Connect with us

Cultura

Edmundo Inácio fala sobre o seu trabalho e a digressão “Pelos Clubes Cá da Terra”

Published

on

Crédito – Universal Music Portugal

 

 

Edmundo Inácio faz jus ao título de artista no sentido mais abrangente da palavra. Além de cantor, é compositor, produtor e performer, tendo um papel ativo em todas as etapas do seu processo criativo. É um entusiasta das mais variadas expressões artísticas, mas é na música que encontra o ponto de convergência desse universo plural, sempre atento às questões sociais, políticas e humanas que atravessam o seu tempo e o seu caminho. Ao destacar-se no programa de televisão The Voice Portugal e no Festival da Canção, encontrou uma maior projeção junto ao grande público e esta experiência reforçou a sua identidade artística perante a vasta audiência que conquistou.

O JUP teve a oportunidade de conversar com o artista para conhecer melhor o seu trabalho, as suas influências e o modo como constrói cada projeto. Ao longo da entrevista, Edmundo reflete sobre o seu percurso, as aprendizagens acumuladas e a forma como encara a criação artística.

Entre abril e maio, Edmundo Inácio apresenta-se ao vivo com a digressão “Pelos Clubes Cá da Terra”, que passará por várias cidades num formato intimista, acolhedor e experimental, onde o público terá um papel central na experiência do concerto. No Porto, o espetáculo está marcado para o dia 17 de abril, nos Maus Hábitos.

Mais informações sobre a digressão podem ser consultadas após a entrevista.

 

Clica aqui para ouvir Relento

 

JUP: O teu mais recente single, Relento contou com a colaboração do artista Peculiar. Que lugar ocupa esta canção no novo álbum Vida de Cão? E, aproveitando, gostava também que nos falasses um pouco sobre este novo trabalho. Que temas atravessam o disco e que universo quiseste construir, tendo em conta que as tuas letras combinam crítica e emoção de uma forma muito particular?

Edmundo Inácio:  Não vou começar pelo Relento, mas sim pelo disco, pois ele terá uma edição em vinil em narrativa, onde o lado A é um pouco mais alegre, enquanto no lado B começa a pesar mais a consciência sobre o mundo, sobre mim, sobre tudo que eu acho que é um bom equilíbrio, e é diferente do primeiro disco.

O primeiro disco (Vai-se Andando?) era mais este lado B, mas o Relento, apesar de ser dividido nestes dois lados, vejo-o de três formas em que existe uma parte mais sobre mim, outra sobre o mundo e as pessoas que eu conheci, e outra sobre mim e as pessoas que eu amo.

O Relento encaixa-se na parte sobre as pessoas que eu fui conhecendo, ouvindo as suas histórias. Fala um bocadinho sobre os trabalhadores noturnos, sobretudo os cantoneiros. Trabalham e têm horários trocados com as pessoas que amam, o que dificulta um bocadinho a vida pessoal, mas a sociedade não tem essa noção e eu também não a tinha.

Nunca tinha pensado muito sobre isso até começar a refletir realmente e a perceber que estas pessoas levam a noite toda a recolher o lixo e a organizar a cidade. Nós não reparamos e no dia seguinte a cidade está mais limpa e organizada e nós nem pensamos em quem fez isso.

Já crescemos a acreditar que isto é garantido e quando a rua não está limpa é que a gente começa a dizer “A Câmara ou a Junta de Freguesia não andam a fazer o seu trabalho”. Mas nunca paramos realmente para pensar que são pessoas que andam a recolher lixo durante a noite, ao frio e sem horários normais, para depois durante o dia não conseguirem, se calhar, ter uma vida mais ativa, pois obviamente estarão a descansar e não conseguem aproveitar tanto a vida — durante a noite, a parte das coisas estão fechadas. Este Relento cabe nesta parte da narrativa, em que eu olhei um bocadinho para o mundo e fui à procura de histórias que me inspirassem.

Já o primeiro lado, que tem um bocadinho de Terra, que é o single anterior, é um tema um bocadinho mais sobre mim, sobre como eu me sinto neste momento, e como eu me sinto em relação à minha arte. Sinto-me mais esperançoso que as coisas corram de uma forma muito melhor. Claro, temos de ter paciência e os pés bem assentes na terra, mas o Terra já tem um bocadinho sobre mim.

 

JUP: Disseste que que não tinha muita noção dessa história, mas conheces alguém que tenha esse tipo de trabalho? No caso foram os cantoneiros, mas há também outras profissões que trocam a noite pelo dia, mesmo na saúde, por exemplo.

