Artigo de Opinião
Sobre Os E-Soluços
Os polos diretamente opostos, perigosamente extremistas e explorados pelos demagogos têm integrado o leque de perigos várias vezes abordados, e muito se diz, mas pouco se condena. Numa era em que o politicamente correto, por vezes, se sobrepõe aos interesses comuns duma maioria, há que reconhecer que nem todos os valores podem coabitar, e são eles os democratas e os radicais.
Atualmente, as redes sociais são um palco macabro para danças cujos compassos desenfreados de malabarismos emocionais a sociedade parece já não conseguir acompanhar.O scroll infinito veio assumir papel de terapeuta para uma sociedade crescentemente deprimida, isolada, fustigada por crises e sufocada por pressões laborais.
E como qualquer medicação, também esta se faz acompanhar de uma mudança no estilo de vida rigorosa, nest caso constituída por soluços emocionais a cada 20 segundos, e apesar do método ser estranho, talvez haja alguma guru que possa vender isto como uma forma revolucionária da terapia moderna.
Primeiramente, aquando da contração involuntária e súbita do diafragma, dever-se-á consumir um conteúdo vazio, mas engraçado, cujos efeitos secundários — e agora em letras pequeninas para uma sociedade hipermetrope —, que poderão passar por danos no campo cefálico.
Quando ainda não tiver processado o que acabou de ver, dever-se-á passar ao vídeo seguinte, passando à segunda parte do soluço — o fechar rápido da glote —, agora algo terrível e que provoque uma avalanche de desespero, medo e, idealmente, a perda de esperança. Finalmente, quando estiver pronto para libertar o soluço, o cérebro fará uma espécie de reset e o processo repetir-se-á por mais uns míseros, apáticos e inconscientes minutos.
Os e-Soluços São Como um Surto no Respirar?
Se os efeitos secundários —e agora a lista mais extensa: apatia, deslocação emocional, incapacidade de interação social, ansiedade, desilusão com o real, comparação e ilusão utópica — forem realmente desejados, pode aplicar-se um rácio de tempos/intensidade, ou seja, se o indivíduo passar algumas horas neste ciclo terapêutico, os efeitos acima mencionados poder-se-ão revelar mais rápido.
Neste ponto talvez seja indicado informar que os efeitos não são realmente secundários, mas sim primários, só não auxilia os investimentos de marketing milionários feitos pelas empresas detentoras de redes sociais. E já que se aborda a questão da falsa propaganda, o próprio nome é pura manipulação, qual é parte social disto? Ou estarei a olhar mal para a questão e a palavra importante é rede?
Talvez seja mesmo a segunda, e afinal somos meros peixinhos acéfalos, e parte dum cardume cujo líder todos seguimos, mas que ninguém conhece. Zuckerberg “acabou” de propor uma nova leitura à passagem bíblica na qual Jesus disse “Venham comigo e eu vos farei pescadores de homens” (Mateus 4:19).
Nalgum momento, qualquer integrante digno do cardume, da rede, aceitou que os sentimentos só seriam válidos se acompanhados de um texto longo, lamechas e facilmente ignorado no Instagram, uma relação só se tornaria oficial se uma fotografia fosse publicada, e a confiança só poderia ser conquistada se as interações com o último post assim o permitisse.
MY FACE-FAKE-BOOK
Qualquer bom e digno integrante do cardume nada em conformidade com o movimento da rede, porque nela não há espaço para a oposição, nem tão pouco para a tomada de uma posição. Go with the flow, go with the scroll, deixo a minha proposta para uma eventual candidatura de Mark Zuckerberg a um cargo presidencial que talvez não seja muito aconselhável a que este se candidate.
E, convenhamos, se isto é tão bom, deixemos as crianças serem felizes, não as proibamos de encontrar este caminho dourado para a felicidade: senhores diretores, não proíbam os telemóveis na escola, não façam isso que estão a travar o bullying, o isolamento social, a prematuridade.
Não proíbam, não vale a pena, os vossos esforços são muito nobres, mas quando chegar a casa a pobre da criança terá passado a hora de deslocação a ver vídeos “acéfalos” no TikTok e, se fizer os trabalhos de casa, será recompensada com mais uma hora de visualização de conteúdo que ninguém compreende antes de ir para cama.
Neste acumular de 3 horas simpáticas de consumo desregulado e exposição a luzes azuis, a criança terá a enorme felicidade de estar fechada, apática, irracional, vegetal, e com acesso interrompido a tudo aquilo que maioria dos adultos proibiria ou condenaria na vida real.
Cultura Livre?
Para adolescentes, com um acesso a uma quantidade mais vasta e sinistra de conteúdos e tempo verdadeiramente descontrolado a consumi-los, poderemos esperar uma simples prematuridade, sentimentos de rejeição e exclusão, insatisfação geral, idolatria de figuras bastantes dúbias, adoção de ideologias radicais e a possível violência de quem não conhecemos, mas que sabemos existir. Nestas horas, a exposição aos riscos é maior, tem mais variantes, mas é “mais fácil assim”: e não são estas as palavras do declínio?
No final, a relação viciada entre a propaganda por via do uso, a descontextualização do conteúdo, o livre acesso, a libertinagem, o isolamento, a pornografia emocional- a estranha, vil, viciante e violenta necessidade de consumir emoções sem nos permitirmos a senti-las-, é nestas linhas que se descreve o sucesso para o Declínio. E em última nota, é natural o soluço de qualquer peixe quando o retiramos da água, não temam.
Texto da Autoria de Mariana Melo