Ciência e Saúde
Stranger Things decodificada: entre ficção e ciência
Entre monstros e mundos paralelos, Stranger Things esconde mais ciência real do que parece.
Sinopse
Stranger Things é uma série criada pelos irmãos Duffer e estreada em 2016, ambientada na pequena cidade fictícia de Hawkins, nos Estados Unidos, durante a década de 1980. A história começa com o desaparecimento inesperado de um rapaz, um acontecimento que perturba a cidade e leva os amigos e a família a procurarem respostas.
Durante a investigação, encontram uma rapariga com capacidades psíquicas que escapou de um laboratório governamental próximo de Hawkins, onde eram conduzidas experiências secretas associadas a uma dimensão paralela, o Upside Down. Ao longo do desenvolver da história, ameaças cada vez mais complexas desafiam os personagens a tomar decisões difíceis e a compreender o inexplicável, para salvar quem amam.

Retrato de algumas personagens principais de Stranger Things. Fonte: Netflix
Stranger Things pode contar com telecinese, mundos paralelos e criaturas nada simpáticas, mas não surgiu do zero. Pelo meio da ficção, a série espalha conceitos científicos reais, alguns usados corretamente, outros nem tanto, que pertencem à genética, à neurociência e à física, áreas científicas que, fora da ficção, levantam questões muito reais sobre ciência e saúde.
O caso de Dustin: displasia cleidocraniana dentro e fora do ecrã
Dustin Henderson é um dos raros exemplos de uma personagem de uma série de grande audiência cuja condição médica é explicitamente identificada: displasia cleidocraniana. Trata-se de uma doença genética rara e hereditária, causada por mutações no gene RUNX2, essencial para o desenvolvimento normal do esqueleto.
Este gene regula a diferenciação dos osteoblastos, as células responsáveis pela formação óssea. Quando a sua função é alterada, estruturas como as clavículas e os ossos do crânio podem desenvolver-se de forma incompleta. Clinicamente, isto manifesta-se por clavículas ausentes ou subdesenvolvidas, fontanelas que permanecem abertas por mais tempo e alterações dentárias, como atraso na erupção dos dentes permanentes.
Um aspeto cientificamente relevante e socialmente importante é que a displasia cleidocraniana não afeta o desenvolvimento cognitivo. A inteligência, a curiosidade e a capacidade social de Dustin refletem com fidelidade a realidade médica, contribuindo para uma representação informada de uma condição genética pouco conhecida.

Retrato da personagem Dustin Henderson de Stranger Things. Fonte: Netflix
O cérebro em silêncio: o que é a privação sensorial
Outro conceito central apresentado na série é o da privação sensorial, particularmente nos episódios em que Eleven é colocada em ambientes escuros, silenciosos e com estímulos reduzidos ao mínimo.
A privação sensorial é estudada há décadas em psicologia e neurociência. Contrariamente à ideia intuitiva de que o cérebro “desliga” na ausência de estímulos, o que se observa é um aumento da atividade cerebral espontânea. Sem informação externa, o cérebro passa a gerar conteúdos internos, ativando redes associadas à memória, imaginação e perceção.
Em contextos controlados e de curta duração, este estado pode ter efeitos positivos. Estudos sugerem melhorias na capacidade de concentração, no processamento emocional e na criatividade, além de ser explorado em práticas terapêuticas como a meditação profunda ou tanques de flutuação sensorial.

Personagem Eleven numa privação sensorial. Fonte: Netflix
Elétrodos e sinais: o que mede um EEG
Em Stranger Things, particularmente nas cenas passadas no Laboratório de Hawkins, a personagem Eleven é frequentemente submetida a experiências em que a sua atividade cerebral é monitorizada, evocando a ideia de que os investigadores conseguem acompanhar em tempo real o funcionamento do cérebro.
Na prática clínica, o eletroencefalograma (EEG) é umexame fundamental que regista a atividade elétrica do córtex cerebral através de elétrodos colocados no couro cabeludo.
É amplamente utilizado no diagnóstico de epilepsia, na avaliação de distúrbios do sono, no acompanhamento de estados de coma e em contextos de anestesia. O EEG permite observar padrões elétricos globais do cérebro, fornecendo informação valiosa sobre o seu funcionamento fisiológico.
A sua presença na narrativa lembra um ponto essencial da neurociência moderna: o cérebro comunica através de sinais elétricos mensuráveis, ainda que a interpretação desses sinais seja complexa e limitada ao que a tecnologia atual permite observar.

Personagem Eleven num exame médico, EEG. Fonte: Netflix
Bússolas, magnetismo e forças invisíveis
Num dos momentos mais emblemáticos da série, as bússolas deixam de apontar para norte. Este fenómeno remete diretamente para o campo magnético terrestre, um campo físico real gerado pelos movimentos do núcleo externo da Terra.
A agulha de uma bússola alinha-se com esse campo, permitindo a orientação geográfica. Campos magnéticos intensos ou perturbações locais podem interferir nesse alinhamento, fazendo com que a agulha se desvie. É um exemplo claro de como forças invisíveis, mas mensuráveis, fazem parte do quotidiano tecnológico e científico.

Observação de bússolas. Fonte: Netflix
Wormholes: uma ideia matemática da física moderna
A noção de um “portal” entre mundos remete para um conceito real da física teórica: os wormholes, ou, em português, buracos de minhoca. Propostos matematicamente no contexto da Relatividade Geral, descrevem possíveis atalhos no espaço-tempo que ligariam regiões distantes do universo.
Embora nunca tenham sido observados, os wormholes ocupam um lugar sério na física teórica, sendo estudados como soluções matemáticas das equações de Einstein. São um exemplo de como a matemática permite explorar os limites do que é fisicamente concebível, mesmo quando essas ideias permanecem fora do alcance experimental.

Personagem de Dustin a explicar um wormhole. Fonte: Netflix
Ciência e responsabilidade
Por fim, a série toca, ainda que de forma implícita, numa questão central da ciência contemporânea: a ética da investigação científica. O uso de seres humanos, particularmente crianças, em contextos experimentais levanta questões que hoje são reguladas por normas internacionais rigorosas.
Documentos como o Código de Nuremberg e a Declaração de Helsínquia estabeleceram princípios fundamentais que orientam a investigação médica e científica moderna, reforçando a ideia de que o avanço do conhecimento não pode ser dissociado da responsabilidade ética.

Pacientes do laboratório ficcional de Hawkings. Fonte: Netflix
Ao trazer estes conceitos para o centro da cultura popular, Stranger Things acaba por cumprir um papel inesperado: despertar curiosidade científica. Por detrás da narrativa ficcional, encontram-se ideias reais sobre o corpo, o cérebro e o universo que continuam a ser objeto de estudo, debate e descoberta.
Texto por Sofia I. Conceição Guerreiro. Revisão por Ana Luísa Silva.