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Crónica

CIDADES INTELIGENTES E SUSTENTÁVEIS

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Quando Alain Touraine procura explicar as etapas da crise da modernidade, parte da questão de se saber o que é que mudou desde o iluminismo, quando a liberdade e a racionalidade científica e tecnológica pretendiam ser bandeiras contra o obscurantismo, a ignorância, a escravatura, ou o entendimento de um mundo fechado que reproduzia crenças teleológicas e autoritarismos despóticos.

No mundo da razão objectiva que eliminaria os ruídos da emoção, a magia e o encantamento, os humanos seriam apenas uma peça da ordem e da unidade totalizante do mundo dos fenómenos naturais. Podia acontecer, seria uma monotonia, mas não evitaria que a barbárie aflorasse constantemente tomando nomes como a neo-escravatura que o capitalismo global produz em todo o lado, a destruição dos recursos do planeta, a vertigem insaciável do consumo ou a ciência e a tecnologia instrumentalizadas para os mais diversos e obscuros fins. Por isso andamos confusos com o fascínio tecnológico, ao mesmo tempo luz e assombração.

É exactamente na intensificação da globalização liberal dos mercados e no aprofundamento da condição tecno-humana que se produzem as grandes contradições – tudo pode ser ao mesmo tempo e com a mesma intensidade o mais apocalíptico pesadelo ou a mais utópica esperança. No inverso do iluminismo pretérito que acreditava na linha recta e luminosa da ciência, a intensificação tecno-científica vai a par com a contingência acrescida, com a incerteza, com a incompreensão – quem percebe muito bem as vantagens do uso de um computador pessoal, de um telemóvel ou da internet, está muito longe de saber o que é que pode amanhã ocorrer de totalmente imprevisto no planeta em função do uso, exactamente, do computador pessoal, do telemóvel ou da internet. A razão fraccionada e disseminada por infinitas coisas e razões não faz parte de nenhum todo ou razão universal. Por isso não se pode extrapolar a partir do uso pessoal de um computador, aquilo que o mesmo pode significar ao nível da complexidade e da opacidade do mundo.

 

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Por isso, chega a ser paradoxal ou até cínica a denominação de “Cidade Inteligente” quando nem sequer sabemos o que é que significa a palavra cidade – um lugar no mapa, para uns, ou um entramado infinito que engloba grupos sociais, estilos de vida, visões do mundo, geografias múltiplas, pobreza extrema ou opulência máxima – e o que é, para e a quem serve a dita inteligência. Numa plataforma oficial do governo indiano, MyGov – great gouvernance with your participation,[1] o cidadão é transformado em stakeholder (accionista, na linguagem do business), numa assembleia de participatory governance. Na Mumbai Smart City Initiative through Citizen Participation, a tecnologia é inteligente e dotada de uma ética e de uma moral a toda a prova. Não é. Serve também para organizar negócios, fazer fluir o dinheiro, denunciar paraísos fiscais, comandar o trânsito, organizar atentados terroristas ou vacinar crianças. A suposta neutralidade dos assuntos técnicos vai amparada pelo enunciado ad nauseam das frases e expressões politicamente correctas – cidadania, participação, empoderamento, resiliência, criatividade, empreendedorismo, sustentabilidade, justiça, competitividade e outros intensificadores de aromas e sobres.

O ruído é ensurdecedor: Bombaim é a cidade  – qual Bombaim?, a dos milhões de infra-pobres? Transformada em sujeito que lhe reforça a sua carga ideológica e mistificadora, a palavra pode imediatamente servir para praticamente tudo e ser o biombo perfeito para ocultar as mais obscuras ou luminosas maquinações. A sobreabundância de dados – big data – que a cidade inteligente requer pode paralisar qualquer cidadão que, de resto, nem sequer sabe quantas vezes está a ser digitalizado, cadastrado, monitorizado e para que efeito. Os intervalos entre distopia e utopia, humanismo e transumanismo, realidade e ficção, justiça e opressão, governo e controlo, etc., são ínfimos, contagiosos e perigosos.

 

[1] https://mygov.in/group-issue/mumbai-smart-city-initiative-through-citizen-participation/