Ciência e Saúde
Suplementação nutricional: necessidade ou tendência?
O consumo de suplementos alimentares tem aumentado nas últimas décadas, com o intuito de promover um estilo de vida mais saudável e suprir deficiências nutricionais. Esta tendência levanta questões científicas relevantes sobre a sua eficácia e real necessidade em indivíduos com uma alimentação equilibrada.
Suplementos alimentares, o que são?
Os suplementos alimentares são, segundo o Decreto-lei 136/2003, “[…] géneros alimentícios que constituem uma fonte concentrada de substâncias nutrientes, as quais são apresentadas como complemento aos nutrimentos ingeridos num regime alimentar normal.”. Estes são tomados, de modo doseado, sob a forma de comprimidos, cápsulas, líquidos, saquetas de pó, entre outros, e contêm ingredientes como minerais, aminoácidos, vitaminas, enzimas e extratos de plantas. De acordo com um estudo português, do Instituto Superior de Agronomia, da Universidade de Lisboa, os ingredientes que mais prevalecem nos rótulos do mercado nacional de suplementos nacionais são: plantas/extratos (56%) e vitaminas/minerais (23%). Assim, conclui-se que estes fazem parte de dois dos três grandes grupos que integram os suplementos (discriminados na seguinte tabela:).

Fonte: Infarmed
Vitaminas, o que são?
É também bastante comum a venda e compra de vitaminas como modo de suplemento à alimentação. As vitaminas são compostos orgânicos, desprovidos de ação energética ou plástica, indispensáveis ao bom funcionamento do metabolismo. Contribuem, assim, para a manutenção normal da vida e da saúde. Na ausência destas substâncias, certas funções básicas do organismo ficariam comprometidas, conduzindo ao aparecimento de doenças graves para a saúde como anemia, cansaço, queda de cabelo, diarreia, entre outros. Esta doença, caracterizada pela carência grave ou total de uma ou mais vitaminas, é denominada de avitaminose, que pode ser causada pela baixa ingestão de alimentos ricos em vitaminas ou por condições que diminuem a absorção de nutrientes, como por exemplo doenças inflamatórias intestinais e cirurgias bariátricas.
As vitaminas podem ser agrupadas em vitaminas hidrossolúveis e lipossolúveis. As hidrossolúveis são vitaminas capazes de se dissolverem em água. Estas são absorvidas pelo intestino e posteriormente transportadas, através do sistema circulatório, até aos tecidos, onde são armazenadas, em quantidade limitada. A sua excreção efetua-se através da urina. Alguns exemplos são as vitaminas B1, B2, B5, B12, C, H, PP, entre outras. Por outro lado, as vitaminas lipossolúveis são, tal como o próprio nome indica, solúveis em gordura. Ao contrário das hidrossolúveis, estas são transportadas pelo sistema linfático até diferentes partes do corpo, depois de serem absorvidas pelo intestino pela ação de sais biliares excretados pelo fígado. Este tipo de vitaminas é mais facilmente armazenado pelo organismo, quando compradas com as hidrossolúveis. Algumas das vitaminas lipossolúveis mais importantes para o bom funcionamento do corpo humano são: A, D, E e K.
Quem pode/ deve consumir suplementos alimentares?
De um modo geral, uma alimentação equilibrada e diversificada, rica em vegetais, frutas, proteína, gordura insaturada e cereais integrais é suficiente para garantir a presença de todos os nutrientes essenciais para o bom funcionamento do organismo, não havendo, à partida não a necessidade de recorrer à suplementação.

