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Opinião

Derrota e Honra

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Imagem: Florian Schmetz (Unsplash)

Era início de outubro quando um dos jogos mais importantes da década iria acontecer do outro lado do Oceano Atlântico. Palmeiras e Boca Juniors se enfrentariam para conseguir uma vaga para a final do maior torneio continental da América Latina: a Copa Libertadores.

De um lado, estava a equipa com melhor ataque e campanha geral do campeonato e que colecionava goleadas ao longo de sua trajetória. Do outro, havia uma equipa medíocre que apostava na violência e covardia no qual a torcida mascarava como “raça” e que empatou todos os confrontos possíveis no mata-mata, apenas se classificando nas penalidades. Era um conflito de interesses, luta entre filosofias, guerra entre o Brasil e a Argentina. Mas para os brasileiros, aquilo valia muito mais do que uma classificação: aquilo valia a honra e o orgulho.

Estava confiante: essa era a melhor geração da década, tínhamos jogadores brilhantes e um técnico revolucionário, jogávamos um futebol vistoso e impecável. Contudo, sempre aprendi que jamais se pode ser soberbo, principalmente quando se tratava daquela equipa argentina de bairro. Havíamos empatado o primeiro jogo em 0 a 0, o que não era um resultado ruim, pois iríamos decidir em casa. Depois de um início de jogo tenso, o inacreditável aconteceu: golo do Boca Juniors, Edinson Cavani, 1 a 0. O Palmeiras parecia uma sombra do que era e não se encontrava no primeiro tempo, mas uma luz chamada Endrick entrou para a segunda parte.

A equipa brasileira reencontrou-se em campo: atacávamos como fazíamos sempre e o golo estava muito próximo. Endrick, a nossa estrela, sofreu uma falta de Marcos Rojo. O jogador argentino – que inclusive teve passagem pelo Sporting – foi expulso pelo segundo cartão amarelo. Depois de alguns minutos, o golo finalmente saiu: o empate estava feito, 1 a 1. “É agora que vamos vencer!” – pensei – “Estamos com tudo nesse segundo tempo, só falta mais um gol.” O otimismo morreria gradualmente, pois o Boca Juniors começou a fazer o que eles sabem fazer de melhor: anti-jogo. Jogadores berrando por faltas inexistentes misturado com vaias e um juiz incompetente deram as cores dos minutos finais. Tudo se acabou por resolver na penalidade máxima. Como sempre, o jogo foi ganho no grito.

Era um silêncio ensurdecedor numa madrugada de sexta-feira. Outubro mal havia começado e eu já queria que ele terminasse. Pela quarta vez consecutiva, o Palmeiras era eliminado pelo Boca Juniors no torneio mais importante da América do Sul. Aquele sentimento estranho crescia em minha mente: ao mesmo tempo que queria gritar, chorar e explodir, eu não conseguia mover nenhum músculo. Meu pai, grande companheiro em tudo e inclusive no futebol, prometeu nunca mais ver o desporto na vida. Enquanto ouvia aquilo, apenas um único questionamento vinha na minha mente: como uma equipa tão arrogante, grotesca e suja conseguiu vencer uma equipa que sempre propôs a humildade, beleza e, sobretudo, um jogo limpo?

Esta pergunta extrapola as quatros linhas do futebol: em todos os desportos vemos injustiças acontecerem, principalmente à aqueles que mereciam a vitória. Há um pouco menos de 20 anos, a prova mais importante das Olimpíadas acontecia justamente no local onde tudo começou. Vanderlei Cordeiro de Lima não era o favorito para vencer a Maratona em Atenas. Contudo, a arriscada estratégia de impor um ritmo forte logo no início da corrida garantiu ao brasileiro a liderança no quilômetro 20. Com uma vantagem larga em cima do segundo colocado, apenas 7 quilômetros separavam Vanderlei e a linha de chegada. Ele seria o primeiro brasileiro da história dos Jogos Olímpicos a ganhar a medalha de ouro na prova mais importante do torneio. Isso se não fosse por uma falha inacreditável da segurança.

Neal Horan, um padre irlandês que já era conhecido por gostar das atenções, invadiu a pista e bloqueou a passagem do maratonista. Um torcedor local até conseguir ajudar Vanderlei a continuar na corrida, contudo o estrago já tinha sido feito: para além de perder entre 15 a 20 segundos de corrida, o seu ritmo e concentração caíram. No quilômetro 39, o italiano Stefano Baldini ultrapassou o brasileiro e acabou ficando com a medalha de ouro. O americano Meb Keflezighi também passou a frente de Vanderlei Cordeiro e conquistou o segundo lugar. Apesar do ocorrido, Vanderlei Cordeiro de Lima terminou a corrida e ficou com a medalha de bronze.

