Ciência e Saúde
Alzheimer: um novo tratamento à vista
Estudos recentes identificam níveis de lítio diminuídos na circulação sanguínea de pessoas com Alzheimer como um possível marcador e alvo terapêutico, abrindo portas a novas estratégias de diagnóstico e tratamento.
Durante décadas, o lítio foi associado quase exclusivamente à psiquiatria, mais precisamente no contexto do tratamento da perturbação bipolar. No entanto, estudos recentes verificaram que este elemento químico tem vindo a surgir associado a um contexto até então inesperado, o Alzheimer.
Em que consiste o Alzheimer
O Alzheimer é uma patologia neurodegenerativa caracterizada pela perda progressiva de memória e função cognitiva. Esta perda deve-se não só à perturbação da transmissão das sinapses, isto é, dos impulsos nervosos, como à morte dos próprios neurónios. Estes fenómenos são proporcionados, em parte, pela acumulação do péptido β-amiloide, cuja função está relacionada com a modulação da atividade sináptica, mas que em excesso forma placas insolúveis no espaço extracelular do cérebro, diminuindo a eficiência da transmissão sináptica.
Paralelamente, a hiperfosforilação, isto é a adição de fosfato,da proteína tau, responsável pela estabilidade dos microtúbulos presentes na divisão celular e pelo transporte neuronal, leva à formação de emaranhados intracelulares, agregados anormais de proteína tau dentro dos neurónios, que contribuem para a morte celular.
Relação entre o lítio e o Alzheimer
O lítio surge neste contexto associado ao seu potencial para inibir a enzima GSK-3β, uma das principais responsáveis pela formação de β-amiloide e pela hiperfosforilação da tau.
Adicionalmente, o lítio foi associado não só à promoção efeitos neuroprotetores, favorecendo a sobrevivência neuronal, o crescimento de neurónios e o reforço das sinapses, como também a uma ação anti-inflamatória.
Desta forma, esta substância consegue estimular a formação de novos neurónios, melhorar a eficiência das sinapses e ainda proteger os neurónios de processos como a inflamação, que levam à sua morte.
Um equilíbrio entre o potencial e risco
Apesar de todo o entusiasmo em torno desta nova descoberta, existe uma característica do lítio que não pode ser ignorada: a sua toxicidade.
A utilização do lítio pode afetar os rins e a tiroide. Logo, qualquer utilização fora do contexto psiquiátrico exige bastante cuidado. Por este motivo a questão que se procura ver respondida é se é possível obter benefícios neurológicos com doses baixas e seguras?
Investigadores constataram menor prevalência de demência em regiões com traços naturais de lítio na água potável. Além disso, um estudo de pequena escala testou doses subterapêuticas de lítio em pessoas com défice cognitivo ligeiro. Embora alguns casos tenham revelado um desempenho cognitivo favorável associado à progressão da doença, os resultados ainda não atingiram o limiar de significância pré-especificado.
Contudo, a quantidade reduzida de amostras e a curta duração do acompanhamento dos doentes que participaram nos ensaios clínicos, não traduz a fiabilidade dos resultados obtidos, demonstrando-se assim a evidência, insuficiente para recomendações clínicas.
Visto isto, até ao momento, não há evidência científica de que o lítio cure o Alzheimer. O seu potencial reside na possível utilização de forma complementar, em futuros tratamentos multifatoriaisl para retardamento eficaz da doença. No entanto, esta possibilidade carece ainda de mais ensaios clínicos, não sendo recomendada a sua automedicação.
Artigo redigido por Alexandra Santos. Revisto por Ana Luísa Silva.