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Artigo de Opinião

O problema não é o ator pornô. É quem pode falar sobre saúde na internet

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Candidato a Deputado Guilherme Cortez e influenciador digital Gabriel Coimbra lançam video de collab no X.
Reduzir Gabriel Coimbra à expressão “ator pornô” é, paradoxalmente, compreender muito pouco sobre o próprio trabalho que ele realiza na internet | Imagem de reprodução no X.

Um candidato a deputado, um criador de conteúdo adulto e um medicamento contra o HIV. Parece o começo de uma piada ruim. É, na verdade, um coquetel de três elementos bastante e-contemporâneos: política, influência digital e a transformação da intimidade em produto.

Na última sexta, 2 de outubro, uma colaboração entre o candidato a deputado federal Guilherme Cortez (@guilhermecortez_) e o criador de conteúdo Gabriel Coimbra (@ogabrielcoimbraofc) colocou em circulação um vídeo sobre o lenacapavir, medicamento utilizado na prevenção do HIV. A publicação rapidamente encontrou aquilo que a internet sabe produzir com alguma eficiência: a controvérsia.

Parte das críticas não se concentrou no medicamento. Tampouco na informação apresentada. O alvo foi o mensageiro. Lenacapavir: Entenda o novo tratamento para prevenir o HIV.

Gabriel Coimbra é conhecido por produzir conteúdo adulto. E bastou isso para que uma parcela da reação reduzisse sua presença na campanha à expressão “ator pornô”. Como se a profissão de alguém determinasse, de uma vez por todas, os assuntos sobre os quais essa pessoa poderia falar.

Mas talvez a pergunta mais interessante seja justamente esta:

o que esperamos de um influenciador quando ele deixa de vender apenas a si próprio e passa a participar da circulação de informações de interesse público?

A resposta não é simples. E talvez seja justamente por isso que Gabriel Coimbra seja um personagem tão interessante para pensar o problema.

Ator pornô: é uma diferença importante

Minha dissertação de mestrado investigou homens criadores de conteúdo adulto voltado ao público gay e a forma como eles utilizam plataformas digitais para construir, gerir e monetizar suas identidades. O estudo não procurou medir quanto uma publicação específica vendeu ou quantas pessoas assinaram determinada plataforma. O que me interessava era observar a arquitetura comunicacional: como a atenção é produzida, organizada e direcionada entre diferentes plataformas até chegar aos ambientes de monetização.

No caso de Gabriel, encontrei algo que ajuda a compreender a discussão atual. Sua pornografia não esgota sua identidade digital.

Seu Instagram, observado durante a pesquisa, é construído também a partir de viagens, academia, moda, restaurantes, publicidade, humor, cotidiano e relações com os seguidores. A produção de conteúdo adulto aparece como uma das dimensões de uma marca pessoal mais ampla.

Há uma tendência de imaginar o influenciador como aquilo que ele vende. Mas talvez seja mais correto dizer que, no capitalismo das plataformas, o influenciador vende a capacidade de ser reconhecido.

O corpo é parte disso. A intimidade também. O cotidiano. A opinião. O humor. A sexualidade. A viagem para a Europa. O café da manhã. A academia. O namorado. A família. A roupa. O anúncio de uma marca. Tudo pode participar da mesma arquitetura.

Chamemos isso de ciberidentidade (MOTTA, 2024).

O termo parece complicado, mas a ideia é bastante simples: aquilo que somos na internet não é apenas um reflexo automático de quem somos fora dela. É uma identidade continuamente administrada, apresentada, negociada e adaptada às diferentes plataformas.

E, quando essa identidade passa a gerar dinheiro, ela também se transforma em ativo econômico.

É aqui que entra a chamada economia da atenção.

Vivemos cercados de informação, mas não temos atenção infinita. Pelo contrário. Quanto mais conteúdo existe, mais disputada se torna a capacidade de fazer alguém parar, olhar, clicar, comentar ou compartilhar.

