Connect with us

Cultura

OS FESTIVAIS GIL VICENTE E O TEATRO CONTEMPORÂNEO

Published

on

Os Festivais Gil Vicente começaram em Guimarães no ano de 1987, e desde aí que acontecem ano após ano, sucessivamente. Divulgam a produção teatral mais recente através de diferentes abordagens sobre temas actuais e pertinentes, e são já uma referência artística na cidade que foi Capital Europeia da Cultura em 2012. Este ano, os Festivais associaram-se aos cursos artísticos ministrados na Universidade do Minho, do que resultou uma Mostra de Trabalhos das Escolas de Arte: Andando II. E, para além disso, foram várias as actividades paralelas que serviram de ponto de encontro entre artistas e público. Houveram conversas, ensaios abertos, debates, e ainda uma Masterclass com Mickaël de Oliveira.

A peça de abertura, I don’t belong here é um projecto artístico que aborda o tema da deportação e leva ao palco testemunhos reais de homens e mulheres expulsos dos EUA e do Canadá que foram deportados para os Açores, depois de cumprirem pena de prisão. Luís de Sousa (um dos “não-actores”) afirmou, numa entrevista dada ao Porto Canal, que a deportação se trata de uma segunda pena de prisão que impede um condenado de voltar para junto da sua família. Esta é uma peça de Dinarte Branco e Nuno Costa Santos que traz um olhar conjunto e amargo sobre os efeitos da pena, e contribui para a sensibilização sobre a questão da estigmatização social entre ex-condenados.

Orlando, a partir de textos de Virginia Woolf, trouxe a mais recente vencedora dos Globos de Ouro como “melhor actriz de teatro” Sara Carinhas, nos papéis de intérprete e co-criadora, juntamente com Victor Hugo Pontes. A história, que é uma biografia de um homem que num dia acorda mulher, foi representada a solo na Black Box da Plataforma das Artes e da Criatividade.

Já o Teatro Oficina, repôs uma peça em que o público é convidado a participar num exercício teatral interactivo. Com o título Círculo de Transformação em Espelho,  procurou-se, junto das pessoas e do seu quotidiano, criar uma “transformação comum” entre todos os actores e participantes. Durante a tarde, os actores da Companhia de Guimarães abriram ainda as portas para um ensaio geral, aberto a estudantes e alunos interessados. O texto é de Annie Baker. O espectáculo ganhou o prémio Obie para Melhor Peça de Teatro Americana e foi, inclusive, aclamado pelo The New York Times e pela The New Yorker. Como produção nacional, foi também bastante elogiado pelo jornal The Guardian.

Na segunda semana, foi a vez de Fausta. Uma peça apresentada no Centro Cultural Vila Flor e com texto baseado no romance de Patrícia Portela “O Banquete”: “De quão pouco precisamos para destruir a vida que temos? De quanto precisamos para mudar? De quão pouco é preciso acontecer para nos transformarmos noutra pessoa?”. Após o espetáculo, os actores Tonan Quito e Pedro Gil reuniram-se com a audiência para uma conversa sobre o processo de criação da peça.

A penúltima exibição foi resultado da parceria entre o dramaturgo Mickaël de Oliveira e o encenador Nuno M Cardoso. Contou com a interpretação dos actores Albano Jerónimo, Mónica Calle e Raquel Castro. O texto oferece várias camadas de leitura e interpretações múltiplas, segundo Mickaël de Oliveira. Oslo – fuck them all and everything will be wonderful foi reescrito a partir de um texto já premiado, e como inspiração no exercício de escrita surgem referências tão opostas como Platão, por um lado, e a série South Park, pelo outro.

 

António e Cleópatra

No passado Sábado, o festival terminou o ciclo de apresentações com a esperada peça António e Cleópatra. Importante será dizer que esta criação será apresentada entre os dias 12 e 18 de Julho num fórum a céu aberto, em França, como resultado da selecção oficial para integrar a programação do Festival d’Avignon, um dos maiores festivais de artes performativas no mundo. Escrita pelo actual director artístico do D.Maria II, Tiago Rodrigues, a partir da tragédia de Shakespeare, a história baseia-se na aliança política a amorosa entre o militar romano Marco António e a sedutora rainha egípcia Cleópatra. A certa altura diz-se que “António é Cleópatra, age como ela”. António passou a ver o mundo pelos olhos de Cleópatra e, consequentemente, tomou decisões que ditaram o seu fim.

Em António e Cleópatra, os coreógrafos Vítor Roriz e Sofia Dias são actores. E acompanham os paços das personagens como se por um elo os desenhassem, tal foi a maneira que seguiram e criaram os movimentos das figuras invisíveis de António e Cleópatra, ora então, presentes em palco. A história é-nos sempre apresentada pelos olhos do outro. À medida que a dupla de actores relata toda a dinâmica das personagens, segundo a segundo, desenrola-se toda a acção através de uma linguagem descritiva: descrevem o que António faz e pensa, o que Cleópatra quer e diz…

“António beija Cleópatra”, “Cleópatra beija António”, “António beija Cleópatra”, “Cleópatra beija António”, “António beija Cleópatra”, “Cleópatra beija António”.

Será seguro afirmar que ao longo da peça foram criadas quatro realidades paralelas. A dos actores, quando sentam para beber um copo de água; a de António e Cleópatra através da visão dos actores; a dos actores já em veste de personagem; e finalmente, a do público que vê esta confusão de identidades como um todo. No entanto, também António e Cleópatra se confundem, coisa que Plutarco consolidou, e bem, na frase: “a alma do amante vive sempre em corpo alheio”.

António respira, Cleópatra respira, António respira, Cleópatra respira, Cleópatra respira e António não.

Para os interessados, Andando II decorre até o dia 19 de Junho. A mostra tem eventos espalhados por diversos locais na cidade, nomeadamente, no Centro para os Assuntos da Arte e da Arquitectura, no Instituto de Design e no Largo do Trovador.

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *