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Cultura

O filho de mil homens – uma obra-prima de Valter Hugo Mãe

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Que Valter Hugo Mãe é um dos escritores mais influentes e distintos da literatura contemporânea portuguesa, não há dúvidas. O autor tem uma obra vasta e diversificada, com a publicação de romances, poesia e textos para crianças, também com participações em antologias e tendo trabalhado como editor, artista plástico, cantor e compositor. O seu trabalho vem sendo destacado e reconhecido ao longo dos anos e um dos seus livros mais emblemáticos é O filho de mil homens.

Com a sua primeira publicação em 2011 pela Alfaguara e, mais tarde, em 2015 pela Porto Editora, o romance propõe e desenvolve uma reflexão densa e profunda sobre a condição humana, valendo-se de uma escrita poética, mas descomplicada. Valter Hugo Mãe aborda temas como o amor, a solidão, as relações interpessoais e a construção de laços afetivos com uma linguagem cuidada e natural, capaz de traduzir a complexidade emocional das personagens de forma simples.

O livro conta a história de Crisóstomo, um pescador de quarenta anos, que vive sozinho num casebre à beira-mar e sonha com a possibilidade de ter um filho para fazer-lhe companhia. Contudo, como a solidão o acompanha indistintamente, acaba por criar um boneco de pano para tentar minimizar o seu isolamento. Em meio a narrativas cruzadas num verdadeiro efeito borboleta, acaba por conhecer Camilo, um menino órfão que também tem a sua história afetada e moldada pelas ações e julgamentos do grupo social hipócrita e hostil em que esteve inserido.

Além do seu agora filho, Crisóstomo conhece também Isaura, uma mulher marcada por uma vida de renúncias, preconceitos e conflitos familiares, que se vê forçada a celebrar um casamento de conveniência com o jovem Antonino que se encontra na mesma situação, igualmente ferido pelas expectativas e normas impostas pelo meio em que vive.

Embora alguns personagens tenham um protagonismo mais limitado, todos têm um papel essencial na construção da narrativa e no desenvolvimento da trama. O romance desdobra-se a partir de um conjunto de pequenos conflitos, tanto íntimos como sociais, que se acumulam e se intensificam, muitas vezes alheios à vontade individual, mas alimentados pela persistência da intolerância e da incompreensão coletiva.

Em suma, O filho de mil homens estabelece uma conexão simples, natural e imediata com o leitor, que, independentemente de uma história de vida e de um percurso diferente, acaba por criar uma empatia ao identificar-se com uma ou outra característica daqueles personagens de ficção cujas histórias se aproximam de forma impressionante da realidade humana.

 

Adaptação para o streaming

O livro é tão celebrado que, recentemente, a Netflix lançou um filme sobre a obra, no qual as personagens ganharam vida, corpo e rosto, com Rodrigo Santoro no papel de Crisóstomo, Miguel Martines como Camilo, Rebeca Jamir como Isaura e Jhonny Massaro como Antonino.

Com a direção do brasileiro Daniel Rezende, o longa foi filmado na Chapada Diamantina e também em outras localidades do interior da Bahia, assim como em Búzios, no Rio de Janeiro, transportando a narrativa para paisagens que reforçam a dimensão simbólica e emocional da história.

 

Assim, o Filho de Mil homens consegue ultrapassar os limites tanto das páginas dos livros, quanto do ecrã, e afirma-se como uma obra intensa e intimamente humana, principalmente ao desafiar as convenções sociais e expandir a noção e o conceito de pertença, de família e de amor. Neste universo construído por Valter Hugo Mãe, a fragilidade não é considerada uma fraqueza, há possibilidades diversas de encontros e enfatiza que a criação e o fortalecimento dos laços mais verdadeiros nascem, muitas vezes, de uma escolha consciente de cuidar do outro. Essa quebra de padrões preestabelecidos, seja pela leitura do romance, ou ao assistir a sua adaptação para a TV, enriquece a história e convida o público à reflexão e a empatia, tornando-se uma nota bastante delicada ao recordar que ninguém se faz inteiro sozinho.

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