Nem é preciso dizer que os desportos são apenas um reflexo do mundo que temos. Darcy Ribeiro é um ótimo exemplo de como aqueles que lutam pela igualdade são aqueles que acabam derrotados. Um dos grandes académicos da história do Brasil, Darcy usou o seu conhecimento para combater a desigualdade social, fortalecer a educação para as camadas mais pobres do país e participar ativamente da causa indígena, povo que é constantemente massacrado. Em 1962, o presidente João Goulart apontou-o como o Ministro da Educação. Após fundar a Universidade de Brasília (UnB), Darcy Ribeiro foi convidado para ser o chefe da Casa Civil, papel fundamental entre a comunicação do Legislativo com o Executivo e fazer continuidade de seu trabalho. Entretanto, todo o seu processo haveria de ser apagado: após o golpe de estado militar em 1964, não só todos os projetos da educação foram abandonados, como Darcy Ribeiro foi exilado do país.

No fundo, a pergunta deixa de ser o porquê quem joga sujo vence quem joga limpo. A resposta para isso é bem simples: o jogo foi feito por aqueles que não tem escrúpulos, integridade ou caráter. O vencedor fica com tudo, pois ele é quem cria as regras. Dito isso, a questão inicial transforma-se num debate antigo: se o jogo está feito para quem joga sujo, porquê eu deveria jogar limpo se eu sei que eu vou perder?

Quando pensamos na vida como um jogo, acabamos por nos esquecer que existe valores muito mais importantes do que apenas a vitória e a derrota. E é normal esquecermos-nos disto: estamos num mundo onde temos sempre de ser merecedores o suficiente para ocupar qualquer tipo de espaço. Se não tiveres as melhores notas, não vais entrar na universidade que queres. Se não fores bom o suficiente na faculdade, não vais ter força no mercado de trabalho. Se não trabalhares duro sempre e toda a hora, não vais ter o teu emprego por muito tempo. Todas essas frases esvaziam a nossa experiência como seres humanos. Do que adianta sermos os melhores na nossa área académica ou profissional se não temos amigos para compartilhar o topo? Virtudes como a gratidão, a compaixão e a dignidade sempre serão mais importantes do que qualquer tipo de glória.

E isso nos faz voltar para a história de Vanderlei Cordeiro. Apesar de não ter conquistado a medalha de ouro, o seu espírito olímpico de continuar a corrida, comemorar o bronze com orgulho e jamais tentar reivindicar a medalha de ouro garantiram-no num espaço muito mais especial. O maratonista foi consagrado com a medalha Pierre de Coubertin, a maior honraria que um atleta olímpico pode receber. Ele foi o primeiro e único latino-americano a ganhar esta medalha. Assim como várias medalhas de prata não são capazes de preencher a glória de uma medalha de ouro, não existe conquista desportiva nenhuma que seja comparável a uma conquista de qualidade moral, ético e humanitário. Vanderlei não ganhou a prova, mas ganhou o amor de toda uma nação e o reconhecimento por sua preservança.

Vale notar que não foi só a vida de Vanderlei Cordeiro que foi diretamente impactada por conta desse evento: o torcedor grego local que ajudou o maratonista a continuar a prova, Polyvios Kossivas, não só ganhou o título de cidadão honorário brasileiro, como também virou um herói nacional, inclusive ganhando a alcunha de “Anjo Grego”. Muitas vitórias marcantes podem ter marcado as Olimpíadas de Atenas em 2004. Mas nenhuma delas será tão marcante quanto a história de Vanderlei Cordeiro.

Por falar em aspetos marcantes, eu poderia citar todos os grandes feitos e acontecimentos que Darcy Ribeiro exerceu para a sociedade brasileira e mundial. Contudo, isso não seria o suficiente. Nem para o próprio sociólogo foi o suficiente. Até porque foi ele próprio quem disse:

Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.

Bom, como se é de imaginar, a frase não acaba por aí. O que eu quis dizer em extensos parágrafos, Darcy colocou de forma precisa e bela:

Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

No fundo, aquela dolorosa e trágica noite serviu para reforçar uma importante lição que tento levar para o resto da minha vida: uma conquista sem honra sempre será uma derrota.

Por sorte aquela noite só trouxe apenas uma lição de moral e nenhum ressentimento: nem precisei de falar tudo isso para convencer o meu pai a voltar a ver jogos de futebol. No final do ano, aquele brilhante do Palmeiras viria a ganhar o campeonato nacional de maneira heróica, liderado pela estrela Endrick. O Boca Juniors? Perdeu a final da Libertadores para o Fluminense do idealista Fernando Diniz e acabou se afundando no ostracismo. O mundo pode ser um lugar bastante injusto. Mas quando a justiça acontece, não existe sentimento no mundo mais satisfatório que este!

Artigo da autoria de Matheus Bissacot

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