Edmundo Inácio:  Ainda bem que puxou por isso porque inicialmente o Relento era para falar sobre todos os trabalhadores noturnos, só que começamos a sentir muita dificuldade em tentar contar a história de uma pessoa ou sobre um grupo de pessoas e snotamos que depois começava a ficar muito confuso porque íamos começar a trazer os médicos, os enfermeiros… A nossa intenção inicialmente era falar sobre um bocadinho sobre a saúde, mas houve um clique em conjunto que pensamos, OK, mas os cantoneiros nunca são falados!.

Então pensamos em focar só numa profissão para não ficar muito confuso, porque a música é liricamente composta por uma narrativa mais densa, tirando os dois refrões. E se fosse uma coisa muito específica, com várias histórias mais dispersas, poderia ser mais difícil para as pessoas compreenderem a nossa intenção.

JUP: Parabéns, calhou bem, pois como disseste, por mais que sejam médicos ou enfermeiros, por exemplo, estes acabam por ser mais falados. Para os cantoneiros traz também o sentimento de pertença.

 

JUP: A tua identidade artística cruza de forma muito evidente a tradição portuguesa com uma abordagem contemporânea, algo que se reflete não só na tua música, mas também na forma como te apresentas visualmente e no teu posicionamento enquanto artista. Como é que encontras esse equilíbrio entre preservar as raízes e, ao mesmo tempo, ser disruptivo e atual?

Edmundo Inácio:  Não acho que haja uma fórmula para todas as canções e para tudo o que eu faço, mas a questão do tradicional veio um bocadinho também quando eu fui para a faculdade no Reino Unido, em Inglaterra. Este foi o momento em que senti mais saudade de casa e consequentemente comecei a aproximar-me ainda mais às raízes.  Depois, estudei uma área com partes muito ligadas ao cinema, estudei produção de média e fiz um documentário ligado a um diminuta e antiga vila que já não existe, uma pequena aldeia na Serra do Monchique, onde a minha avó paterna cresceu e foi aí que eu comecei a banda sonora do próprio documentário. Fui eu que o fiz e ouvi muita música tradicional, então comecei a me apaixonar realmente pela música tradicional portuguesa.

Ao estar longe, senti essa necessidade e depois com a minha música comecei a tentar combinar tudo o que eu oiço e tudo o que ouvi até aqui, junto com o mais contemporâneo. Não acho que haja uma fórmula ao certo, não é 30% disto ou 40% daquilo. Eu normalmente começo pelas canções, mas eu já tenho uma ideia para onde eu quero ir e que tipo de histórias eu quero contar. Foi assim nos meus dois discos, no primeiro e neste que será lançado, onde eu penso numa narrativa, no conteúdo e na maneira de como vou contar a história.

Tento trazer um pouco disso, do tradicional que algumas canções pedem mais, mas há outras que pedem um bocadinho menos, porém,  há sempre qualquer coisa ou na letra ou  nas expressões portuguesas e mesmo algarvias, com equilíbrio para não ficar muito confuso para as pessoas.

E para além disso, toda a instrumentação é pensada desta forma, mesmo a minha interpretação vocal acaba por ter uns trejeitos aqui ou ali algo que eu tento trazer. Há canções no disco que se notam muito a portugalidade e há outras em que se nota menos, mas quem está atento vai sempre a ouvir Portugal nas canções.

 

JUP: Queria falar também da Tour pelos Clubes Cá da Terra. Percebi que escolheste salas mais pequenas, com um ambiente mais próximo e intimista, e que a ideia é criar uma experiência diferente para quem vai aos concertos. O que é que te atrai neste formato mais reduzido? E de que forma achas que essa proximidade pode transformar o espetáculo, tanto para o público como para ti enquanto artista?

Edmundo Inácio: Acredito que para além do que o público vai sentir e da possibilidade de participar, é o desafio que eu e os músicos teremos em cima do palco.  Vou interpretar vocalmente, mas também vou tocar mais instrumentos que o comum, assim como os outros músicos que estarão comigo.

Apesar de todo o planeamento, há sempre um risco incrível, mas eu acho que isso também aumenta a adrenalina que temos em cima do palco e, para além disso, vamos ter momentos em que o público é muito importante na participação do espetáculo, ao se tornar o terceiro ou quarto músico em cima ou fora do palco.

Há sempre um risco, pois podemos ter uma sorte incrível e sair de lá um músico incrível que estava à espera daquele momento para subir ao palco e participar na canção, como pode ser uma pessoa que gosta muito de música e das minhas canções, mas não tem tanto jeito, então isso será também muito desafiante e divertido. Será um concerto principalmente divertido e interessante, porque este disco também é muito mais alegre, apesar de ter sempre mensagens, umas mais claras, outras um bocadinho mais ocultas durante a narrativa.

