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Crónica

Canal 2026: Não há Comando Para Isto

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Canal 2026. charge traz o presidente dos EUA
Com 50 euros a mais conseguimos, por exemplo, um saco de compras ligeiramente menos vazio. Ou dois cafés por semana sem culpa. Talvez até o upgrade de “bolo seco” para “pastel de nata” em dias de festa | Imagem: Gerada por IA

O novo ano ainda mal tirou o pijama e já parece um extrato bancário esquecido na caixa do correio. Números a vermelho, linhas miudinhas e a sensação de que alguém andou a mexer nas condições sem avisar. Em Portugal, o salário mínimo sobe para 50 euros, as rendas continuam num campeonato à parte e, a partir de abril, começamos a despejar garrafas em contentores inteligentes à caça a vouchers.

Entretanto, lá fora, há presidentes a descrever operações militares como quem comenta um reality show, países a recusar ser comprados “pela maneira fácil ou pela difícil”, regimes que resolvem protestos desligando o Wi-Fi e uma guerra na Europa que muitos já empurraram para fora do feed, mas que não saiu dos ossos de quem lá está. Ano novo, sim. Mundo novo ainda não chegou, mas a cada novo canal…

Salário Mínimo, Expectativas Elevadas

Há quem comece o ano com doze passas. Outros começam com doze abas de Excel abertas e a mesma pergunta antiga: “dá para chegar ao fim do mês… ou só até ao dia 17?”.

Em 2026, o país acordou com a boa nova: o salário mínimo sobe 50 euros. Cinquenta. Metade de uma nota daquelas que aparecem nas apresentações de PowerPoint sobre “valorização do trabalho”.

É aqui que entra a matemática criativa. Com 50 euros a mais conseguimos, por exemplo, um saco de compras ligeiramente menos vazio. Ou dois cafés por semana sem culpa. Talvez até o upgrade de “bolo seco” para “pastel de nata” em dias de festa.

No entanto, do outro lado da balança, a renda não aumentou em 50 euros. Aumentou uma realidade paralela inteira. Há quartos em Lisboa que olham para o novo salário mínimo e riem-se, como quem recebe um convite para um casamento e responde: “adorava ir, mas não dá, estou acima das suas possibilidades”.

Quando ouvimos que estamos “a convergir com a Europa”, imaginamos um mundo nórdico. Toda a gente anda de bicicleta por opção e tem aquecimento por direito adquirido. Depois abrimos o talão do supermercado e percebemos outra coisa. A única convergência garantida é a dos preços. Esses apanharam o voo low-cost para norte há muito tempo. O salário mínimo, esse, ainda vai a pé, a ver se apanha uma boleia.

Canal 2026: Garrafas, Vouchers e Outras esmolas Sofisticadas

Se o ordenado não chega, não faz mal. A partir de abril, entra em cena a versão 2.0 da moedinha no carrinho do supermercado.

Cada garrafa e cada lata de bebida passam a vir com um depósito extra, pago à cabeça. Esse valor só volta se formos bonzinhos e as despejarmos no contêiner certo. Em troca, ganhamos um voucher, um saldo, um pequeno abraço digital da economia circular.

Do ponto de vista ambiental, faz todo o sentido — e ainda bem. No entanto, é impossível evitar ver nisto uma metáfora perfeita do nosso tempo. Pagamos mais agora, na esperança de que um dia alguém nos devolva qualquer coisa… se cumprirmos todas as regras, claro.

Assim, abastecer a arca antes do tsunami passa por guardar não só enlatados. Passa também por pontos, milhas, saldo em apps e talões que prometem “desconto na próxima”. A próxima nunca mais chega. A fatura, essa, tem pontualidade britânica.

Trump TV: Season 2026

Enquanto contamos cêntimos nos vouchers, há quem conte audiências em guerras. Donald Trump descreveu a captura de Nicolás Maduro na Venezuela “como se estivesse a ver um programa de televisão”: rápido, violento, emocionante. Palavras dele, não do guionista.

É o século XXI em todo o seu esplendor. Operações militares são explicadas em tom de review de episódio, com spoilers incluídos.

Alguns dias depois, Trump comenta o “pós-Maduro” como quem muda de canal. Fala de Cuba e de vizinhos que “também cairão”. Quase parece um alinhamento de temporada: primeiro isto, depois aquilo, logo a seguir “o próximo ditador que sai da casa”.

Cá de longe, nós escolhemos o emoji. Palmas, fogo, cara de choque. Ou simplesmente scroll para baixo, que amanhã há mais. Dito e feito.

Como se não bastasse, o enredo ganhou um spin-off surreal. María Corina Machado, Nobel da Paz de 2025 pela luta democrática contra o regime venezuelano, atravessa meio mundo e aparece na Casa Branca com a sua medalha. Entrega-a a Trump, num gesto de agradecimento pela ajuda americana na queda de Maduro. O Instituto Nobel, lá de Oslo, teve de recordar o básico: a medalha pode mudar de mãos, o prémio não.

