangue esteve associada a uma redução significativa de 51% na mortalidade materna hospitalar por hemorragia pós-parto. Além disso, outro estudo realizado neste contexto, conclui que, entre março de 2017 e dezembro de 2019, as entregas por drone tiveram um tempo médio de chegada de cerca de 49,6 minutos, reduzindo significativamente os tempos de entrega, e esteve associada a uma redução de 67% no desperdício de sangue e hemoderivados em unidades de saúde remotas.
Deste modo, Ruanda destaca-se mundialmente ao utilizar tecnologia de ponta para superar a falta de infraestrutura rodoviária e proporcionar acesso a serviços de saúde a todos os 14 milhões de cidadãos.
O potencial de utilização de drones na área da saúde pública está em constante expansão e novos projetos piloto surgem a um ritmo acelerado em todo o mundo. Além do transporte de sangue já explorado no caso de Ruanda, os drones têm aplicações importantes em outras áreas.
Em áreas rurais, por exemplo, os drones têm sido usados para acelerar o diagnóstico e o início do tratamento de doenças em resposta à falta de instalações laboratoriais. No Malawi, amostras de sangue seco de bebés, para teste de HIV, foram transportadas usando drones. Também em Papua-Nova Guiné, amostras de escarro foram transportadas de uma aldeia remota para a cidade de Kerema com o objetivo de detetar tuberculose, demonstrando o potencial dos drones para melhorar a vigilância de doenças em zonas isoladas.
Adicionalmente, o transporte de medicamentos essenciais ou outros artigos é essencial para evitar mortes em áreas rurais e promover a equidade e acessibilidade aos cuidados. No Gana, o United Nations Fund for Population Activities (UNFPA), juntamente com o Governo holandês, entregou com sucesso preservativos em áreas rurais de difícil acesso por estrada.
Além de aplicações em logística de sangue e medicamentos, os drones desempenham cada vez mais um papel significativo no transporte de órgãos para transplante, um processo em que o tempo é crítico para a viabilidade do tecido doado. Em abril de 2019, pesquisadores da Universidade de Maryland desenvolveram um sistema de aeronave não tripulada capaz de transportar um rim humano destinado a transplante entre hospitais em Baltimore, nos Estados Unidos. O órgão foi bem implantado numa paciente que aguardava há vários anos pela cirurgia, demonstrando a viabilidade técnica e clínica do método. Estudos e revisões sobre o tema destacam que o uso de drones pode reduzir o tempo de transporte e manter condições essenciais como temperatura e estabilidade do órgão, mitigando atrasos causados pelo trânsito ou logística tradicional e potencialmente aumentando o número de órgãos utilizáveis em transplantes.
Em contextos de emergências médicas agudas, drones equipados com desfibrilhadores automáticos externos (DAEs) podem chegar mais rapidamente às vítimas de paragem cardíaca do que ambulâncias tradicionais, aumentando a sobrevida. Drones também são usados em operações de ajuda humanitária após desastres naturais para transportar medicamentos, água, material médico e alimentos para áreas onde as estradas estão bloqueadas ou as infraestruturas estão destruídas.
Portugal quis fazer parte da inovação e, recentemente, em outubro de 2025, a 4LifeLAB realizou o primeiro voo de teste com uma aeronave não tripulada no âmbito do projeto de mobilidade aérea avançada, desenvolvido em parceria com a Unidade Local de Saúde São João, CEiiA e Eliot. O objetivo é unir a engenharia e a saúde, de modo a construir uma nova solução tecnológica que se alinhe com as necessidades atuais do país. Citando Maria João Baptista, Presidente do Conselho de Administração da ULS São João, “este é um passo firme na construção de um SNS mais ágil, sustentável e humano”.
Fica evidente que os drones oferecem oportunidades significativas na área da saúde pública. Embora existam fragilidades e riscos associados à aplicação de drones, incluindo questões de segurança, privacidade e eventuais acidentes, estes desafios podem ser mitigados com avanços tecnológicos, investigação contínua e regulamentação adequada. A implementação de sistemas de entrega por drones e terminais próximos a centros de saúde é uma estratégia promissora para aumentar a cobertura e a equidade no acesso aos cuidados. Paralelamente, é essencial investir em educação em saúde e na sensibilização da população, de modo a reduzir receios e aumentar a aceitação desta tecnologia.
Como destacou a Dra. Margaret Chan, ex-Diretora-Geral da Organização Mundial da Saúde: “O uso de drones para entregar produtos médicos que salvam vidas pode superar a falta de infraestrutura. Precisamos deixar a nossa imaginação voar quando buscamos maneiras de levar produtos médicos de qualidade àqueles que mais precisam.”.
Drones representam uma ferramenta inovadora e estratégica para a saúde pública, cujo potencial só será plenamente realizado com planeamento cuidadoso, investigação científica e integração em sistemas de saúde robustos.
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Artigo redigido por Anabela Pereira. Revisto por Joana Silva.