 

JUP: Cresceste rodeado de arte, cultura e, sobretudo, de um ambiente familiar que sempre pareceu apoiar muito o teu caminho. De que forma essa base, esse apoio e essa convivência com a arte desde cedo, moldou a tua relação com a música e com a criação? E houve um momento em que percebeste que a música já não era apenas uma possibilidade entre outras, mas algo inevitável para ti? Mesmo depois de teres explorado outras áreas como a produção e o audiovisual?

Edmundo Inácio: Tenho registos desde muito pequenino, tenho gravações do meu avô a pegar-me ao colo e pôr música. Eu reagia a ela, as minhas pernas esticavam e dançavam ao ritmo da música, assim como os meus braços. Foi quando a minha família começou a perceber este interesse. Até porque eu sempre fui uma criança mais tímida, mas era participativo em tudo o que envolvia arte. Era a minha forma de conseguir comunicar, e mesmo atualmente, sinto mais facilidade em escrever e interpretar canções sobre mim, do que chegar ao pé de alguém e dizer-lhe diretamente o que sinto, ou no que estou a pensar. Talvez seja uma proteção para o que eu sinto, deve ser assim que o meu subconsciente trabalha; sempre estive muito ligado à arte em geral.

Já na escola, eu gostava de tudo o que eram artes visuais, ou música. Também já fiz teatro e dança e tinha foco total nisso. Adorava aquilo e queria ter os melhores resultados. Já nas outras cadeiras, trabalhava em equipa e esforçava-me mesmo em coisas que não gostava tanto; sempre fui organizado fazer o suficiente para não ter de repetir a disciplina ou o ano.

Eu deixei o futebol para ir para a música e dedicar-lhe tempo, então comecei a gostar muito. Apesar de ser um ensino clássico, deu-me base e disciplina, mas sempre quis aprender outros instrumentos. Foi em 2009 que participei no meu primeiro programa televisivo e comecei a perceber que sou tímido, mas, em cima do palco, sinto-me bem e consigo estar à frente de muitas pessoas.

Depois, participei noutros programas, até ir novamente ao The Voice, que, por acaso, já tinha desistido, por ser uma área difícil, mas a minha família deu-me aquele empurrão, incentivando-me a tentar outra vez! Fui, mas com dúvidas sobre o que apresentar, pois nos primeiros castings atuei com canções em inglês, que não tinham nada a ver comigo, mas era preciso cantar uma música neste idioma e outra em português. Entretanto, quando fiz a prova cega, interpretei uma canção tradicional portuguesa, à minha maneira, e pude sentir o impacto causado na plateia, nos próprios mentores e no público. Ao assistir a este vídeo, deu-me muito mais vontade de continuar e tive a certeza de que realmente gostava e tinha saudades daquilo. E, então, sinto que a música é a minha prioridade principal, apesar das artes serem todas a minha prioridade.

“E eu quero fazer disto a minha vida.”

 

JUP: Antes de participar do The Voice, já tinhas estado em outros programas e projetos, mas acredito que foi nesse que ganhou mais visibilidade, não é? Pensando nisso, o que mudou em ti a partir dessa experiência? Depois, veio o Festival da Canção, que aconteceu cerca de um ano depois do The Voice. Como essas experiências, uma após a outra, te impactaram? Já mencionaste que foi ali que deu o “clique”, mas houve mais alguma mudança, aprendizado ou insight que essas vivências trouxeram para a sua carreira ou para ti pessoalmente?

Edmundo Inácio: Eu acho que o The Voice me fez perceber o caminho que queria seguir como intérprete e como compositor. Apesar de até aquele momento ainda não ter grandes composições e não me sentir confiante quanto a elas, tínhamos desafios todas as semanas, onde preparávamos a maquete em casa, enviávamos à banda e tínhamos três ou quatro dias para preparar e decorar a canção. Então, este trabalho sob pressão no programa televisivo fez-me escolher sempre o que o meu coração dizia, ou o que quem estava à minha volta dizia que combinava comigo.

Assim, comecei a perceber que este era o caminho que eu queria seguir — o da música tradicional portuguesa, misturada com a música pop ou pop alternativa. Depois, no Festival da Canção, encontrei-me como compositor. Já estava à procura de músicas para o meu disco e A Festa foi o meu primeiro single, que era para ter sido lançado depois do The Voice, mas, durante o processo, quem estava à minha volta e mesmo o produtor da altura disseram “Esta canção é boa para o festival e não vale a pena tentares fazer algo à medida, pois ela já o é.”. Inscrevi-a e pensei que existem centenas ou milhares de canções a serem escritas e “Se entrar muito bem, mas, se não for o caso, seguimos para continuar a fazer o disco.”.