Há qualquer coisa de muito 2026 nesta imagem. Um Presidente que sempre quis um Nobel. Uma laureada que lhe leva o seu. Um comitê a explicar que não funciona assim. E um planeta a tentar decidir se isto é diplomacia, marketing político ou apenas uma anedota contada demasiado a sério.

É como se a paz tivesse passado a ter opção take-away: “não entregamos em casa, mas pode levar já esta, se fizer jeito para a foto”.

Gronelândia Sem Preço de Mercado

Mudamos de episódio, mas ficamos no mesmo canal. Depois da Venezuela, regressa à velha fixação com a Gronelândia. Trump volta a falar em “possuir” a ilha, de maneira fácil ou difícil, como quem discute um condomínio com vista para gelo estratégico e minerais raros.

Do lado de lá, os groenlandeses respondem em coro: não, obrigado. Preferimos continuar a ser só… groenlandeses.

É difícil não ver nisto um anúncio falhado do OLX geopolítico: “vende-se ilha grande, com muito potencial, poucas obras, aceita-se proposta”. O problema é que há gente lá dentro, com língua, cultura e voto.

Além disso, a Europa, que nunca tinha pensado seriamente em mandar tropas para a Gronelândia, vê-se agora a estudar planos para defender um pedaço de Dinamarca de um aliado da NATO. Se isto não é argumento de série, alguém está a desperdiçar material.

Irão Em Modo Avião

Se na Gronelândia a luta é por não ser comprada, no Irão é por simplesmente existir online. Perante protestos contra a crise económica e a repressão, o regime decidiu fazer aquilo que qualquer adulto manda as crianças fazerem quando há confusão a mais: “desliga isso já”. Só que, em vez de desligar a televisão da sala, praticamente desligou a internet de um país inteiro.

O mundo acorda com relatos de mortes, centenas de detidos, famílias na diáspora sem notícias dos seus e um silêncio digital que grita mais alto do que muitas conferências de imprensa. As pessoas tentam furar o bloqueio, deixando mensagens nos comentários de vídeos que nada têm a ver com política, como quem enfia bilhetes de socorro em frascos e os manda para o mar do algoritmo.

Aqui, o humor abranda. Há uma violência muito concreta em cortar o Wi-Fi a 85 milhões de pessoas e chamar a isso “medida de segurança”. No século em que vivemos, desligar um país é tão simples como pressionar num botão — voltar a ligá-lo é que raramente vem com “aceitar todos os cookies”.

A Guerra Que Saiu do Feed, Mas Não Saiu Dos Ossos

Entretanto, continua uma guerra que já não cabe na paciência do algoritmo: a da Ucrânia. São quase doze anos de conflito e quatro de invasão em larga escala. Chegamos a um inverno em que as notícias já nem falam tanto de fronteiras, mas de centrais elétricas destruídas, cidades às escuras e milhões tentando aquecer-se com geradores, velas e esperança racionada.

Para quem está de fora, a guerra tornou-se um background noise, um zumbido distante por trás das notificações do dia. Para quem está lá, é o contrário: é o som principal, e tudo o resto é que fica em surdina.

Quando os mísseis vão ter à rede elétrica, não é só um país que fica sem luz. É uma parte do nosso século que se revela em versão crua: ainda somos capazes disto.

E Nós, Aqui no Meio, Perdidos Entre

Por fim, voltamos a Portugal. Onde começámos, com 50 euros a mais no salário mínimo, garrafas a acumular na varanda à espera de abril, promessas de depósitos devolvidos, novas tabelas da luz e do telemóvel a caminho. Abrimos o telejornal e tentamos fazer zapping entre realidades: salário, economia, o ex-presidente em modo comentador de reality show, uma medalha de Nobel em trânsito, a Gronelândia a dizer “não estamos à venda”, o Irão em modo avião e a Ucrânia em modo resistência teimosa face aos russos.

Às vezes, desejamos que alguém nos acorde e diga que isto era só uma maratona de episódios de mau gosto. Que o mundo não está mesmo a ser gerido como prime time. Mas depois olhamos para o talão do supermercado, para o débito direto da renda, para a notícia de mais um ataque algures no mapa. E percebemos que não é série nenhuma. Somos elenco principal, mesmo que nos sintamos figurantes.

Os poetas sempre viram o fim do mundo em tudo. Talvez, em 2026, continuassem a ver o mesmo — só acrescentavam uns quantos cliques, umas notificações e um scroll nervoso antes de escrever. Nós, que ainda estamos a aprender a viver entre o extrato do banco e o mapa-mundo, talvez possamos fazer outra coisa: rir quando dá, chorar quando é preciso, e recusar, com teimosia, que a realidade seja apenas o reality show de alguém.

 

Texto da Autoria de Joana Neves

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