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Devaneios

Memórias

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Do que melhor me recordo daquele tempo era do mês de julho, das tardes quentes passadas na horta perseguindo insectos por entre a fumária, a tasneirinha e os trevos, gafanhotos de pernas compridíssimas que se escapuliam para os canteiros de flores  e joaninhas que volitavam em torno dos limoeiros, tardes que pareciam não acabar nunca e em que a minha tia me sorria e acenava por baixo do umbral da porta, escondida pelas roseiras, pelo arbusto de azevinho e pela silhueta de ave das estrelícias, enquanto o meu avô nos olhava os dois da janela do quarto com os braços apoiados no peitoril, fitando por vezes as nuvens e os pardais que bicavam sementes no quintal… Alguns anos mais tarde, quando eu já não era criança, contou-me como costumava assustá-los, como os fazia voar para longe ao disparar chumbinhos de espingarda sobre eles e como comia os que matava, preparava-os numa tábua de madeira por cima da pia ao tirar-lhes o fígado e o coração minúsculos, uma história que até hoje não sei dizer se é inventada ou não e que era apenas uma entre muitas histórias, inúmeras, relatos contados repetidamente ao almoço e que ainda hoje sei de cor, falava-me por exemplo sobre quando era criança, do monte, do uivo dos lobos, do frio, sempre o frio, ruas geladas em que andava descalço por partilhar o único par de sapatos que tinha com o irmão, e falava-me da fome, do pão que a mãe fazia com as grainhas de uva moídas por faltar a farinha, tão azedo, tão duro, e de como, no campo, pedia aos gritos aos aviões que passavam para largarem bombas e acabarem com toda aquela miséria, para largarem bombas e o levarem dali com a mãe, o pai e os irmãos, memórias que me contava amiúde, narradas todas as vezes como se fosse a primeira vez, durante todos os nossos almoços em conjunto, e que nos últimos dias me têm surgido recorrentemente nos pensamentos… sabem, durante a madrugada a vida ganha frequentemente contornos de um acontecimento excessivo, cruel, e tenho-o sentido como nunca. Apercebi-me ontem de que já não vejo o meu avô há mais de mês. As saudades são imensas e arrependo-me irremediavelmente de todas as vezes que, por cobardia tola ou por pudor estúpido, não lhe disse o quanto gostava dele. Arrependo-me de muitas vezes ter apenas conseguido expressar-me por beijos esquivos na face e abraços tímidos. A verdade mais triste é que não sei quando o irei voltar a ver, não sei quando irei ter a oportunidade de me desculpar por todas as vezes em que o embaraço nos afastou e, por isso, tudo o que me resta fazer é prometer-lhe, avô, que quando tudo isto acabar iremos os dois estar juntos novamente, que irei dizer que o amo todas as vezes que puder e que iremos estar mais uma vez entre as flores, de braço dado, enquanto a tia nos sorri, e que as tardes irão outra vez parecer não acabar nunca.