Fonte: Sapo
No entanto, existe um grupo restrito de pessoas cuja toma destas substâncias poderá ser aconselhada. Neste grupo incluem-se, em primeiro lugar, grávidas, ou mulheres que pretendam engravidar. Segundo a Direção Geral de Saúde (DGS) é aconselhável a toma de alguns suplementos como por exemplo o ácido fólico, ou vitamina B9 (hidrossolúvel), importante na prevenção de algumas malformações do feto, como é o caso de malformações da coluna vertebral, responsável por danos relacionados com o sistema nervoso centra), e também de ferro. Também as crianças se incluem neste grupo. A DGS recomenda também a suplementação de vitamina D a todas as crianças saudáveis até aos 12 meses de vida, independentemente do seu tipo de alimentação. A suplementação desta vitamina é também recomendada no tratamento de raquitismo infantil e nutricional em crianças entre os 12 meses e os 10 anos. Ademais, também os idosos, ou seja, pessoas com mais de 65 anos, se incluem neste grupo, sendo-lhes aconselhável, de igual modo, a toma de vitamina D. Por fim, incluem-se ainda pessoas com fatores de risco para deficiência e insuficiência de vitamina D; indivíduos com antecedentes clínicos de distúrbios metabólicos, congénitos ou adquiridos, que afetam o metabolismo do cálcio e da vitamina D.
De resto, a maioria das pessoas não necessita de suplementos alimentares, uma vez que a alimentação suprime a quantidade de nutrientes necessários. Aliás, apenas uma determinada quantidade de cada nutriente é necessária para o funcionamento do organismo, e quantidades mais elevadas não são necessariamente melhores. De facto, em doses elevadas, algumas substâncias podem ter efeitos adversos e até mesmo tornar-se nocivas.
Tipos de suplementos e seus benefícios
Embora possam ser vendidos em farmácias, os suplementos alimentares não são medicamentos. Deste modo, a legislação não permite que lhes sejam associadas propriedades de tratamento e/ou prevenção de doenças. Ainda assim, existem evidências de alguns efeitos benéficos para a saúde, associados a estes. Alguns exemplos são: a creatina, substância popular entre atletas, que contribui para o ganho de massa muscular; ômega 3, derivado de óleo de peixe, com benefícios para a saúde cardiovascular, cerebral, redução da inflamação e suporte do sistema imunológico; colagénio, cuja forma de fibra auxilia na firmeza, hidratação e elasticidade da pele; magnésio, essencial para a saúde óssea, estabilidade da junção muscular e cardíaca e regulação de funções hormonais e imunológicas; vitamina B12, que contribui para a saúde das células sanguíneas e dos neurónios; entre outros.

Fonte: Pixnio
Riscos e advertências
Apesar dos potenciais benefícios associados à suplementação alimentar, o seu consumo não está isento de riscos, especialmente quando utilizado sem supervisão médica ou em doses inadequadas.
Assim, estes efeitos poderão estar associados à toma simultânea de vários suplementos ou à sua toma em simultâneo com medicamentos. Um exemplo disso é a toma de vitamina K juntamente com fármacos anticoagulantes, uma vez que esta vitamina tem exatamente a função contrária. Também o hipericão, usado para o alívio de sintomas de ansiedade e depressão, poderá interferir com a eficácia de antidepressivos e anticoncecionais. Existe ainda a questão de muitas pessoas utilizarem indevidamente os suplementos alimentares como uma substituição de uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes, prática de atividade física e descanso adequado.
Regulamento e segurança
No contexto europeu, os suplementos alimentares encontram-se sujeitos a regulamentação específica destinada a assegurar a sua qualidade, segurança e correta informação ao consumidor. Esta diretiva inclui uma lista de vitaminas e minerais autorizados, regras de rotulagem e informação ao consumidor, definição legal de suplementos alimentares, obrigação da indicação da dose diária recomendada e advertências no rótulo, entre outros.
Ademais, acrescenta-se a cautela para a toma excessivamente prolongada de alguns suplementes, pois poderá provocar toxicidade, bem como para a falsa sensação de segurança associada a suplementos compostos por substâncias “naturais”, como ervas, pois tal facto não significa que o mesmo seja seguro e adequado à toma.
Os suplementos alimentares têm vindo a assumir um papel cada vez mais relevante na sociedade, sendo frequentemente associados à promoção de saúde e bem-estar. Todavia, a evidência científica indica que, para a maioria das pessoas que seguem um estilo de vida saudável, com uma alimentação equilibrada e diversificada, a suplementação não é necessária. Os suplementos alimentares devem ser encarados como um complemento e não como um substituto de um estilo de vida saudável, baseado numa alimentação equilibrada, prática regular de atividade física e acompanhamento médico adequado.
Artigo redigido por Beatriz Ferreira. Revisto por Isabel Santos de Sousa.