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Cultura

Fado sem guitarras: O fim, de António Patrício

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O fim, peça escrita por António Patrício em 1909, sobe ao palco até dia 22 de fevereiro no Teatro Nacional São João pela encenação de Carlos Pimenta.

Noite de estreia praticamente esgotada. Um dia de chuva lá fora. Uma peça em dois atos. O caos cá dentro. A beleza da interpretação. Assim foi a estreia de O fim, de António Patrício, no passado dia 12 de fevereiro.

Comprei bilhete sem conhecer a narrativa ou os atores. Simplesmente, os cartazes da peça andavam a seguir-me por toda a cidade e lá decidi ir, até porque uma ida ao teatro nunca é desperdiçada. Não me preparava para a emoção das cenas que se seguiram.

O fim, levado a cena pela primeira vez em 1971, representa Portugal após o regicídio e antes da implantação da República. Acompanhamos o caos de um país que vive em anarquia e contra a monarquia e acompanhamos uma rainha, a Rainha Velha, que perdeu o marido e o filho naquele dia fatal, 1 de fevereiro de 1908.

“Foi a primavera trágica de um povo que hibernava há séculos.”

É certo que ainda sou uma bebé no que diz respeito a aventuras teatrais, mas não esperava ficar tão surpreendida e arrebatada por uma peça em dois atos. Um primeiro ato em que compreendemos o estado de loucura em que se encontra a Rainha. Um segundo em que percebemos o que levou às revoltas que se vivem no país.

No entanto, o sucesso desta encenação residiu, para mim, além do texto, na atriz. Emília Silvestre encarna a loucura da Rainha de uma forma magistral. O público sente o desespero de uma rainha que perdeu o poder e os que amava. Sentimos a loucura, o caos em que a sua mente vive. E conseguir sentir tudo isto de uma forma tão real significa que a atriz atingiu o apogeu da sua representação.

Depois, claro, há outros aspetos extremamente bem conseguidos nesta encenação: o cenário minimalista, num jogo de luzes pouco intensas e de um nevoeiro que povoa as personagens, a forma como uma personagem se consegue camuflar dando destaque a outra, quando necessário.

Reparemos: o cenário é simples: uma mesa e dois painéis. O resto, a beleza e a grandeza emocional da peça, fica com as luzes, com os atores e com os silêncios, tão importantes no teatro (e na vida).

Mais uma vez, o Teatro Nacional São João está de parabéns por esta encenação, que podem ver até dia 22 de fevereiro!

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