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Crónica

MELANCOLIA

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Na versão feliz, a ruína é coisa estimada que sobreviveu à destruição total. Na versão heróica, é o memorial de ideais passados-presentes. Na versão hollywood, são mistérios, tesouros e aventuras. Na versão turística, uma coisa linda para fotografar e iluminar à noite. Na versão melancólica, um luto sem perda consumada ou definida, um fantasma…, para Flaubert, a poesia de qualquer paisagem.

Certo é que de tantos sentidos ter e haver tantas, se perdem os sentidos das ruínas na demanda desatinada para o passado. Por excesso de incerteza, por medo do futuro ou por dificuldades e urgências do presente, nada como uma ruína para, momentaneamente, apaziguar maleitas como um antibiótico de largo espectro para esta febre de inquietações sem resposta.

Não é a marquise de alumínio que me inquieta nem o gelo e os vazios das janelas e portas sem paredes. Todas as coisas se compõem nesta ambiência metálica, fria e desamparada que respira este lugar. É o nicho-esquina-alminhas-cruzeiro incrustado nestas pedras velhas de uma casa que já foi. É isso que me interpela. Como diz Rosa Alice Branco no início de um seu poema, No princípio era o verbo / e agora ninguém responde.

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