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Opinião

A revolta do coração azul da América

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No estado mais cortês da América, o frio mais cortante já não vem do Ártico, mas do peso da história que teima em repetir | Imagem criada com IA

Já habituados ao típico frio gélido do inverno e, ainda mais, com a tempestade de gelo que está a afetar grande parte do território norte-americano, fazendo com que seja quase impossível sair de casa para lidar com os cortantes -30ºC de sensação térmica que se fazem sentir, os Minnesotans, mais uma vez provam, que são um povo muito cortês e muito “quente” face ao ambiente em que vivem.

Tal é o nível de afabilidade deste povo que habita neste estado do centro-oeste dos Estados Unidos que até, imaginem lá, tem uma expressão que representa esta cultura, o Minnesota Nice.

Sabendo, agora um pouco mais sobre o clima do estado, era de se esperar que a vida, neste momento, igualasse essa calmaria que se esperava registar, ao meio dos vários avisos das autoridades competentes, ao nível da meteorologia, mas não… na verdade, o maior centro populacional do estado, a cidade de Minneapolis, está a arder! Não no sentido literal da palavra, mas sim no ambiente social que se está a viver e no que as pessoas estão a sentir.

A história política do Minnesota

Desde os anos 80 do século passado, que este estado é um blue state. Para os que não estão muito familiarizados com a política norte-americana, isto significa, que o estado vota no partido democrático, o partido que faz frente aos Republicanos (o outro grande partido). Os Minnesotans são tão ferranhos do partido democrático, que em 1984, quando foi eleito o 40.º presidente dos Estados Unidos da América, Ronald Reagan, um republicano, foram os únicos em todos os estados do país, que permitiram que o seu estado fosse azul, ao final da noite eleitoral. Por outras palavras, o candidato que ganhou neste estado foi o adversário do futuro eleito presidente. Isto, por si só, já remete para um estado, onde a cultura e hábitos sejam, muitos daqueles que o partido democrata apoia.

Influxo migratório e a economia do estado

Com base na história política do estado, muitos emigrantes que escolheram os Estados Unidos para iniciarem um novo ciclo da sua vida, optaram-no por fazer no Minnesota. Apesar de não estar, entre os primeiros com maior população de imigrantes, apresenta uma percentagem substancial. Grande parte dos imigrantes que lá habita são latinos, asiáticos e somalis.

Outro dado importante, são as principais indústrias que permitem locomover o estado. Essas indústrias são nomeadamente, a agricultura e a manufatura, ou seja, nada mais são, aquelas que exigem um grande e exigente trabalho manual, trabalho esse que os “ditos americanos” não querem fazer. Desta forma, os imigrantes assumem um papel fulcral na economia do estado.

Fazendo um pequeno parêntesis, antes de continuar, tudo isto que escrevi serve como contextualização para aquilo que vou escrever a seguir e que, posso já adiantar, são as causas vistas pela administração Trump, para aquilo que o estado está, neste momento, a viver.

As Semelhanças na História

Desviando um pouco sobre o assunto inicial, diz-se e vê-se nas notícias que, cada vez mais, os Estados Unidos e a Europa, tem uma relação mais distante e, aqueles que, até agora sempre foram vistos como nossos aliados, já não são. Eu não poderia discordar mais, eu acho que os Estados Unidos nunca tiveram tão perto de ser a Europa… Só nos está a escapar um detalhe, uma Europa e, se quisermos ser mais específicos, uma Alemanha do SÉCULO PASSADO (anos 40)! Nunca tanto se falou e comparou, principalmente, nos Estados Unidos, da Gestapo, a polícia do regime nazi de Adolf Hitler, e o ICE, a chamada polícia de imigração dos Estados Unidos.

Isto só mostra que a história não é um momento isolado, mas sim parte de um ciclo, do qual deveríamos tirar algumas lições e, é o que os Minnesotans parece que estão a fazer, ao mostrar ao restante país e, quiçá, ao mundo, como lidar com um regime que não é oficialmente fascista, mas age como tal!

O Gatilho e a Gota de Água dos Minnesotans

Desde o início desta política migratória do governo norte-americano, que se sabia que era apenas uma questão de tempo para que a “bomba”, que se vinha a tornar maior, a cada dia que passava, explodisse. Todos sabiam que tratava-se de uma bomba relógio e a questão que se impunha era quando é que ela vai explodir e não se se vai explodir! O local da explosão foi em Minneapolis, Minnesota às 9 horas e 37 minutos da manhã e, até se quisermos ser mais específico no segundo treze desse minuto, quando um agente da Polícia de Fronteira e Imigração (ICE), Jonathan Ross, disparou três balas, à queima-roupa, contra Renée Good, uma cidadã norte-americana, que se encontrava no interior do seu carro. A partir daí, toda e qualquer paciência que os americanos estavam a ter por estas estratégias que o ICE usava acabou, esgotaram-se mesmo.

