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Cultura

SINFONIA DOMÉSTICA: 24 HORAS DA VIDA DE STRAUSS COM A FAMÍLIA

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Houve mais um «concerto comentado» na Casa da Música. Desta vez, a Orquestra Sinfónica do Porto, dirigida por Baldur Brönnimann, tocou a Sinfonia Doméstica de Richard Strauss. Composta no início do século XX, a sinfonia retrata, tal como “o [seu] título curioso e invulgar” indicia, a vida quotidiana de Strauss em casado.

Seja pelo ambiente “domingueiro” do concerto ou pelo teor clássico da obra interpretada (talvez por ambas as razões), a sala Guilhermina Suggia foi preenchida por um público de um leque de idades com lacunas: por um lado, compôs-se, na sua grande maioria, por um grupo de idades mais avançado; por outro, também incluiu crianças, usualmente “arrastadas” para os “momentos culturais domingueiros”. De qualquer modo, a maior parte das caras aparentava estar com vontade de sentir um dia de Strauss passado com a sua mulher, Pauline de Ahne, e o seu infante, Franz Strauss.

A Orquestra Sinfónica do Porto, representada por 102 instrumentistas, abrangeu as típicas alas das cordas, sopros e percussão. Por oposição ao caráter refinado tendencialmente atribuído aos concertos de música clássica, os sinfonistas estavam vestidos de tons coloridos, assemelhando-se, no seu conjunto, a uma maré viva e alegre.

Fotografia: Nina Muschketat.

Fotografia: Nina Muschketat.

O concerto foi introduzido por um comentário detalhado da autoria de Daniel Moreira, um jovem compositor portuense de um vasto currículo musical. Por meio de uma visita guiada pela sinfonia, Daniel Moreira contou-nos a história retratada pela música de Strauss, proporcionando uma experiência auditiva muito mais rica.

Segundo Moreira, a Sinfonia Doméstica é uma “música programática”, pois baseia-se num “tema banal” extramusical – o quotidiano do compositor. Esta banalidade foi muito criticada, mas, de acordo com as palavras do portuense, Strauss argumentava, no seu tempo, que “o casamento é o acontecimento da vida mais sério” e ter um filho é algo “grandioso”.

Composta por quatro andamentos sem interrupções, a sinfonia espelha as personalidades dos três membros e as suas oscilações ao longo do dia. Os vários estados sentimentais são enfatizados por instrumentos protagonistas. A título de exemplo, se o marido (o próprio Strauss) estivesse descontraído e bem-disposto ouviam-se os fagotes e violoncelos; se a mulher (Pauline) estivesse furiosa e agitada predominavam os violinos; e se o filho estivesse brincalhão sobressaíam os oboés. As melodias características de cada membro familiar iam-se sobrepondo, percorrendo o dia em conjunto.

Ao longo dos 45 minutos de concerto, a peça presenteou-nos com várias alturas específicas do dia, tais como cenários românticos entre marido e mulher, brincadeiras ligeiras do pequeno Franz, zangas entre mãe e filho por estar na “hora de fazer ó-ó”, ou mesmo o anoitecer musicalizado por uma orquestração mais sombria.

Guiada pelos gestos ondulantes do maestro, a orquestra alternou entre os agudos e graves, os fortes e pianos, os allegros e adagios. O oscilar da intensidade e da dinâmica na sinfonia levou a plateia a um constante divagar: quer no dia de Strauss assim retratado, quer no quotidiano de cada um (mais rapidamente no último talvez, dada a já conhecida facilidade que temos em fazer a mente girar à volta dos nossos afazeres…).

Com uma fugacidade subtil, a sinfonia chegou ao som dos sete sinos que indicavam as sete badaladas do final do dia. Terminando com o raiar da manhã do dia seguinte, evidenciado pelos “silvos das flautas”, a peça culminou num tom triunfal e grandioso.

À saída, o público parecia manter no ouvido o timbre suave dos violinos e os tilintares melódicos das harpas – talvez a pensar na forma de retratar o seu vindouro almoço.