Artigo de Opinião
Reflexões ao Fiel Leitor – II
Em resultado de mais uma presença no evento “Noites de Poesia” do Pórtico FMUP, resolvo continuar a série de crónicas que tive o privilégio de começar há cerca de um mês. Se na minha última errância discorri sobre caras, desconcertos, ou mesmo poemas e colisões semânticas, hoje escolho abordar as enigmáticas peripécias das praias, rochedos e marés do Norte português.
Julgará o Fiel Leitor que o narrador, num exercício deambulatório, terá decidido dissertar sobre a complexa (e certamente interessante) realidade da fauna diversa que habita as imediações das dunas nortenhas, quiçá sujeita a ventos intensos, grãos de areia acutilantes e cíclicos mares ao ritmo da lua. Com alguma pena minha, a fauna que hoje descrevo são mesmo pessoas. Uma pequena sequência de personagens, feita de recomeços, questões por responder e passagens de testemunho, moldada pelos ambientes praianos que em criança presenciei.
Numa tarde qualquer, de um dia igual a muitos outros, havia, entre guarda-sóis e conversas desencontradas, uma criança. Seus pais, enquanto se encostavam costas com costas, olhavam o menino a correr pelo areal molhado típico de maré baixa, enquanto sorria com os dentinhos desalinhados e com algumas janelas entre eles, e olhava o modesto rochedo que se sobrepunha aos restantes no ambiente. O pai, também ele filho de praias nortenhas narradas ao ouvido, observava, enquanto a sua amada relia “A Repetição” de Kierkegaard, o movimento cíclico das ondas.
Pensava com os seus botões, o quanto o mundo já não era o do seu tempo. O quanto a bela praia que sua mãe enaltecia (no tempo em que visitavam a casa dos tios nos belos montes de Riba de Âncora) se tinha dado às núpcias pouco salubres do bicho Homem com a natureza, levando consigo o volumoso rochedo alto que com ele brincava nas tardes em que seu pai já não podia com as canetas, a poça em que exercitava as suas capacidades ferozes apanhando camarões pequenos e graúdos ou mesmo o moço das “bolinhas” cremosas que, independentemente do bolso, os pais faziam questão de adquirir.
Sua mulher, longe das origens interiores, admira, num silêncio partilhado com o ambiente, seu amado e seu filho (ao longe), as folhas do pequeno livro de bolso, de palavras que espelham os seus dias. Ela, dama dada aos campos de fruto, aos bancos amadeirados no centro da vila, aos passeios calcetados desenhados à moda da língua, frequentemente passava as férias, também elas com modéstia, nas praias fluviais rentes à sua casa, acompanhada pela densa flora e fauna que desde pequena a viram crescer. E, tal salpico de onda, corre sal dos seus olhos. Sabe, Fiel Leitor, é que o mar era rio, e a areia terra, e a árvore arvoredo, e a brisa ventosa e os filhos são pais, e os pais não estão mais. A dama vê a vida no passado e o passado no presente.
E o filho, também ele sentirá todas estas dores e outras mais. As boas e as más. Porque entre a recordação e o recomeço, entre os que dão e os que recebem o testemunho da vida, existe o silêncio e a delicadeza de uma linha que se liga nos momentos incertos. Também o filho recordará a rocha, agora desgastada e submersa em camadas de areia que outros filhos e pais terão pisado, assim como o olhar terno dos seus pais. Recordará o braço da mãe, que, enquanto lia e recomeçava a sua vida, acariciava o começo da sua nos cabelos calorosamente dispostos na sua pequena cabeça. Recordará o sorriso do pai, que nostalgicamente relembrava aqueles que dele fizeram gente, enquanto se admirava a si, nos passos gentis, alegres e inocentes da criança que deu ao mundo. E só então renascerá, recomeçará a sua vida numa tarde qualquer, no dia em que, igual a muitos outros, voltar com a amada (ou amado) à praia onde foi menino. E no dia a seguir, e assim por diante.
“Repetição e recordação são o mesmo movimento, apenas em sentidos opostos: o que se recorda foi, e repete-se para trás; a verdadeira repetição recorda-se para a frente.”— Kierkegaard
Miguel Rodrigues – 22/10/2026