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Cultura

O 27 de junho no Babell: Byung-Chul Han, Margaret Atwood, Olga Tokarczuk e Cai Guo-Qiang

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O festival Babell afirmou-se como um dos epicentros culturais do ano e o dia 27 de junho ficou marcado por uma transição perfeita entre a filosofia mais confessional, o ativismo literário global e um espetáculo visual que parou as duas margens do rio Douro. Entre sessões esgotadas, figuras emblemáticas da literatura mundial e alguma polémica à mistura, a Invicta respirou arte em todas as suas vertentes.

Byung-Chul Han

@Lívia Bueno

O dia começou com um momento de reparação. Após os problemas técnicos de tradução que comprometeram a conferência do dia 24, a organização do festival promoveu uma sessão extra e de caráter intimista dedicada a todos os que tinham ficado privados da palavra do filósofo sul-coreano. Realizada na Manifesto Library (parceria da Lello com Dua Lipa),  a sessão, despida de formalismos, revelou um Byung-Chul Han desarmante e generoso na partilha. Recorreu a episódios da sua própria biografia para ilustrar a crueza e a premência do seu pensamento, oferecendo à plateia um testemunho vivo de resiliência e busca pela emancipação. O filósofo recordou duas das maiores provações da sua juventude, como a  subsistência no limite, após confessar  ter vivido durante dez anos a dormir num colchão resgatado do lixo e a invisibilidade académica, pois enviou mais de 200 currículos para posições de docência sem que tenha recebido uma única resposta.

O seu discurso, contudo, distanciou-se do ressentimento e vitimismo. Foi, acima de tudo, um manifesto vibrante pela liberdade individual, pelo pensamento crítico e pelo direito inalienável de se viver de acordo com as próprias convicções, um apelo direto a que não se desperdice a existência em funções desprovidas de sentido.

Margaret Atwood

@Lívia Bueno

Ao início da tarde, as atenções convergiram para o Largo dos Leões. A sessão de Margaret Atwood, a primeira a esgotar os ingressos nesta edição, atraiu uma multidão que pacientemente desafiou as longas filas de acesso. Na plateia assistia-se a uma autêntica constelação da literatura contemporânea: nomes como Valter Hugo Mãe, João Tordo, Rafael Gallo, Olga Tokarczuk e até Salman Rushdie, cuja intervenção estava agendada para o dia seguinte, faziam questão de escutar a autora canadiana.

A conversa foi conduzida com extrema elegância e mestria pela tradutora e escritora Tânia Ganho, que soube gerir com sensibilidade as contingências do espaço público. A meio da sessão, o som da marcha do Pride (Orgulho LGBTQIA+), que desfilava numa rua contígua, ecoou no recinto. Longe de quebrar o encanto, o momento transformou-se numa celebração: assim que a natureza da manifestação foi compreendida, a mesa e o público uniram-se num caloroso e unânime aplauso de solidariedade.

Atwood, com a vivacidade e o humor mordaz que lhe são característicos, centrou a conversa no seu percurso autobiográfico e na sua obra mais recente, enriquecida pelas leituras analíticas de excertos pela atriz Mia Tomé. Aos 86 anos, mas com a mesma urgência de quando começou a escrever, aos 16, a autora abordou os eixos centrais do seu pensamento:

“O feminismo tem de ser um movimento de inclusão, capaz de dialogar e incluir os homens.” — Margaret Atwood

Com a perspicácia habitual, a escritora alertou que a distopia de O Conto da Aia ecoa perigosamente na geopolítica atual e ironizou sobre o olhar que a sociedade projeta sobre as mulheres mais velhas, tantas vezes encurraladas entre o arquétipo da “velha sábia” e o espetro da “bruxa”.

A autora não realizou a habitual sessão de autógrafos, mas deixou um generoso compromisso com os leitores locais: 100 exemplares previamente assinados foram disponibilizados para venda no recinto.

@Lívia Bueno

@Lívia Bueno

Olga Tokarczuk

@Lívia Bueno

O testemunho literário passou de seguida para a Prémio Nobel da Literatura, Olga Tokarczuk. Visivelmente comovida por contar com a própria Margaret Atwood na plateia a assistir à sua intervenção, a escritora polaca assinou um dos momentos mais densos do dia. A sessão foi moderada pela jornalista e crítica cultural Marta Lança.

A autora de Os Livros de Jacob aproveitou a escala internacional do Babell para lançar uma reflexão crítica e um firme protesto contra o cânone literário tradicional. Tokarczuk lamentou a histórica e sistemática exclusão das mulheres do panorama dos “grandes clássicos” da literatura antiga, sublinhando a necessidade urgente de reescrever a História e resgatar as narrativas femininas que foram silenciadas ao longo dos séculos. Para a Nobel polaca, a literatura atual tem o dever de ser um espaço de reparação, dando voz a quem foi empurrado para as margens dos registos oficiais.

No fim, Tokarczuk disponibilizou-se para autografar alguns exemplares dos seus fãs mais ávidos, que tomaram os primeiros lugares na fila das assinaturas.

Cai Guo-Qiang

@Lívia Bueno

No início da noite, o público do Babel dispersou em direção à Ribeira do Porto e de Vila Nova de Gaia, fundindo-se com uma multidão entusiasmada que preenchia as margens do rio. O motivo do ajuntamento era a muito aguardada performance do conceituado artista visual chinês Cai Guo-Qiang, célebre pelas suas monumentais intervenções no Museu Guggenheim e na abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim.

Intitulada One Page, a intervenção propunha transformar o céu do Douro numa tela dinâmica, combinando a precisão tecnológica de coreografias de drones com a crueza e a imprevisibilidade da pólvora e da pirotecnia artística.

Como é frequente nas manifestações de arte contemporânea de grande escala, o espetáculo esteve longe de recolher a unanimidade do público, gerando reações contrastantes. Diversos espetadores elogiaram a audácia técnica do projeto e a beleza plástica do fumo e das luzes a moldarem a paisagem das pontes históricas, destacando o caráter poético e efémero da instalação. Por outro lado, registaram-se várias críticas por parte de quem considerou a performance demasiado breve para a enorme expectativa gerada, havendo quem apontasse que o impacto visual ficou aquém do fulgor prometido pelas credenciais do artista.

Consensual ou divisivo, o Babell provou, neste encerramento de jornada, a sua vocação original: provocar o pensamento e desafiar os sentidos.

@Lívia Bueno

 

@Lívia Bueno