O influenciador profissional trabalha justamente nesse intervalo

Ele não precisa necessariamente ser o maior especialista sobre determinado assunto. Precisa possuir alguma coisa que as plataformas transformaram em moeda: atenção.

Isso ajuda a entender por que empresas, políticos e instituições procuram criadores digitais para falar com públicos específicos. A mensagem pode ser tecnicamente igual àquela publicada num cartaz institucional. O que muda é quem a entrega.

A publicidade descobriu há algum tempo que uma mensagem dita por uma pessoa que acompanhamos diariamente pode parecer menos publicidade e mais conversa.

É uma proximidade construída.

E, justamente por isso, também existe responsabilidade.

Não basta ter milhões de seguidores para ser autoridade sobre qualquer assunto. Uma pessoa que influencia comportamentos precisa reconhecer os limites da própria expertise, diferenciar opinião de informação e deixar claro quando existe uma relação comercial.

Mas existe uma segunda questão, igualmente importante: precisamos separar a responsabilidade sobre o conteúdo da nossa moralização sobre quem o produz.

É possível discutir se um influenciador está preparado para falar sobre um medicamento sem transformar sua sexualidade em argumento contra sua participação. Uma coisa é questionar a informação. Outra é desqualificar o emissor porque ele trabalha com pornografia.

A diferença parece pequena. Não é!

O próprio medicamento em questão ajuda a demonstrar por quê. Em janeiro deste ano, a Anvisa publicou a inclusão do lenacapavir entre as indicações de profilaxia pré-exposição ao HIV-1 para adultos e adolescentes acima de 12 anos e com pelo menos 35 kg. A discussão, portanto, pertence ao campo da saúde pública, da prevenção e do acesso à informação.

O que a profissão de Gabriel tem a ver com isso?

Talvez mais do que gostaríamos de admitir.

A prevenção do HIV sempre esteve atravessada por sexualidade. E a sexualidade sempre esteve atravessada por moralidade. Quando um homem que produz conteúdo sexual fala sobre prevenção sexual, o desconforto de parte do público pode revelar menos sobre sua capacidade de comunicação do que sobre a dificuldade social de separar sexo de vergonha.

Criador de conteúdo adulto: uma ironia ainda maior

A internet transformou a intimidade em uma das maiores indústrias culturais do nosso tempo.

Kim Kardashian é talvez o exemplo mais conhecido. Em 2007, a circulação comercial de um vídeo íntimo produzido anos antes com Ray J tornou-se um episódio decisivo para sua exposição pública. Meses depois, estreava Keeping Up with the Kardashians, transformando a vida privada da família em entretenimento seriado.

O que aconteceu depois é conhecido: a família Kardashian-Jenner transformou cotidiano, relacionamentos, conflitos, corpos, maternidade, moda e negócios em uma gigantesca máquina de produção de atenção.

A intimidade deixou de ser apenas aquilo que acontece longe das câmeras.

Passou a ser conteúdo.

E conteúdo, na internet, pode ser produto.

Não precisamos olhar para Hollywood para perceber isso. Basta abrir o Instagram.

A influenciadora publica o almoço. Depois a viagem. Depois o filho. Depois o treino. Depois o relacionamento. Depois a publicidade. O que parece uma sequência desorganizada de acontecimentos cotidianos é, muitas vezes, uma narrativa contínua de marca pessoal.

Foi justamente isso que encontrei na análise de Gabriel Coimbra.

Sua principal mercadoria não aparece necessariamente como um objeto específico. Ela está na capacidade de mobilizar atenção, reconhecimento e autenticidade em diferentes mercados. A pornografia é uma dimensão dessa identidade; não a sua totalidade.

E então chegamos a Virgínia Fonseca

A recente controvérsia envolvendo a influenciadora e as apostas esportivas tornou mais evidente outra face da mesma questão: quando a intimidade e a confiança se tornam ativos econômicos, o público também precisa saber onde termina a experiência pessoal e começa a publicidade.

