Ciência e Saúde
Auto-monitorização da saúde: Até que ponto pode ser vantajoso?
Desde relógios a anéis, estes pequenos dispositivos têm sido cada vez mais utilizados em hospitais e na comunidade para monitorizar os sinais vitais dos utentes.
Atualmente, segundo estudos feitos nos Estados Unidos e na Europa, a monotorização contínua dos doentes através de meios tecnológicos tem aumentado significativamente, sendo que na maioria dos casos, chegam a desempenhar um papel central. Especialistas afirmam que a inovação pode melhorar a prevenção e o tratamento de doenças crónicas. No entanto, ainda prevalecem várias dúvidas quanto ao uso destes dispositivos.
Nos últimos anos, a monitorização remota de pacientes através de dispositivos vestíveis tornou-se uma tendência crescente no âmbito da saúde digital. As revisões científicas mais recentes indicam que já existem relógios inteligentes, anéis biométricos e sensores integrados em roupas, que são capazes de fornecer dados contínuos sobre a frequência cardíaca, a saturação de oxigénio, a pressão arterial e até mesmo dar informações sobre os padrões de sono de cada indivíduo. Estes dados permitem aos profissionais de saúde o acompanhamento à distância do estado clínico dos seus utentes com doenças crónicas, como a hipertensão, a insuficiência cardíaca e as diabetes.
Um estudo publicado em 2024 na revista JMIR mHealth and uHealth avaliou um sistema de monitorização remota com relógios inteligentes em pacientes com miocardiopatia dilatada. Os resultados mostraram que 87% dos participantes conseguiram integrar o dispositivo na rotina diária e 71% reconheceram benefícios diretos no acompanhamento da sua condição. O estudo salientou ainda os alertas que estes dispositivos davam aos médicos sobre dados com alterações relevantes, antes que surgissem complicações graves.
No entanto, revelam-se aspetos que ainda têm que ser melhorados. Neste contexto, uma meta-análise sobre hipertensão veio a revelar, que o impacto dos wearables, isto é, de dispositivos eletrónicos que podem ser usados no corpo, na avaliação da pressão arterial ainda é modesto, porque para além de maioria dos estudos efetuados nesta área ser de curta duração, como os níveis de adesão por parte das pessoas variam muito e maior parte dos dispositivos ainda não têm sensores suficientemente precisos para captar alterações subtis da pressão arterial, refletindo a necessidade de ensaios clínicos mais amplos e uniformes. Paralelamente, outras investigações , constataram a verificação de erros médios de 6,2 mmHg na previsão de alterações da pressão arterial dadas por modelos de redes neuronais. O especialista Dr. Armando Lobato corrobora dizendo:
“Os wearables têm-se mostrado ferramentas valiosas, mas os dados podem conter erros (…) estes dispositivos devem ser usados como ferramentas de apoio, nunca como diagnósticos definitivos”
Como tal, estes dispositivos ainda estão bastante longe de apoiarem decisões médicas.Os especialistas alertam também para as questões de privacidade e segurança dos dados, que apesar da evolução, continuam a permanecer aspetos sensíveis, pelo que já ocorreram casos documentados de fugas ou acessos indevidos a dados recolhidos por wearables e aplicações de saúde, transparecendo uma vulnerabilidade de segurança por parte dos mesmos. Além disso, a integração das informações no fluxo de trabalho dos profissionais de saúde representa ainda um futuro longínquo em diversos sistemas hospitalares.
A longo prazo, estes dispositivos têm potencial para transformar positivamente o acompanhamento clínico, possibilitando intervenções precoces, reduzindo hospitalizações e apoiando modelos híbridos de cuidados, que combinam o presencial com o digital. Espera-se, portanto, que os wearables se tornem cada vez mais precisos, acessíveis e integrados nos serviços de saúde, beneficiando pacientes e profissionais.
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Artigo redigido por Alexandra Santos. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.