Desde então, que a vida naquele estado não é a mesma. As pessoas de todos os espaços políticos reuniram-se para lutar contra estes agentes, que, muitas vezes, por hipócrita que pareça, tem a mesma origem daqueles imigrantes que estão a expulsar do país. Além disso, como se isso, já não tivesse a sua dose de comédia, o responsável por colocar em prática estas medidas contra a imigração, dizem eles apenas ilegal…, Greg Bovino, é neto de um imigrante que emigrou da Itália para a Carolina do Norte. Adoraria que ele se abrisse um pouco ao exterior e decidisse aprender português, ou pelo menos, o suficiente para entender o significado do seu apelido, porque assenta-lhe que nem uma luva!

América: A Vida Num Clima de Repressão

Nas redes sociais, uma das grandes armas que possuímos, neste momento, mas que tem que ser usadas com cuidado, para evitar um disparo acidental contra nós mesmos, tem circulado milhares de vídeos de manifestações contra o ICE (que já se alastraram a outros estados e países) e as suas práticas nesta sanctuary city (onde, este fim de semana morreu mais um cidadão norte-americano Alex Pretti), manifestantes a rodearem carros onde circulam estes agentes, ou até, o melhor para mim, que me despertou um resquício de esperança na humanidade, que é o facto das pessoas quando avistam estes veículos, apitam sem parar, para avisar os outros de um perigo iminente. E, se olharmos bem, é a função da buzina e o objetivo para o qual ela foi colocada nos carros… O mais engraçado, no meio disto tudo, é que eles (os agentes) fazem tudo mascarados, nem eles próprios conseguem olhar para si, depois de tanto mal e destruição que causam. Como é que se diz… ah! já sei: PESO NA CONSCIÊNCIA! A situação é tão preocupante, que vizinhos juntam-se para garantir corredores seguros, para que as crianças possam ir e voltar da escola, sem qualquer precaução. No entanto, apesar destes esforços feitos pela comunidade, aquando duma destas operações do ICE, na qual resultou na prisão de um homem, o próprio filho, de 5 anos, também foi levado por estes agentes.

“A qualquer momento podem vir-nos buscar. (…) Conhecemos muitas pessoas que foram levadas e nunca mais voltaram. (…) A Gestapo não precisa de razões. Basta uma suspeita!”, de Diário de Anne Frank

As respostas

Começando pelas más notícias, a administração norte-americana minimiza e relativiza tudo o que se está a passar no estado, que até já ativou a sua Guarda Nacional, para lidar com o ICE. Além disso, apoia o DHS e a sua secretária Noem, pela forma de intervenção e o “sucesso” da operação. Agora no que toca às boas notícias, várias personalidades famosas mostraram apoio e compaixão por toda esta situação e com o povo do Minnesota, principalmente.

Para acabar em grande, a popularidade e o nível de satisfação para com o presidente Trump e a sua administração está em baixos históricos e, sabendo que em novembro deste ano irão ter realizadas as Midterms, umas eleições intercalares no mandato, que elegem novos representantes para o Congresso. No entanto, Trump já mencionou a possibilidade de cancelar estas eleições (algo incompreensível num país, que até agora era visto como o pilar da democracia), que podem colocar em causa o seu cargo, uma vez que se o Congresso, for maioritariamente, do partido Democrata, como aparenta ser o caso, após as eleições, devido ao baixo nível de apoio à atual administração, o mesmo pode destituir o presidente.

No meio de toda esta confusão, o que mais me impressiona é a capacidade de uma comunidade inteira se levantar para defender os seus interesses bem como o seu direito à liberdade, que até agora considerava como garantida. O Minnesota, tantas vezes lembrado pelo seu clima rigoroso e pela afabilidade dos habitantes, mostra agora que também sabe ser firme quando é necessário sê-lo!

Independentemente dos ideais e crenças que cada um de nós possa ter, o que se vive neste estado é um autêntico atentado à democracia, lembrando-nos que esta exige uma vigilância constante e participação ativa de cada um de nós para o bom funcionamento de uma sociedade, como um todo! Uma coisa é certa: Quando um povo decide levantar a sua voz, nem o frio mais intenso consegue congelar a vontade de mudança!

P.S.: Fica a nota, muitos dizem que a Alemanha nazi de Hitler só não invadiu a União Soviética, devido às suas extremas temperaturas baixas…

 

Texto da autoria de Armando Santos.

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