Em 2025, Virgínia foi convocada à CPI das Bets. Reportagem da Folha de São Paulo (BR) à época destacou contratos de publicidade e um modelo de remuneração relacionado às perdas dos apostadores, além das discussões sobre a transparência das publicações patrocinadas. Em 2026, o tema ganhou nova dimensão jurídica com uma ação do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios relacionada a uma publicação sobre apostas, na qual o órgão apontou que a apresentação simulava uma comunicação pessoal espontânea.

É aqui que a discussão sobre responsabilidade se torna realmente interessante.

Não se trata de perguntar se influenciadores são bons ou ruins. Tampouco de decidir quem merece ou não merece falar. Trata-se de compreender que eles ocupam uma posição comunicacional diferente daquela de uma pessoa anônima.

O influenciador profissional é, ao mesmo tempo, indivíduo, mídia, marca e trabalhador.

A plataforma é o lugar onde essas quatro coisas se misturam

É isso que a plataformização faz: reorganiza atividades sociais, culturais e econômicas a partir de infraestruturas digitais que distribuem visibilidade, organizam relações e capturam dados. O criador parece administrar sozinho a própria carreira, mas depende de algoritmos, métricas, regras e mudanças permanentes das plataformas.

No caso do conteúdo adulto, essa contradição fica ainda mais evidente.

O Instagram pode funcionar como vitrine. O X como espaço de circulação. O Telegram como canal de relacionamento. O OnlyFans como ambiente de monetização. O produto atravessa plataformas. E o que atravessa todas elas é a identidade.

Por isso, reduzir Gabriel Coimbra à expressão “ator pornô” é, paradoxalmente, compreender muito pouco sobre o próprio trabalho que ele realiza na internet.

Mas dizer isso não significa conceder a ele uma autoridade automática sobre saúde, HIV ou medicamentos.

A questão não é essa

A questão é reconhecer que autoridade digital não funciona mais exclusivamente pela lógica tradicional da expertise. Ela também é construída pela familiaridade, pelo reconhecimento, pela presença constante e pela capacidade de fazer uma audiência prestar atenção.

Isso cria uma responsabilidade nova.

Para o influenciador, significa entender que a confiança construída ao longo de milhares de interações não pode ser tratada como uma licença para falar qualquer coisa.

Para marcas, instituições e políticos, significa compreender que escolher uma pessoa para transmitir uma mensagem não é apenas escolher um rosto. É escolher uma identidade, uma audiência e uma relação de confiança.

E para nós, espectadores, talvez reste a tarefa mais difícil: aprender a separar a pessoa da mensagem.

O corpo que vende desejo também pode vender publicidade. O influenciador que vende intimidade também pode divulgar informação. A pessoa que produz pornografia pode falar sobre saúde. A celebridade que compartilha a própria rotina pode vender cosméticos. A mãe que mostra os filhos pode anunciar uma marca. O político pode aprender a falar como criador de conteúdo.

A internet dissolveu essas fronteiras.

Nós é que continuamos tentando reconstruí-las.

Talvez seja por isso que o incômodo provocado pela colaboração entre Guilherme Cortez e Gabriel Coimbra diga menos sobre pornografia do que parece.

Ele revela uma dificuldade maior: aceitar que, na economia da atenção, autoridade e identidade já não cabem nas profissões que aprendemos a reconhecer.

O problema não é o ator pornô falar sobre HIV. O problema é imaginarmos que, porque conhecemos uma parte da intimidade de alguém, conhecemos tudo aquilo que essa pessoa pode ser. Na sociedade das plataformas, talvez essa seja justamente a maior armadilha da ciberidentidade: transformar uma pessoa inteira em uma única coisa.

E a internet, convenhamos, já tem coisas demais fazendo exatamente isso conosco.

 

Texto da autoria de Ícaro Machado