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Crónica

NA AMÉRICA LATINA #9

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Desta vez, escrevo no interior de uma camioneta, onde espero fazer, em 24 horas, a ligação entre Santa Cruz, na Bolívia, e Assunción, no Paraguai. Gosto de atravessar fronteiras. Embora todo o processo seja bastante aborrecido, os momentos de espera fazem-me sentir que vou saltar outra vez para o desconhecido e que é uma nova aventura aquela em que estou a entrar. Aviso prévio, esta crónica será, talvez, mais aborrecida do que anterior. Não voltei a escalar montanhas. Aliás, o dia de ontem foi passado em casa, porque a época das chuvas, na parte amazónica da Bolívia, começou e ainda não passaram cinco minutos em que não chovesse.

É verdade: saio da Bolívia e entro no Paraguai. Paraguai? Porquê o Paraguai? É um país que foge aos roteiros turísticos, que não está no itinerário habitual dos mochileiros. Talvez daí, a minha curiosidade, o desejo de ver uma América Latina ainda “pura”, sem todas as agências em busca de turistas, ainda que o meu principal objectivo seja atingir as magníficas (assim o espero) cataratas do Iguaçu. Estou curiosa em relação ao Paraguai. Ficará para a próxima crónica.

Saída da subida ao Huayna Potosi, fui direta de autocarro até Uyuni, onde está o famoso deserto de sal. Este é impossível de visitar sem uma excursão turística, havendo dezenas de operadores que nos assediam mal saímos da camioneta. A excursão acabou por ser uma excelente opção, já que passei três dias num Jipe fazendo percursos no deserto que, de outro modo, seriam impossíveis.

Uyuni é um lugar que parece de outro mundo. São quilómetros e quilómetros de uma planície de sal, branca como a neve, com a qual só contrasta o muito azul céu. É o primeiro lugar que vi em que se sente que não há horizonte. Tudo é sal à nossa volta, muito brilhante, que reflete o sol. Espalhadas neste mar sem água, surgem ilhas. E, as ilhas, estão completamente povoadas por cactos de metros de altura, assemelhando-se a grandes homens das cavernas com braços muito gordos e cobertos de picos. É um cenário completamente surreal: um deserto de sal com ilhas de cactos. Ninguém escapa às fotografias a fazer saltos acrobáticos ou perpectivas no Salar e os carros parece que andam ao acaso na planície, sem qualquer estrada ou indicação. Na primeira noite ficamos a dormir num hotel construído a partir de sal. Estava muito frio: Uyuni pode atingir temperaturas de 20 graus negativos à noite.

No dia seguinte, saímos do deserto de sal e entrámos no deserto de areia. Uma paisagem constantemente amarelo-torrada, muito inóspita, em que a única vegetação que crescia era rasteira. Estávamos sempre rodeados de grandes montanhas, pontiagudas e castanhas, que perfuravam o céu muito azul. De vez em quando, apareciam formações de enormes pedregulhos, que pareciam pesar toneladas, modelados pela erosão do vento (a famosa árvore de pedra que é exibida nos livros de geologia). De repente, no meio desta paisagem seca e árida, aparece uma lagoa com milhares de flamingos cor-de-rosa! A lagoa era de um azul muito escuro e reflectia perfeitamente os flamingos, que passeavam de pescoço muito altivo. As suas margens eram de um branco como o do salar. Parecia mentira de tão bonito que era. Estava muito frio. Só se ouviam os flamingos e o vento.

Continuando o percurso  pelo deserto, a combinação de cores era mágica: o azul de céu, o castanho das montanhas, o verde e amarelo das plantas rasteiras. O jipe passava por riachos em desfiladeiros de pedra, dos quais saíam, tímidos, bichos que nunca antes tinha visto, que pareciam uma combinação de coelho e esquilo, tendo os dentes do primeiro e a cauda do segundo.

Para o terceiro dia, estavam reservadas as águas termais. Acordámos cedíssimo e os termómetros indicavam temperaturas negativas. Das águas termais, só se via o fumo que emanavam. O meu primeiro instinto foi nem sequer sair do carro. Não valia a pena, estava demasiado frio. Mas, depois, as pessoas começaram a entrar, e parecia bastante agradável. Coragem. Vesti o biquini a correr e, nas lagoas, toda a gente olhava para a próxima pessoa que iria entrar, porque a expressão era exactamente igual e muito divertida. Mal o primeiro pé entra na lagoa, toda a cara da pessoa se enchia de uma expressão de prazer e de alívio, um “Ahah, que maravilha”, e já ninguém queria abandonar a lagoa. Antes de voltarmos à cidade, ainda parámos para almoçar num vale verde, onde corria um riacho gelado pelo frio e onde dezenas de lamas pastavam placidamente. Soube muito bem, o silêncio quase total e o ar frio na cara.

