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Ciência e Saúde

O Paradoxo Verde – crescimento florestal e perda de resiliência ecológica

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Em muitas regiões do mundo, as florestas apresentam aumentos nas taxas de crescimento. No entanto, existe cada vez mais preocupação sobre a estabilidade a longo prazo destas “florestas modernas”.

Mudanças florestais sob pressões ambientais modernas

Recentemente, uma análise global publicada na Nature Plants, onde foram analisadas mais de 31 000 espécies de plantas, indicou que florestas à escala global estão a sofrer alterações na sua composição funcional, com um aumento da abundância relativa de espécies arbóreas de crescimento rápido, tipicamente associadas a maior tolerância à perturbação. Em paralelo, observa-se uma contração da distribuição de espécies de crescimento lento, geralmente caracterizadas por elevada densidade da madeira, maior longevidade e interações ecológicas mais especializadas. Estas espécies são fulcrais para o armazenamento de carbono a longo prazo, regulação de microclimas e para o suporte de redes ecológicas complexas com fungos, fauna e outros microrganismos, desempenhando assim um papel estrutural na manutenção do funcionamento dos ecossistemas florestais.

À medida que a sua abundância diminui, os ecossistemas tornam-se, progressivamente, mais homogéneos, sistemas biologicamente mais simples, compostos por espécies de crescimento rápido, frequentemente associadas, em muitos contextos, a maior vulnerabilidade a fenómenos como secas, surtos patogénicos e perturbações ambientais. Estas alterações, em conjunto com mudanças climáticas, podem criar condições favoráveis ao estabelecimento de espécies não nativas, algumas das quais podem tornar-se invasoras. Regimes de perturbação frequente – como a exploração florestal intensiva e alterações do uso do solo – tendem a selecionar organismos com estratégias de vida caracterizadas pela colonização rápida e elevada plasticidade ecológica (espécies generalistas), em detrimento de espécies associadas a maior longevidade e integração em redes ecológicas complexas (espécies especialistas).

A analogia subterrânea

Por baixo das florestas, redes fúngicas constituem um sistema funcional análogo. Redes de micorrizas desenvolvem-se ao longo de grandes escalas temporais, estabelecendo associações simbióticas persistentes com as raízes das plantas, mediando, assim, a transferência de carbono e nutrientes no solo através de redes micorrízicas. A sua contribuição não se traduz em crescimento visível imediato, mas sim na promoção da continuidade ecológica e na manutenção da estabilidade a longo prazo, particularmente sob flutuações ambientais. Comummente, a resiliência destes sistemas vivos está associada à complexidade e à persistência destas relações interespecíficas subterrâneas. Em contextos de elevado turnover florestal ou de perturbação frequente, o tempo disponível para o estabelecimento destas redes pode ser menor, podendo reduzir a diversidade específica das comunidades locais.

Através deste prisma, é possível enquadrar esta temática de forma mais ampla. Quando pressões seletivas, frequentemente antropogénicas, favorecem consistentemente output rápido, sistemas complexos, onde microbiomas sustentam o seu funcionamento através da diversidade, redundância funcional e relações interespecíficas, podem manter níveis de produtividade aparentes, enquanto perdem gradualmente complexidade estrutural. As consequências podem emergir sob condições de stress ambiental acrescido, aumentando a suscetibilidade destes sistemas a transições repentinas que podem colocar em causa a sua viabilidade.

À luz destes processos, torna-se imperativo repensar não apenas a gestão florestal e o ordenamento do território, como também os critérios pelos quais definimos “saúde de ecossistemas”.

Artigo redigido por Gil Sampaio. Revisto por Joana Ribeiro da Silva.

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