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Sociedade

31 ANOS DE JUP, 31 ANOS DE HISTÓRIAS

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Edição Experimental do JUP.

Edição Experimental do JUP.

Decorria a década de 80. A Academia do Porto contava com uma Rádio Universitária e surge o desejo de ter um jornal que abordasse as dificuldades dos estudantes e fosse ao encontro das suas necessidades. A 29 de março de 1987, surge o JUP – Jornal Universitário do Porto – pela mão da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências.

O grande objetivo era “criar um jornal que pudesse ser útil aos estudantes e que fosse a sua voz, assegurando-lhe infraestruturas” – conta Jorge Pedro Sousa, um dos fundadores e primeiro diretor do JUP – “e isso foi atingido”.

O NJAP

Para que o Jornal se autonomizasse, foi criada uma associação detentora do JUP, que ficasse responsável pelas vertentes burocrática e financeira do Jornal, o NJAP – Núcleo de Jornalismo Académico do Porto.

“Apenas os dois primeiros números tiveram o apoio organizacional da Associação de Estudantes [de Ciências], depois autonomizou-se. E desde o início foram-se agregando outras pessoas de outras faculdades”, esclarece Jorge Pedro Sousa, que era estudante de biologia aquando da formação do JUP e é agora professor de Jornalismo na Universidade Fernando Pessoa.

Gonçalo Norton Lages, atual diretor do NJAP, esclarece que, a par do Jornal, o NJAP, “por ser uma associação juvenil, comporta também o trabalho do associativismo, nomeadamente formações e eventos”.

A consciência de que não só de JUP se faz o jornalismo académico está também presente. “Estamos a tentar focar-nos noutros tipos de jornalismo e noutro tipo de atividades que têm sido esperadas, nomeadamente de âmbito formativo, que possam servir os associados e a restante Academia”.

A Casa

O projeto estava a dar os primeiros passos e, apoiado pelo reitor José Alberto Amaral, conquistou dois pisos no número 187 da rua Miguel Bombarda, que incluíam um laboratório de fotografia, e, a determinada altura, “chegou mesmo a ocupar os quatro pisos da casa”, relata ainda Jorge Pedro Sousa.

Mais de duas décadas passadas e o espaço encontrava-se num estado degradado. O JUP viu-se obrigado a mudar de instalações. “Foi quando eu entrei para o JUP que nos mudamos para Coronel Pacheco”, explica Joel Pais, que é convidado a ocupar o cargo de Chefe de Redação em 2013. “Tivemos de abandonar Miguel Bombarda, não porque a renda fosse exageradamente alta, mas porque o proprietário recusava-se a fazer obras e já chovia lá dentro”.

A sede do JUP passa a resumir-se a uma sala arrendada à reitoria no edifício dos MIL (Media Innovation Labs), na Praça Coronel Pacheco, onde ainda se mantém. A mesa da sala é a porta do edifício de Miguel Bombarda. A história do Jornal e da Academia está empacotada, distribuída entre caixas e gavetas, onde se encontram registos fotográficos dos vários eventos académicos, assim como edições impressas do jornal.

Do impresso ao digital

O JUP começou por ser um jornal de papel, entrou em campo misto e ganhou também um suporte digital, até chegar a uma existência somente online, em 2016.

A última edição impressa, lançada em março de 2015 sob a direção de Joel Pais e edição da convidada Conceição Nogueira, tinha uma nova abordagem. “A reitoria atrasava-se a pagar os apoios financeiros, as notícias demoravam a chegar e perdia-se a atualidade”, explica o antigo estudante. Tomou-se então uma decisão: “o impresso tinha de ser temático, para se manter atual”.

Capa da última edição impressa do JUP (março de 2015). Imagem cedida por Joel Pais.

Capa da última edição impressa do JUP (março de 2015). Imagem cedida por Joel Pais.

“Género e Sexualidades” foi o mote escolhido e a edição causou controvérsia na Academia: “colocamos no Roteiro opções adaptadas às sexualidades, uma delas uma sauna gay e isso foi mal visto pela parte mais conservadora da Universidade”.

A distribuição foi feita “de forma caótica”, dada a falta de meios. Chegou-se a lançar uma Carta Aberta à reitoria, em novembro, pela falta de financiamento. A reitoria costumava atrasar-se nos pagamentos, mas, neste caso, “atrasou e nunca mais chegou”.

“Com estes problemas com a reitoria e com o financiamento do Jornal, faria sentido pensar no Digital e foi o que a nova direção fez e fez muito bem”, afirma Joel Pais.

A nova direção a que Joel se refere foi constituída por Beatriz Rainha e Beatriz Pinto. As novas diretoras viram no digital uma oportunidade e necessidade. Beatriz Rainha considerou esta mudança “absolutamente necessária”. Vários são os motivos apontados pela antiga diretora: “a alteração da forma como nós consumimos informação”, “o fortalecimento e revitalização da editoria de Multimédia com o jornalismo digital” e (“este motivo teve uma força maior do que gostaríamos de admitir”) “questões financeiras”.

O site já existia mas precisava de ser melhorado. “Houve um processo de reestruturação digital, onde foi necessário redesenhar e implementar a página de início e melhorar questões como a navegação, hierarquização de informação e design”. Para tal, contaram com a “preciosa” ajuda do professor Bruno Giesteira e do atual webmaster do JUP, André Gomes.