Saída de Uyuni, a paragem seguinte foi Potosi, o antigo El Dorado espanhol, de onde a coroa extraía prata que parecia não ter fim. A prata foi esgotada pelos espanhóis, nas suas casas e igrejas sumptuosas. Mas as minas, essas ainda existem, e são impressionantes. Há que pensar nestes mineiros de cada vez que nos queixamos de alguma coisa. Eu passei duas horas dentro da mina. E foram duas horas em que só queria sair para a luz do sol. Imaginar que há quem trabalhe turnos de mais de 12 horas, sem qualquer apoio social, crianças que para lá vão depois da escola, expostos sem nenhuma proteção a arsénio e a outros gases tóxicos, é chocante. E imaginar não chega, há que estar verdadeiramente lá dentro, sentir o ar quente e sufocante, andar agachado e bater com a cabeça nos túneis estreitos, ver a enorme e assustadora escuridão das profundidades. Para cúmulo, os mineiros alimentam-se exclusivamente de folhas de coca nas horas que passam dentro da mina: a lenda diz que comer ofenderá as divindades que vão sendo encontradas nos túneis, enfeitadas com serpentinas e às quais se oferece alcoól etílico para beber com os trabalhadores. Quando saí, ver a luz do sol foi um alívio absoluto. Mas, ao contrário de mim, há muita gente para quem isso apenas significa que amanhã será outro dia debaixo dos túneis.

La Paz não é a capital da Bolívia, sabiam? A capital é Sucre, e também, provavelmente, a cidade mais bonita. Apesar de ser a capital, Sucre não perde a sua tranquilidade e a sensação de que se está numa cidade pequena. As casas são todas brancas e estão impecavelmente pintadas. Não há arranha céus e todo o centro mantém a arquitectura colonial. No parque, tem uma réplica da Torre Eifel e do Arco do Triunfo, o que faz com que lhe chamem “a pequena Paris”. Sabe bem passear na cidade, que faz juz à fama de melhor comida na Bolívia, com as deliciosas salteñas (empadas de frango e massa doce) a aparecerem em cada esquina.

Também me pareceu ser a cidade com maior vida cultural: vi que, se vivesse na Bolívia, poderia ter algo semelhante às noites em que vou ouvir o Rui David, no Porto. Uma banda com uma guitarra, um cantor e uma cantora, que animava o bar todos os sábados, cantando Mercedes Sosa e Fito Paez. O público acompanhava com as palmas latinas. Na última música, pedida por mim, convidaram-me para cantar com eles e ouviu-se um coro de Cambia, Todo Cambia com muito fervor. Foi maravilhoso e deixou-me a pensar nas saudades que tenho das minhas noites no Porto.

De Sucre, segui para Samaipata, uma pequena vila já a chegar à parte amazónica da Bolívia. Fez-me lembrar Vilcabamba, no Equador, e gostei tanto dela como de Vilcabamba. A vila é muito pequenina, tem estradas de terra e casas coloridas. E tem toda a beleza à sua volta, como, por exemplo, as cascatas de Cuevas. Estas estão metidas num cenário de grandes montanhas verde-pimento, que se erguem muito inclinadas, para o céu e, depois de atravessar caminhos de terra com muita vegetação, vê-se a água a cair com força dos rápidos em três momentos diferentes. Estive a tomar banho lá em baixo e confirmei: caem mesmo com muita força.

Para terminar a minha estadia na Bolívia, em beleza, reservei as missões jesuítas de San Javier de Chiquitos. Já fazem parte da Amazónia boliviana e senti que estava num país completamente diferente. Longe estavam o frio, os trajes e os rostos andinos. Agora, a temperatura era quente e húmida, as pessoas muito mais abertas e sorridentes e toda a paisagem era plana e verde como na selva.

A vila de San Javier aparece muito bucólica, naquele ar húmido que se sente na África Equatorial, constituída por casas brancas com telhados de madeira que se prolongam, enchendo os passeios de sombra. A igreja jesuíta aparece no meio de uma praça tropical, construída também em madeira e decorada com tons pastel, muito escondida pela vegetação, sem se destacar de nenhuma forma do resto da cidade. Muito pacífica e calma, ao contrário das igrejas imponentes e douradas que conhecia das cidades. Agora saio da Bolívia. Ainda cá volto, para apanhar o avião que parte de La Paz. Valeu muito a pena conhecê-la.

 

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