A canção entrou e, depois, senti que estava muito mais competente para compor, apesar de já me sentir muito mais competente como compositor e letrista do que na altura da Festa. As coisas correram bem e o público também gostou. Chegamos à final, ficamos em segundo lugar e isso também, parecendo que não, no prazo de pouco mais de ano, dá-nos uma confiança diferente do que quem está há muito tempo a tentar e as coisas não andam. Desde 2009, que andava ligado a estes programas e fazia música e ainda lancei uns singles que já não existem na Internet, e tudo isto foram vários anos que me fui tentando encontrar e, a partir do momento do The Voice, senti que me encontrei e todos os dias me vou encontrando um bocadinho mais, apesar de sentir que já estou confiante daquilo que quero apresentar e do que eu sou como artista. Claro que daqui a dez anos as coisas podem mudar, mas, pelo menos, já tenho um caminho que sei que gostava de seguir.

 

JUP: E depois há toda a questão do público. Como é que você lida com isso? Costuma estar sempre em contacto com as pessoas que te acompanham? Já percebi que você se descreveu como alguém um pouco mais tímido, então como é que isso funciona para ti? Preferes manter um certo mistério ou acabas por falar com eles? Há trocas, alguma interação? Sentes que estás sempre a ser muito julgado? No geral, como é que é o teu papel com o público?

Edmundo Inácio:                                             “Eu gosto muito de abraçar o público.”

Por exemplo, quando eu dou os concertos, no final, se houver possibilidade pela produção, tento sempre ter alguns minutos com o público. Se forem festivais ou concertos maiores pode ser mais difícil e pode ser cansativo, mas eu gostava de tentar preservar isso de alguma forma, porque o público muitas vezes faz centenas de quilómetros para me ir ver a um concerto específico e queriam conhecer-me, então sinto que tenho esta obrigação, mesmo sem a ter! Mas eu gosto disso e é uma forma de agradecer, apesar de entregar-me sempre em cima do palco e estar com o público, tento sempre ter este momento.

Nas redes sociais, claro que eu tenho a minha vida pessoal também, e tento expor apenas o que eu quero, obviamente, para também continuar a ser uma pessoa para além do artista. Mas eu tento sempre responder às pessoas e interagir com elas, ver o que me estão a mandar. É raro não dar resposta às pessoas, pois estas já perderam aquele tempo para me parabenizar pela música ou dizerem que me ouviram na rádio, então tento sempre acompanhar e neste momento isto ainda é possível.

Talvez um dia seja mais difícil, mas eu tento sempre estar o mais perto das pessoas, até porque eu sinto que a minha música e todas as histórias que eu conto e tudo o que eu me inspiro vêm das pessoas, não só as minhas histórias, mas mesmo o meu primeiro disco é muito inspirado sobre o mundo e o que eu sentia sobre ele e sobre o que as pessoas me davam.

Este disco também traz essas pessoas. Há uma canção que se chama Marcelina, que é mãe de um de um grande amigo meu que eu conheci na faculdade, onde eu conto a história dessa pessoa que eu vejo como um exemplo de mulher que abdicou parte da sua vida para conseguir que o seu filho, neste caso são dois, mas eu falo só de um, consiga ser um pouco mais  do que aquilo que ela conseguiu, ela quer que ele sempre seja e tenha mais, que surjam  mais oportunidades e não sinta ou sofra tanto com a vida como ela sofreu.

Por isso as pessoas estão sempre ligadas e eu gosto de estar presente, por perto e falar com elas.

 

JUP: Queria voltar um pouco ao que você tinha mencionado sobre os teus interesses fora da música. Você falou que gosta de outros tipos de artes. Podes explicar um pouco mais que tipos de artes são esses? E como é que essas áreas influenciam o teu trabalho? Já disseste que as pessoas te inspiram, mas e essas outras formas de arte, como é que elas te influenciam, tanto nas gravações como na tua performance ao vivo no palco?

Edmundo Inácio: Eu inspiro-me dessa forma: eu acho que é um bocadinho de tudo o que é arte e tudo o que a vida tem para mim.

Agora não tenho tanto este hábito, mas uma coisa que eu gostava muito de fazer quando estive em Inglaterra era que, todos os fins de semana, tentava ir a uma galeria e passava uma manhã ou uma tarde numa exposição ou duas e saía sempre muito inspirado de lá.