Apesar do sentimento de “missão cumprida”, Beatriz Rainha acrescenta que “o regresso do JUP ao formato papel é um sonho que ainda tenho, mesmo enquanto leitora”.

Um sonho de muitos

O desejo de Beatriz Rainha é partilhado por vários ex-integrantes e atuais membros do JUP, que veem na versão impressa a oportunidade de marcar uma presença física.

Jorge Pedro Sousa, o primeiro diretor, admite que “o JUP melhorou bastante a nível de conteúdos e forma. A internet dá-lhe um potencial que na nossa época não conseguiria atingir”. Porém, vê o impresso como “essencial” e atira algumas acusações à Universidade do Porto (UP). “A reitoria é, ou tem de ser, a principal fonte de sustento do JUP. Ceder instalações condignas e financiar a impressão de uma edição anual não me parece que se refletiria muito negativamente na parte financeira da reitoria”, afirma.

A concordar com o fundador está Joel Pais, que garante que “funciona bem melhor do que funcionava no meu tempo. Estão a publicar bastante, o que é ótimo”. A vontade permanece a mesma: “mas, como é óbvio, prefiro sempre o impresso. Para mim tem muito valor”.

A procura por satisfazer este desejo tem ocupado o NJAP. O presidente, Gonçalo Lages, garante que este é um dos principais objetivos. “Estamos a tentar viabilizar a edição impressa do JUP, foi uma das coisas que perdemos e isso tem um impacto inegável”.

“Durante muitos anos, tivemos o apoio de várias entidades, que fomos perdendo ao longo do tempo, financeiros e não só. Também por má gestão. Desde que tomamos posse, começamos a tentar arrumar a casa”. Gonçalo fala em contas por pagar e situações irregulares em vários organismos, deixadas por antigas direções, que “condicionam” o trabalho desenvolvido agora.

O IPDJ e a reitoria já receberam candidaturas de apoios do NJAP. A associação vê também uma fonte de valor nas outras universidades. “O JUP é aberto a toda a Academia, portanto não é só responsabilidade da UP”, afirma Gonçalo, referindo-se às instituições privadas e politécnicos.

Histórias e mitos

Nem só de notícias e artigos é feito o JUP. O jornal universitário mais antigo do país carrega um legado dos vários estudantes que por ele passaram.

A mudança de instalações parece ter colocado um ponto final numa história que se contava há algumas gerações. “Em Miguel Bombarda, comentava-se que o JUP tinha uma biblioteca, mas que tinha desaparecido, porque as pessoas iam levando livros discretamente ao longo dos anos”, narra Joel Pais, que acompanhou esta transição.

Chegado o momento de abandonar a sede inicial, os colaboradores, enquanto arrumavam, descobrem umas “portinhas pequeninas”, que nunca tinham sido abertas. A curiosidade transforma-se em surpresa e contentamento. “Estavam lá os livros, que se julgavam perdidos. A biblioteca esteve fechada durante anos”.

Um dos mistérios foi solucionado em Miguel Bombarda e outro está ainda por desvendar em Coronel Pacheco.

O antigo diretor do JUP revela a existência de um mito que rodeia a Águas Furtadas, uma publicação pertencente ao NJAP que reunia vários trabalhos artísticos dos estudantes da Academia. “As primeiras Águas Furtadas eram uma coisa muito pequenina e tinham uma tiragem muito mais pequena. E o JUP, mesmo na biblioteca entretanto descoberta, não tem um exemplar da primeira edição”, que inclui um contributo textual do autor Valter Hugo Mãe. O mistério adensa-se: “Já tive a oportunidade de estar em contacto com vários antigos membros do Jornal e ninguém tem a primeira edição”.

“Na sala do JUP, existe um cofre pequenino que não tem chave”. Reza a história e conta-a Joel que “a primeira publicação da Águas Furtadas está guardada lá dentro”.

Verdade ou não, o JUP tem-se construído como um órgão de comunicação social assente na interação entre estudantes, dando aso à formação de uma cultura interna, transmitida de geração em geração.

Mais anos de JUP

A herança continua a ser passada e presentemente cabe a Mariana Durães e Rui Costa essa responsabilidade. Os atuais diretores fazem parte do JUP desde o primeiro ano da sua licenciatura em Ciências da Comunicação, com o objetivo de colocar em prática os conhecimentos adquiridos no curso.

Mariana garante que encontrou o JUP com “as coisas muito bem encaminhadas e em ordem”. O seu principal desafio foi alinhar a equipa, “por ser trabalho voluntário pode ser mais difícil conseguir o comprometimento das pessoas”. Não esquece os leitores: “o desafio diário é conseguir fazer conteúdo interessante e diferente, que atraia os jovens e portuenses”.

Rui Costa sublinha a importância de uma edição impressa, e da manutenção do JUP, “elevando-o a outro nível”. “O JUP perdeu alguma projeção nos últimos anos, e o objetivo é torna-lo novamente relevante na Academia”, afirma.

Já com algum distanciamento, Joel Pais reflete no tempo que passou no JUP. “Passei por crises financeiras, ataques da reitoria, ataques da FAP, e, olhando para trás, acho que estes 31 anos valeram todas as perseguições. E valeram pelas pessoas que estiverem dentro do JUP, pelas causas, e, sobretudo, pela aprendizagem, porque foi e é um jornal-escola. É uma escola de ativismo, de lutas e de jornalismo”.

Imagem: Joana Jacques

Imagem: Joana Jacques