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Artigo de Opinião

A Romantização da Tristeza

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A romantização e seus impactos na sociedade contemporânea.
Nas redes sociais, nos reels e nos tiktoks, vemos a tristeza como algo "aesthetic", como se fosse um modo de vida. As músicas, as cores, a narrativa. Tudo conta | Imagem: pexels-wellingtonsilva

A forma como lidamos com a tristeza também revela muito sobre a sociedade em que vivemos. Se o Romantismo transformou a melancolia, o sofrimento e a individualidade em experiências dotadas de valor estético e intelectual, a cultura digital parece ter encontrado novas formas de reproduzir e amplificar esse imaginário.

Entre músicas, imagens, vídeos e narrativas cuidadosamente construídas para as redes sociais, a tristeza deixou de ser apenas uma emoção: em certos contextos, tornou-se também uma estética, uma identidade e até uma forma de estar no mundo. O romantismo que começou na europa no século XVIII e que se caracteriza pela emoção desgarrada e o individualismo. Rapidamente espalhou-se por poetas, filósofos, escritores de romances, músicos, entre outros.

É definitivamente um dos movimentos mais importantes de toda a história do mundo. É quase como um “mindset” para interpretarmos e vivermos de uma certa forma certas emoções. É também uma antítese ao mundo industrializado e cada vez mais mecanicista.

É com na solidão na geração TikTok: reagem, mas não sentem.

Romantismo no mundo atual

Estava a ler um livro da Bruna Martiolli e deparei-me com um excerto em que a Bruna explicava o quão “atraente” era a tristeza. Um filme, um livro, um teatro que não tem um momento mais melancólico, onde o drama é espalhado pelas nossas almas, não é tão marcante como algo que eleve o bom, a bondade e as virtudes.

E nós gostamos dessa tristeza. O que fazemos quando estamos tristes? Ouvimos músicas tristes para de uma certa forma nos identificarmos, mas também arrisco a dizer que há uma espécie de romantização nesta prática.

Nas redes sociais, nos reels e nos tiktoks, vemos a tristeza como algo “aesthetic”, como se fosse um modo de vida. As músicas, as cores, a narrativa. Tudo conta.

Não falo com isto que a tristeza não seja necessária, ela é mais que importante nas nossas vidas. A questão que eu coloco é tornar uma emoção num “estilo de vida”, numa posição e numa arte de viver. Uma corrente que era contra o mecanicismo tornou-se por si mesma uma máquina mecanista, por ser distribuída, maioritariamente, pelos algoritmos digitais.

E é bom para o algoritmo sentirmo-nos assim. Sempre que nos identificamos com algo que o algoritmo indicou, vai aparecer mais e mais informações sobre esse tema. Ora, se estivermos tristes, o algoritmo vai recomendar uma potencialização da nossa tristeza para nos manter ativos na plataforma.

A herança romântico de que sofrer é sinal de profundidade

O “mindset” do romantismo tornou o sofrimento como algo intelectual. O caso mais gritante é o de Van Gogh, em que (quase) todos e todas admiramos não só as suas obras como o seu estilo de vida de auto-sabotagem, tristeza e no fim a morte. É o génio do artista que cria mas que ao mesmo tempo sofre, que cria porque sofre. Isto leva-nos à crença de que só somos profundos e criativos quando sofremos sem piedade.

A ligação entre melancolia e génio é antiga, mas foi o Romantismo que a tornou num ideal. Antes, o artista era alguém que dominava a sua área. Agora, não queremos saber apenas da área, mas sim do artista. O que é que ele sentiu mais do que os outros para fazer isto?

Se acreditamos que a profundidade vem da dor, melhorar passa a ser uma perda e, muitas pessoas receiam que, ao ficarem melhores emocionalmente, se tornem banais ou deixem de criar. O mito não só embeleza a tristeza como nos dá uma razão para não sair dela.

Faço a pergunta: onde queremos chegar com isto?

A meu ver, esta prática não favorece ninguém. Não tem a ver com estarmos sempre felizes, mas encarar a tristeza como algo necessário mas não necessariamente trágica e “instagramável”.

Eu escrevo este artigo não só para quem está a ler, mas também para mim que me por muitas vezes romantizei esta emoção. Ouvia músicas tristes para ficar ainda mais triste, via vídeos que me entristeciam ainda mais quando, em vez disso, poderia viver este sentimento de uma forma mais real, analítica, que me desse alguma lição introspectiva.

Assim, convido o(a) leitor(a) a, quando aparecer a tristeza, não a encarar como se fosse o maior mal do mundo, como se os outros fossem gostar mais de nós por estarmos tristes.

 

Texto da autoria de Beatriz Vaz Pereira Martins 

 

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