Ir ao cinema e assistir a séries muito boas cinematograficamente, com boas narrativas, também me inspiram muito. Mas as menos boas também me ajudam imenso, ou aquelas não tão profundas, já que, por exemplo, eu adoro Friends e The Big Bang Theory, que me ajudam de alguma forma a descontrair e a sentir que aquelas pessoas também podiam ser reais.

Para além disso, eu gosto muito de dança, de ginástica e patinagem, que estão no desporto. Aquilo tem para mim meio de desporto e meio de arte, assim como a dança de salão e o teatro também. Eu gosto de, sempre que tenho tempo para me inspirar, ouvir muita música, assistir a muitos documentários e isso de alguma forma inspira-me.

 

JUP: Justamente sobre isso: sobre a arte que mencionaste e a que tu fazes, acreditas que ela tem a responsabilidade de incomodar, de fazer questionar, ou será que o papel dela é simplesmente acolher e trazer conforto? Ou achas que pode ser os dois ao mesmo tempo? Qual é a tua opinião sobre isso?

Edmundo Inácio: Eu acho que tem espaço para tudo e há várias formas de trazer a música ou a arte. Acho que a arte, mas neste caso a música, tem muito poder e impacto nos dias que correm. Tanto no Brasil, quanto em Portugal, por exemplo, na altura das ditaduras, a música era um desafio criativo para quem trazia mensagens e conseguia passar mensagens ao povo.

Também existem canções em que, se o artista escreveu sobre aquilo, e as pessoas também sentem aquilo, demonstram que aquele sentimento é real e, então, sentem-se abraçadas de alguma forma.

Eu acho que há todo o tipo de caminhos na arte, mas abraçar as pessoas é o principal e, depois, ajudar a reviver algumas memórias e não deixar que as pessoas adormeçam nos tempos que correm.

 

JUP: O teu trabalho… não quero que respondas de imediato, mas já alguma vez pensaste em como o resumirias se tivesses de criar a tua própria pergunta sobre ele? Uma pergunta que fosse sobre o teu trabalho, mas que talvez ninguém nunca te tenha feito. É como aquelas ideias que surgem quando estamos a deitar, meio a dormir, e pensamos: “Isto ninguém me perguntou ainda…” — Existe alguma pergunta desse género que gostarias que te fizessem sobre o teu trabalho?

Edmundo Inácio:

Eu só tenho um objetivo que é que não se esqueçam da minha arte, pelo menos todas as mensagens que eu trago; que daqui a cem anos sejam recordadas. Mesmo que não se lembrem de mim como artista, que a mensagem dure.

Preferia que se esquecessem de ti ou da tua arte?

Acho que seria muito por aí, mas eu já tenho essa resposta. Preferia que se esquecessem de mim.

 

JUP: Para terminar, queria fazer só uma última pergunta. Acho que já tocaste um pouco nesse tema, mas agora não estou a falar apenas da tour, falo de forma mais geral. O que é que tu gostarias que as pessoas realmente sentissem ao sair de um dos teus concertos? Não só a música, mas a experiência de estar lá ao vivo. Se pudesses escolher, o que é que querias que elas sentissem ao sair?

Edmundo Inácio: Simplesmente emocionadas.

Que as pessoas fiquem muito felizes ou muito pensativas sobre algo, mas emocionadas de alguma forma; que aquilo que eu estou a fazer em cima do palco chega às pessoas. Até agora, tenho sentido isso com o público e gostava que isso continuasse por toda a minha vida.

 

 

TOUR PELOS CLUBES CÁ DA TERRA

Edmundo Inácio tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais singulares da nova música portuguesa e apresenta agora a “Tour pelos Clubes Cá da Terra”, uma digressão intimista por pequenos espaços. Mais do que um concerto, o espetáculo propõe uma experiência envolvente, onde o artista alterna instrumentos e reinventa as canções ao vivo. Entre música, improviso e momentos teatrais, o palco transforma-se num espaço dinâmico e surpreendente. No final, o público deixa de ser apenas espectador para se tornar parte integrante da experiência.

 

A “Tour pelos Clubes Cá da Terra” passará por:

10 de abril de 2026 – Casa Capitão, Lisboa

17 de abril de 2026 – Maus Hábitos, Porto

18 de abril de 2026 – Texas Club, Leiria

25 de abril de 2026 – Lustre, Braga

9 de maio de 2026 – Bang Club, Torres Vedras

 

Continue Reading
Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *